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Ninguém presta quando se apaixona – IX

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IX

“Ela deveria saber os custos. Eu sempre fui sincero e amável. E o que recebo em troca? É embaraçoso. Logo no primeiro encontro? Aparências. Não deixei de estar apaixonado não. O ato de errar a mão resulta em sempre se acertar a cara de alguém. Eu não fiz nada. Só direcionamento não intencional. Tenho nenhuma responsabilidade pelo que outros fazem com informações que distribuo. Feliz? Não. Realizado? Também não. Estou tranquilo. E assim vou ficar.”

“Confiei o coração e fui esfaqueada pelas costas.  A troco de quê? Uma simples ilusão. Magoei alguém que não merecia. Doei-me a quem não prestava. Está difícil suportar. Só queria sumir.”

“Eu? Arrependimento? Culpa, talvez. Estava apaixonada. Só isso. Derrubei a casa pra construir um prédio. Matei algo nela que eu gostava demais. Consegui o que queria. Todavia me dei conta, de que não quero mais o que consegui. Não é tarde ou cedo. É tempo de nada mais.”

“Tudo é uma imensa confusão. Tenho a impressão de ter feito algo terrível. Não sei o quê. Não entendo. É impossível ver. A única coisa que sei é que tudo está perdido. Definitivamente, estou na merda!”

Dizem que ele está nos detalhes. Está neles ou é um? Pode ser que seja um detalhe no detalhe. Ou tudo o que existe são detalhes. E a habilidade de manipulá-los é o que faz de alguém o responsável, pela realização dos arquitetos e pela desonra dos desatentos.

Mesmo com tudo o que ela contou, ele não deixou de pretende-la. Procurou Marcela. Esta tentou dissuadi-lo.

– Não tem como, meu anjo. Ela está completamente apaixonada.

– Por favor, Marcela. Não me fale o que já sei. Quero que me ajude e vingança, não o óbvio ululante.

 – Vingança? Cícero, você vai me desculpar, mas Isa agiu com integridade. Pra ser bem sincera com você, eu não faria o mesmo que ela fez. Terminaria com você sem contar nada.

– Do que você está falando? Jamais faria mal a Isa. Minha vingança é contra esse crápula. Depois de tudo que ela me contou, tenho certeza que é um vigarista aproveitador canalha que só oferecerá a ela sofrimento e desilusão. E você exagera a virtude dela. Fez de caso pensado. No objetivo de desferir um golpe para que eu a repelisse de vez. Marcela, não nasci ontem, sei muito bem que ninguém presta quando se apaixona!

– Será? Sempre detestei as paragens absolutas. A mim ela me pareceu muito íntegra, sempre. Sobre Filipe, não sei se ele é isso tudo mesmo… O que sei sobre ele é o que Isa e Rafa disseram. E são versões completamente díspares. Provavelmente as duas estão erradas. E ele não seja nem um santo nem um demônio, mas os dois, como todos.

– Quem é Rafa?

– A ex dele.

– Apresente-me a ela. Hoje mesmo! Não vou mais incomodá-la.

Cícero achou em Rafa a sua reverberação. Não precisou planejar, só informar. Todos desconfiavam que ela gostava de Filipe. Mas ninguém percebeu tão rápido quanto ele. Filipe nunca assediou a irmã de Rafa. Tinham um humor bestial e se identificaram nele. Eles se divertiam e brincavam. Outra teria ficado feliz, Rafa ficou com ciúmes da própria irmã. Filipe, contudo, a traiu com outra. Justificou-se na bebedeira. Ela perdoou. Ele terminou com perdão e tudo. Daí o ódio apaixonado.

Quando soube do romance entre os dois, ficou possuída. Jurou separá-los. E empenhou-se nisso. Vendo o que se dava, Cícero tranquilizou-se. Percebeu que não ia precisar fazer nada.

Na mesma semana, Filipe foi ao aniversário de Vitor. Sozinho porque Isa não queria ser vista com ele em respeito a Cícero. Queria dar um tempo maior até a poeira baixar, pra não surgirem comentários contra ela e contra o ex. Dizia a ele que era tudo muito recente para assumirem qualquer coisa em público. Ele foi, obedecendo pedido insistente da própria Isa. Não queria priva-lo de suas amizades.

Rafa também foi convidada. Sabia que Filipe estaria sozinho e planejou. Lá estava a oportunidade de que precisava.

Ele chegou pouco após Rafa. Ela se insinuou. Estava deslumbrante, mas não havia jeito. Ele não tinha olhos pra ninguém mais. Vendo o fracasso do plano A, pôs em ação o outro. Pediu a chave do quarto para Vitor, disse que precisava aparar umas arestas com Filipe a sós. Vitor deu a chave e foi falar com Filipe.

– Aquele seu “rolo” quer DR. Não quero problema, hein. Vai lá no quarto e vê se te cuida.

– É o fim da picada. Por que convidou esse bagulho?

– Acha que estou em condição de escolher? A cidade só tem isso. Ou é isso ou convidarei a solidão.

– Ah, tomar no… Ta. Vou lá. Fazer o quê.

– Vê se não transa lá, cacete? Chega dessa droga na minha cama.

– Vai se ferrar.

Filipe foi até o quarto. A pouca inteligência dele, misturada com sua autoconfiança estavam prestes a desgraçá-lo. Ele não percebeu o engodo. Pensou se tratar de mais uma crise tosca. E planejava dessa vez ser duro com Rafa para que ela nunca mais o incomodasse. Ela ofereceu bebida. Reclamou, chorou e ele ouviu. Quando preparava-se para desferir pontapés, Filipe foi pego por um sono implacável. Sentou-se na cama e, em poucos instantes, adormeceu. A quantidade de sonífero quase o levou ao coma.

Rafa trancou a porta. Tirou toda a roupa dele. Depois, ficou nua. Bagunçou os lençóis, os cabelos dela e os dele. Colocou a câmera do celular no temporizador e tirou inúmeras fotos, de todos os ângulos possíveis. Enviou todas para Isa. Também mensagens; pancadas violentas, uma após outra.

“Fiz o que fiz contra minha vontade só para provar a você, amiga, quem é Filipe. Contou que você ficou com ele. Tirando sarro. Que era fácil, deu no primeiro encontro a noite inteira. Uma trouxa e outras coisas horríveis. Que só amava verdadeiramente a mim. Desculpa, amiga, mas precisava mesmo fazer isso por você. Porque ele é muito persuasivo. Você não acreditaria se não fosse desse jeito. Sabia que o Ted era ele. Mesmo assim, caiu nas trapaças desse vadio. Se ainda assim duvidar, pode vir aqui agora e ver com seus próprios olhos. Ele está exausto, mas, quando acordar, vai querer de novo. Disse que estava morrendo de saudades de uma mulher de verdade, desse jeitinho… Ele não vale nada. Ainda que você não me agradeça agora, um dia vai me agradecer. Espero que fique bem. Se precisar de mim, é só chamar.”

Não houve resposta.


 

N. do A. -Essa maratona literária experimental que, de repente, pode ser chamada novela acabará hoje. Este é o penúltimo. Agradeço imensamente aos que me acompanharam até aqui. Sabendo do nível aprendiz e relevando com paciência excessiva os erros, contradições ou quaisquer defeitos comuns dos que tentam e ainda não são. Obrigado! Até a próxima. E um ótimo final de semana!

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6 comentários em “Ninguém presta quando se apaixona – IX

  1. Nível aprendiz? Você só pode estar de brincadeira… Waldir: Meus Parabéns por mais uma excelente produção! Nem vou elogiar muito, porque tuas palavras dizem por si só. Tenho uma sugestão *.* Use este dom da escrita para anunciar as Palavras de Deus em forma de novela, conto, crônica – Enfim! – Criando personagens/situações inspirados em seres humanos reais assim como você fez e faz, afinal tenho certeza que muitos se identificaram com o enredo em questão. Sua criatividade é fenomenal, adoraria ver algo do tipo, mas é só uma dica 😀 Abraço, querido amigo.

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    1. Muito obrigado, Mayara. Você me enche de satisfação. Mas insisto. Sou aprendiz. No entanto, talvez o sentido tenha parecido bonachão ou isca para arrecadação de elogios. Não foi. Disse no sentido de que sempre estou aprendendo. Com você inclusive e seus textos que, num primeiro momento, parecem simples, porém com o olhar detido vê-se o método de atingir a simplicidade pelo estilo, diminuindo a distância entre o que você é e o que escreve. Isso é dificílimo e conheço um escritor do recanto que também escreve assim. Não consigo imita-los, mas consegui me inspirar. Sobre a construção religiosa, estou de fato em divida. Hesito não por vergonha, como alguém que fala de Deus em seus textos e já pede desculpas aos leitores dizendo não querer convertê-los. Isso seria aí sim a própria vergonha em si. O meu problema é o temor. O medo de misturar o sagrado com o profano e cometer sacrilégio. Ser incompreendido e pensarem: “Pô, esse cara escreve palavrão, história sensual, zomba de tudo que vê e agora vem falar de Deus”. De fato, isso me afugenta. Porque seria causar escândalo. E não contribuiria pra conversão de ninguém. Melhor, pelo menos por enquanto, ser visto (se é que sou) como um anti-exemplo. E dizerem: “Se esse bosta pode ser cristão, eu também posso”. Forte abraço, amiga. Obrigado mesmo. Ótimo fim semana!

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      1. Aah! Não devemos nos preocupar com o que os outros dizem ou pensam ao nosso respeito, mas sim com o que Deus sabe sobre nós. Como cristãos é nosso dever e esta em nossas mãos passar aos irmãos, quão grande És o Altíssimo Senhor. Estreite o foco. Contudo, como já havia dito, foi só uma sugestão. E, não precisa agradecer, pois é sempre bom ler você! 🙂 Novamente, meus parabéeens pelo fim de mais uma notável criação! Que venham muitas mais o/ Ótimo fim de semana para ti também!

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        1. Obrigado pelos conselhos, Mayara. São sempre bem-vindos. Não me preocupo propriamente com o que pensam sobre mim, mas o que pensam sobre o Evangelho através de mim. A Biblia diz que virão escândalos contra a Igreja dos de dentro, mas que ai dos responsáveis. É nesse aspecto que meu olhar se direciona. Falar de Deus na anunciação do Evangelho exige requisitos que não tenho. E andar em absoluta conformidade doutrinal. Também penso que a ficção não é um caminho fácil pra explorar no chamado. É preciso muita habilidade para não ser tachado marqueteiro de pastor dizimista. O que contribuiria não para aproximar, mas afastar de vez. Em certo aspecto, acho melhor fazer criticas sutis contra o que vejo como mau cristianismo. Diferenciando. Como fiz com esses personagens nos pontos iniciais. Denunciando essa coisa nominal de dizer sou cristão, mas não agir como tal. O que, infelizmente, está cheio e entre os quais, inclusive eu, talvez deva ser incluso. Portanto, não sei, sinceramente, se o blog suportaria a contraditória. Nunca fui e não estou apto ao ministério de evangelista. Não devemos temer o diabo ou o homem, mas diante das coisas de Deus devemos tremer. Trabalho vez ou outra artigos de percepção em defesa da minha fé. No entanto, tem caráter mais dissertativo que espiritual. Eu, na verdade, preciso ser re-evangelizado, hehe. Peço que me perdoe o termo chulo que soltei no comentario anterior. Não ficou de bom tom. Abraço, Ma. Obrigado de novo. Muito feliz pelo que você disse sobre a sequência e mais ainda pelas leituras, conselhos e carinho. Ótimo domingo!

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