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Banville e Eclipse e Eu

eclipse

 

Que é um livro, um texto senão um produto ideológico comercial e social? Escritor está à venda, leitor é o seu patrão e a estrada chamada palavra é apenas um produto. Dê seus tomates que dou minhas batatas! Há os que se vendem de graça esperando à frente venderem-se mais caros. Como o feirante que permite à dona de casa comer um caqui seu de graça para sentir como é doce, esperando conquista-la para a compra frequente. A estrada é de via dupla para os duplos. O que paga espera receber, o que recebe espera pagar. No fim todo mundo fez apenas um comércio. Mera troca de vinténs para ocupar o tempo de ambos. Falar de literatura de entretenimento e alta literatura é falácia. A alta literatura é entretenimento. A relês é entretenimento. Quanto às vendas, o que dizer quando um livro “vendável” encalha e o “difícil” se esparrama como grama nas estantes? Será que o aclamado pela crítica fica infeliz quando vende muito? Não é somente uma desculpa dos escritores que não vendem (principalmente brasileiros), e têm um juízo elevado de si, quando culpam o leitor pelo seu próprio fracasso editorial? Invejosos? Daí o ódio a Paulo Coelho? Ora, todos os escritores publicados querem vender e virar best-seller. E todo mundo que compra busca se entreter, possuir, gritar: é meu, meu, meu! Ninguém quer ficar restrito às palmas de um grupo de críticos esquisitos, poetas malucos e escritores excêntricos com óculos fundo de garrafa, que parecem ter nascido junto com as cadeiras dentro de uma biblioteca, e nos dão a impressão de tomarem banho com espanador de pó, tendo no meio do crânio um marcador de páginas. John Banville também não foge disso. Isto é, dinheirinho, elogiozinho e beijinhos de moças bonitinhas. E Eclipse está custando o mesmo que o neoclássico Grey, ansiando por um corajoso que o comprasse. Implorando. Quando o vi na prateleira, ele chorava pedindo que o livrasse da companhia de “Tá gravando. E agora?” e um cd “Monomania” quase caindo em cima dele. E olha que o rosto dele é cheio de nove horas como se vê acima… Pobre coitado! Que diria Banville se soubesse que comprei sua obra por comiseração? Nada? Provocações e ironias à parte, ou não.

Esta relação entre o leitor e escritor parece mesmo uma relação. Que não requer uma intimidade ou mesmo uma apresentação formal como o cumprimento. Confluindo inclusive numa inimizade. Ramificando-se numa troca de pontos de vista de maneira amistosa, amável, apaixonada, conflituosa, verborrágica, beligerante, difamatória, briguenta até. Ou podendo resultar  num aceno distanciado entre conhecidos. Num esbarrão entre transeuntes em alguma rua movimentada. Ou ainda, numa troca de olhares entre duas pessoas num encontro casual, em que ambas desconfiam uma da outra categoricamente e de suas reais intenções: “É um charlatão, uma fraude, um ator, um gênio, um louco?”. Foi assim, dentro dessa última acepção, que se deu minha relação – isto é, de reconhecimento – com Eclipse de John Banville. Não digo que ele se esforçou para que eu o compreendesse. Ainda assim, não tumultuou tanto a relação nos distanciando naquele aceno desinteressado. O que sei é que gente fina ele não é.

Eclipse.

Alexander Cleave é ator teatral (ou era até o fracasso) de cinquenta anos que representa há quarenta. Abandona a atuação após uma apresentação desastrosa. Esqueceu-se da fala e também de improvisar, saindo do palco sob risos e em colapso, pior que um amador. Casado com Lydia, tem uma filha: Cass, que não mora com eles. Após a saída inglória da atuação, dirige um dia a esmo, dando de encontro com um animal que não consegue discernir qual seja. Para o carro, reflete e decide que tudo isso foi uma espécie de sinal para retornar a casa em que passou sua infância. Percorre nele um sentimento de nostalgia, entremeado de uma sensação curiosa, quase mística, conduzindo-o a crer que a resolução de seus problemas e o conhecimento de si do qual necessita será através desse retorno. Retorna  lidando com reminiscências, consigo mesmo e outras duas pessoas: Quirke, o caseiro, e Lily, filha deste. Ambos estão morando na casa de Alexander; ele não sabe, descobrirá mais tarde. A ida a casa é compartilhada com Lydia. Seu desejo de permanecer nela só é visto pela esposa como uma de muitas de suas excentricidades. Ela já não o vê como alguém totalmente lúcido.  No entanto, parece estar inteiramente habituada com a condição mental de Alexander e, a princípio, não interfere para que surja  conflito algum. Como se vê, é uma história bem comum. A sua excepcionalidade estará na construção literária em cima de tão parca substância. Os fatos, na verdade, pouco importam. A natureza ou foco principal da obra está no desenvolvimento psicológico e na capacidade literária espantosa do autor em narrar.

Não conhecia Banville e não sei se depois de ler o primeiro livro dele há segurança para dizer que o conheço. Claro que ele tem sua biografia pública por todos os cantos. Falo de outra forma de conhecimento. A padronizada é esta. Formação educacional: aparentemente sem curso superior; local de nascimento: Irlanda, e o início de sua publicação ficcional se deu por volta de 1970 com uma coletânea de contos. Nascido em 1945 é um dos grandes escritores contemporâneos que escrevem em língua inglesa. A crítica o purpurina nos adjetivos. É um dos amados das Academias, não à toa. Dizem até que é sempre candidato ao Nobel. Ele tem estilo, tem uma voz significativa, criatividade, olhar aguçado sob rico vocabulário, poder de construção literária dentro de fatos banais. É, de fato, um escritor completo, reconhecido, premiado, dentre tantos prêmios, um que se destaca: Man Booker Prize de 2005, por outro romance, que não li: The Sea (O mar – Globo). Escreve também romances policiais sob o pseudônimo Benjamin Black. Este sobre o qual escrevo e li foi publicado em 2000, Eclipse – Biblioteca Azul (Selo Globo), e faz parte de uma trilogia um tanto exótica no Brasil, em que o segundo volume foi lançado após o terceiro. Apesar de o segundo ter sido publicado na língua de Banville em 2002 e o terceiro só em 2012. Coisas editoriais brasileiras…

O contato inicial me trouxe uma sensação bastante comum: de não entender nada. É aquela coisa de outra língua. Na verdade é muito simples o que o autor faz para causar essa consequência leitora: falta de linearidade. Digressões e mais digressões. Inseridas da metade em diante com maior regularidade sem nem mesmo alteração do parágrafo. Convergindo a uma frase um determinado evento, e o lançando no limbo, trazendo outro diverso à tona até que, quando menos se espera, lá está de novo a erupção mental como se de lá nunca tivesse saído.

Contudo, a falta de linearidade é requerida pelo contexto narrativo e criativo. O escritor nesse aspecto está mesmo certo. Se é que há isso em literatura de certo e errado quanto à construção, ao modelo, ao sistema narrativo sem que se exclua a capacidade inventiva.  O que quero dizer é que faz sentido; que é apropriado. Quem narra não está propriamente narrando, está acompanhando uma mentalidade que se coagula com os eventos (falo da ótica do escritor, pois dentro da ficção quem narra o faz em primeira, é o próprio Alexander). E, embora haja a miscelânea do pensamento, do fato, do diálogo, esse tudo vem da profusão de sensações do protagonista, no momento em que este é “pego” pelo autor. Para quem lê é como se estivesse lendo não um texto, mas a mente de alguém. Se é o cérebro com seus mecanismos, não há dúvida de que deve haver irregularidade. Essa mente está com cinquenta anos em um momento de transição, numa problemática, na busca por si mesmo e por sua identidade. Falando assim, parece clichê. Pode ser, mas esperar de intenção tão ousada a regularidade temporal ou raciocínio ordenado não seria aceitável, muito menos crível. Que intenção ousada? Explico.

A ausência da linearidade ganha um sentido próprio. Porque o cérebro não trabalha sumariamente, mas procura se expor dialeticamente assim. Só depois de organizar, adicionar e descartar, ponderando os raciocínios, percepções e os sentimentos e calculando o que precisa ser  acumulado em si por ser desnecessário  o uso. Não é dada sua inteireza na exteriorização da fala, compacta-se sumariamente o conteúdo, e da língua, como homem, sai o verbo escolhido para se comunicar e ser compreendido. Se um autor optar por externar a mente de determinado personagem, como faz Banville com Alexander Cleave, sem uma prévia formatação metódica, uma direção espacial e temporal coordenada, sem a exclusão de lucubrações muitas dá no que deu Eclipse. Não que tenha dado errado, longe disso. Apenas não me vi numa leitura fácil.

Em suma, o que o autor fez foi ser fiel àquilo que tem em mãos: um homem pensando e agindo de maneira autônoma e não como um autômato. Sua mente vem do jeito que é, assim como sua vida. Que tal homem se explique. Diga quem é, o que é, se é e o que aconteceu para que fosse ou deixasse de ser. É claro que tal construção causa primeiro um estranhamento, posteriormente a inequívoca conclusão de estarmos diante de um absurdo. No entanto, nossas mentes funcionam assim, de modo desordenado ou, se for preferível para não parecer insulto, multifacetado. Embora eu opte por multifacetado desordenado. Soar multifacetado é compreensível pelo que já expus. Espera-se, para o bem do sentido,  que a memória vá se apresentar, que aja facilitando ao leitor a união dos pontos fugidios do quem e do como. Mas é evidente que colocar isso no papel dessa maneira dirigindo tanta inconsequência com vistas à literatura é ousadia no mais alto grau. E só foi realizado o intento de Banville por ele dominar sua cria e saber dosar alternâncias, por saber dizer, enfim. Isso não significa que o leitor estará confortável, porque não estará mesmo.

Facilita um pouco se for lido na perspectiva de sobreposição mental do personagem. Imaginando a atividade da nossa própria mente, como quando estamos conversando com alguém sobre um assunto específico, e sabendo que nada há que impeça estarmos falando de uma coisa e pensando em outra. Um pássaro, um mosquito, uma pessoa ou um carro que passa pode levar a mente a um momento específico da nossa infância, a um local que visitamos semana passada no instante exato em que estamos conversando com alguém ao telefone ou pessoalmente sobre qualquer outra coisa. Psicologicamente, um acidente típico assim não está à sensibilidade sucessivo, mas simultâneo e interposto. É mais ou menos assim que o papel recebe a tinta e o cérebro dessa criatura chamada Alexander Cleave se derrama nas páginas. Cuidando da recepção dessa maneira, consegui maior nível de concentração e compreensão. Talvez sirva a outrem.

O narrador não se preocupa com ordem alguma. Ele simplesmente pensa, age enquanto recorda a infância, enquanto descreve o real em conjunto com fantasmas imaginários, com alucinações vindas de longas considerações, ou alusões quando tem vislumbres, visões que parecem mais reais que a realidade. Aliás, realidade é em Eclipse praticamente tratada como uma ilusão. Essa mente pernoita na ilusão. Ou Caminha num mundo onírico e no real duvidando do real e nos fazendo duvidar juntos.  Sintetizando relatividades e relativizando absolutos. Essa construção psíquica trazida à tona pela literatura não tem um “mudando de assunto”, claro. Ninguém diz isso ao seu próprio cérebro. Há abruptas mudanças de narrativa nas quais um pingo de desatenção faz perder o fio da meada: “(…) Adormeci. Havia ….” E o havia vai falar de um sonho confuso ao quadrado. Esta é só uma de inúmeras, talvez centenas, de ocorrências. Alexander Cleave é puxado e puxa o meticuloso Banville e requer mesmo tal imbróglio narrativo. Porque o autor acompanha e dá voz a uma mentalidade, a uma consciência em colapso. Não é um alguém contando somente, é um alguém sendo e sentindo em toda a sua plenitude de ser e sentir. Estando num tempo que lhe é próprio, único. Presente, passado e futuro não ficam claros em Eclipse. Às vezes, para o próprio Alexander, noutras, para o leitor. É o resultado da interiorização.

Há pessoas que se interiorizaram tanto que é como se já nem estivessem entre nós e em tempo algum. A minha mais transcendente noção viu o autor trazendo uma mente se interiorizando, na ousadia de oferecê-la exteriorizada literariamente com toda a sua carga empírica, metabólica. É um paradoxo. Porque tem como objetivo que ela esteja entre nós com o seu mundo à parte transitando num tempo suspenso, algumas vezes numa linguagem próxima do hermetismo pleno. Talvez com Alexander dizendo, após ter sido questionado num diálogo pela esposa, deixe esse parágrafo sobre sua condição mais nítido:

“O quê?” Ultimamente eu vinha tendo dificuldade de compreender as coisas mais simples que as pessoas me diziam, como se o que elas estivessem falando viesse numa forma de linguagem que não reconhecia; entendia as palavras, mas não conseguia juntá-las num sentido.

E dentro desse mundo à parte oferecido, está um outro ser à parte da parte. Que nos é oferecido logo nas primeiras linhas. Assim Alexander Cleave começa sua laboriosa conversação consigo e com o mundo:

“De início era uma forma. Ou nem mesmo isso. Um peso, um peso extra… Alguém que era distinto, um outro, e ainda assim familiar…”.

Compactando outra característica mais excêntrica na narrativa, como se ele não tivesse controle sobre si mesmo. Estivesse sendo invadido por um outro, que pode ser o escritor ou ainda uma consciência absoluta penetrando o escritor e sua criatura ao mesmo tempo. Tomando o controle. Esse amálgama de coisas faz o texto ficar truncado. Parcialmente incognoscível. Exaustivo. Mas não chega ser impossível. Está mais para desafiador.

Claro que todo esse quiproquó coloca em xeque a ideia de estarmos lidando com alguém são ou uno. Vale para o autor e o objeto dele. Uma dupla personalidade que tem um intruso tentando o controle absoluto e formando uma tripla personalidade. Mas é um ator a criatura e é um ator o criador. A distinção não é difícil. Não é inteiramente aquele que fala. Também não é o um que pensa. É uma voz mais íntima que ele anuncia. Essa desorientação introdutória de Alexander e do autor mostra que pode haver outro eu ainda mais íntimo que os que pensam, agem e falam. Um que observa o pensar, o falar e o agir e está sempre presente, possuindo gradualmente o indivíduo. Algo como a insanidade ou a própria sanidade. Pode avisa-lo da loucura ou o conduzir a ela. Pode ser deduzida por consciência da consciência. Não é o subconsciente, por parecer mais forte que isso, querendo adentrar o palco. Trazer para o livro tanta carga de profundidade psicológica é a meu ver uma intenção soberba. Sendo possível sair da arte, da literatura e ir parar no campo da psiquiatria. Lá no sanatório. O escritor e seu livrinho junto com os leitores que mergulharem na análise.

Como leitor, minha capacidade cognitiva trabalha a recepção desse material com estranheza. Disso minha confusão manifestada no início. Estou preparado para receber um texto de maneira ordenada. Não é algo mastigado, pensado, que prescinde da imaginação. Mas também não é um texto que é criado não para ser texto e sim para ser um enigma, um cofre com muitas combinações. Os que de tal expediente se usam deveriam deixar de trabalhar com literatura e ir oferecer seus serviços para a indústria de brinquedos que produz os quebra-cabeças, ou para a formação de caça-palavras nível impossível do impossível, ou ainda em alguma empresa que cuida da segurança da informação destruindo a informação.

Desejo na literatura apenas um determinado percurso, se não totalmente claro, que vá ficando na leitura cuidadosa e releitura na oportuna ambientação. Não sou um leitor preguiçoso, mas nada me irrita tanto quanto o emblema para dizer coisas banais, como aqueles amigos que se dão presentes embalados em vinte caixas para presentearem ao fim o idiota aniversariante com uma cueca ou um par de meias. Há assuntos que não exigem tamanha elaboração, mas que ganham importância pela significância que quase toda a crítica dá à linguagem em detrimento do conteúdo. Em Eclipse isso não acontece, felizmente. Embora não haja grandiosos fatos, não quer dizer que não exista grandioso conteúdo. Pediu-me releituras diversas, porém. Elas me deram os motivos da linguagem usada, e esses não eram levianos. Não sei se dá pra chamar o resultado do esforço de compreensão. Parece-se mais com adaptação à forma que intelecção ao todo conteudístico. Contudo, não creio que uma obra pode ser conhecida na sua inteireza significativa, mesmo as mais simplórias.

Afora toda essa profusão mental em Eclipse, como dito, não há grandes acontecimentos narrativos a não ser a vergonha pública, a reclusão a casa da infância e, por ultimo, um que tratará do desfecho sinalizando o título. Na obra toda, se é possível dar destaque a algo com a pecha de grande acontecimento, que faz transbordar de conteúdo, é o da reclusão mental no monólogo, na nostalgia e reminiscência, todas elas manifestadas com precisão apesar do caminho utilizado (necessário) ser carregado de obstáculos verbais e sensoriais. Ou seja, a plenitude da obra está na própria narração introspectiva de Alexander. Tenho um exemplo da genialidade narrativa de Banville, talvez não seja um exemplo para outros, mas pra mim foi uma daquelas frases que parei pra reler e reler, inacreditavelmente geniais:

Noite passada, quando estava lavando a louça na pia da cozinha, virei a cabeça rapidamente e vislumbrei alguma coisa à porta, não uma presença, mas uma intensa ausência, o ar fremente desocupado onde, um segundo antes, estou convencido de que alguém mais substancial que um fantasma estivera parado me observando.

Eclipse é o primeiro de uma trilogia. Não nos moldes tradicionais. Pelo que li dele, pode-se perfeitamente prescindir dos outros se assim quiser o leitor, porque este está acabado, não precisa de outra parte para se completar. A não ser que o leitor assim queira. Já li livros com fins mais suscetíveis à continuação que nunca tiveram um segundo volume. Mas, para quem quiser, a ordem é: Eclipse, Sudário e Luz Antiga. Boa sorte para quem quiser se aventurar a ir até o fim ou só pra parar na décima página.

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