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A voz do abortado

feto

Na palma da alma

Escorrega a gota da lágrima

Nada rio ao Mar-avilhoso

Salva e Calma a cristalina

Livre de tanto prender-se

Na liberdade de estar aprisionado

Ao Caminho que me liberta de mim

Baleias aqui brincam de pular

Isentas de perigos flutuam

Em aéreas águas arcoíricas

Chovo-as dessalinizadas

Amando onde o mar é fundo

E não há quem sucumba a dor

Golfinhos desenham a inocência

Em despavimentada terra

Sem lama asfáltica que endureça peito

E as guias são ruas que não têm limites

Lugares em que se respira luz

Come-se abraço

Bebe-se sorriso

Marimbondos polinizam doçura

Dentes e garras fazem carícias

O cântico dos risos dos pássaros

De tantas quase crianças daí

É o único som que se vê ouvir

Subtraiu-se paradoxo

Adicionou-se paradigma

Nossos nós são os nossos eus

Se buscar amar os que odeiam

Atender aos que ignoram

Abraçar aos que espancam

Chorar pelos que se riem loucuras

Odiar o que assassina o amor

Um dia a busca encontrará a fôrma

Entre nós num abraço de vitória

Nas primeiras finalidades da vida

Longe das perversidades dos mortos

Quanto mais longe do que querem

Que quiseram sem saber querer

Mais longe de ser longínquo de mim

Liberto de tão grande escravidão

Despertencendo ao que sobremorre

Piso num chão forrado de alegria

Deito em cama amaciada de ternura

Ando subindo escadas sem degraus

Sei onde mora meu espírito

Se quero, surge, aparece

As palavras ainda não existem

Sentindo como é bom O sentir!

Depois nunca será depois

Só mais um outro agora

Amanhã já é outro hoje

Que nunca será ontem

Se não sabe o que vê

Se ainda toca por apalpadelas

Não mais veja pra enxergar

Sem fantasia imaginação psicodelia

Está nos olhos do bebê

Tal como é a manhã

Quebrando a casca do ovo da noite

Nascendo pulando as luzes que penetram

Fosforescendo trevas em miríades

Juntar-se-iam sem cola ou massa

Que embarace despedace nova vez

O trincado some sem ter sido

Ai do mundo cego são inteiras

As ilusões ilustres dos ilustrados

Nem fragmento nem lasca

Feios de toda feiura feia

Fora dos interesses verídicos

Eu seria só um acréscimo

Extravasando imperfeições

Para além da minha vontade

Os dias aí estão mais noturnos

Escuridões camaleadas luzes

Se apertar onde deve se deve

Fará jorrar sangue ou risos

Certezas são das verdades

Verdade não tem nuance

Nivelações de tons cinza

Em seus ouvidos, dizer o quê

Nos seus olhos, quando olhar

Nas suas mãos pousar as minhas

Embaixo Acima Do lado À distância

Do amor e do perdão

Ou ficar regrado de Intenções,

Deixar fluir os rios em seus cursos

Ignorando os destinos as profundidades

Entregando-se aos imprevistos de ser

Despreocupado das sinuosidades

Das quedas e das condições e decretos

Apenas indo, indo, indo

Para onde quer que seja

Ou construir barragens de concreto

Para domar a selvagem calamidade

Fazer subir a água toda

Submergir a fauna e a flora

Afogar tudo no verbo ter matar morrer

Criando eletricidade falsa nos lares

O segundo haja luz é um haja trevas

O Espírito de Deus movimentava as águas

O espírito do homem movimenta os egos

As infâncias no simulacro diabólico

Distantes e ,distanciandos, da Verdade

Do que importa unido entranhado

Estrangulando espíritos em sangue

Que não flui por ser pedregulho

Como reagir ao espetáculo

Dos jardins vendo a rosa

Quando mais bela corta-la

Lançando-a num copo d’água

Ou deixa-la ao sereno

À brisa da madrugada

À periculosidade da noite

Tocando-a com suavidade

Sem jamais agarra-la no sufoco

Dos intervalos da saudade

Posse, Posse, Posses!

Se o pássaro não voa livre na prisão

Clamores que ouço pronunciei e choro

O medo e motivo é só das favelas aumento

Serem assaltados mortos por pobres futuros

Matam todos os vivos ricos presentes

Acabarão com toda a pobreza

Quando abortarem o último miserável

Não viva quem nasça morrendo

É desumana e menos bela

A desumanidade da conquista

Talhando as nuvens em gaiolas

Por um amor sem liberdade

Gritei socorro para os carrascos

Se graça há em cantar sem plateia

Escrever sem ter quem leia

Amar sem evidência alheia

Ter feridas que não sangram

É o privilégio de saber-se vivo

Mas quando desembalar invólucros

A nudez tomará conta dos seres

Sem mãos pra esconder

E quem simulará

É só da matéria a permissão

Que possa vê-la sem nunca

Enxergar suas sombras todas

Imersas para além de superfícies

É raso o fundo

É fundo o raso

Se o amor é querer estar preso por vontade

O meu amar é deixar livre por obrigação

Onde foi possível prender sem aprisionar?

Quando foi possível libertar sem doutrinar?

Por que se amar é querer

Que seja o querer amar

Doendo dores indolores

É uma grandiosa loucura!

Não quereria mais amar

Se amar querer fosse

Mas

Se querer amar desse

Tudo o que iria querer é não amar

E foi não querendo que amei

Para aí Vou-me preso nas algemas de olhos

Direito legalmente desnecessário

De permanecer calado

Diante de quem não tem ouvidos

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2 comentários em “A voz do abortado

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