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Ninguém presta quando se apaixona – Epílogo

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Epílogo

Nos dias que se seguiram, Filipe tentou contato com Isa. Às ligações e mensagens ela não atendia ou respondia. Na faculdade, evitava passar perto dele. Ele não entendia o que estava acontecendo. Nem intuía, encontrava-se completamente perdido. Os sentimentos atrofiaram os seus raciocínios de vez.

Rafa, àquele dia, saiu tranquilamente. Disse a Vitor que foi ao banheiro e quando voltou encontrou Filipe desmaiado num sono profundo no quarto. Deixou-o lá e não quis acordá-lo. Apararia as arestas outro dia. Ele dormiu a noite toda. Conversou com Vitor no dia seguinte, e o seu amigo garantiu que Rafa não ficara no quarto mais que vinte minutos. E que quando ela disse que Filipe havia caído no sono, foi conferir. Atestando a veracidade do relato. Filipe desconfiava de algo, bem lá no fundo. Mas nem em sonho imaginaria o todo.

Com muito custo, conseguiu falar com Isa, indo até sua casa. Ela não permitiu que entrasse, atendendo-o no portão. Omitiu tudo. Obstinada que estava no rancor, foi duríssima. Ele identificou uma vacuidade nas palavras além de tremores nas mãos que denunciavam mais que simples indiferença. Mas não havia como coadunar as evidências claras de um ataque feroz a sua índole com o abrupto corte de relações dela sem o auxílio de um intelecto melhor. O qual não tinha. A conversa foi primeiro um nocaute seguido, posteriormente, do completo blecaute.

Isa possui-se da fleuma. Despendeu a ele um tratamento de cão. Diante do que ela sabia, era o mínimo que Filipe merecia:

– Cometi um erro, Filipe. Aliás, um não; vários. E como me arrependo! Eu não devia ter me envolvido com você. Estava frágil, e passando por um momento delicado dentro de um relacionamento difícil. Mas, sinceramente, não sinto nada por você. Foi somente uma atração física. Quero pôr minha cabeça no lugar. Por favor, não me procure mais. Não me ligue. Afaste-se de mim de uma vez. Ou haverá sérias consequências. Preciso mesmo ir, tenho muitas coisas a fazer. Adeus!

Sua frieza o assustou. Não esboçou resposta. Viu que estava tudo acabado e não mais insistiu. Teve esperança que com o tempo ela voltasse ao normal. Talvez fosse uma crise passageira, comum entre as mulheres. Contudo ele sabia intimamente que o sentimento dela por ele, se algum dia houvesse existido, havia se transformado em mágoa e nojo. Não procurou investigar o motivo. E, pela primeira vez, se sentiu usado. Uma mágoa indigesta brotou em seu peito. Mas não conseguiu odiá-la.

Semanas após essa conversa entre os dois, eles iriam novamente ser protagonistas da vida um do outro, e dos seus nós abstrusos.

Um protesto dos jovens por ausência de diversão fez a Prefeitura responder com shows na cidade. Filipe resolveu ir ao primeiro de uma dupla sertaneja praticamente desconhecida. Foi marcado para um domingo e começaria às dez da noite. A estrutura do palco aproveitava a Praça da Matriz como espaço para o público acompanhar o show.

A cidade efervesceu. O ambiente estava repleto de pessoas de todas as idades. Alguns subiam até em árvores. Nem parecia que a dupla era desconhecida. A impressão que se tinha era que algum figurão da música sertaneja iria se apresentar ali.

Filipe estacionou o carro num ponto distante por causa da aglomeração. Saiu andando pelas calçadas, observando a fachada das lojas de móveis, de roupas, as bombonières e as minúsculas joalherias cheias de brilho por trás de suas fachadas envidraçadas. Chegou até o local do evento. Ficou algum tempo na praça. Encontrou alguns amigos, tomou um pouco de cerveja, e falaram sobre graduação, mulheres e música.

Notou Isa mais tarde. Ainda pensava muito nela, mas sofria demais e agora queria esquecê-la. Assim que a viu, quis ir embora. Os amigos insistiram para que ele ficasse. Não conseguiram por muito tempo. Despediu-se, atravessou a multidão e saiu andando em direção aonde havia deixado o carro.

Pouco distante, vindo de encontro a ele, avistou-a novamente. Dessa vez abraçada com Cícero. A situação foi tão embaraçosa que os três tentaram mudar de calçada. Não havia espaço. Cícero protegeu ela de um contato direto com ele, e os dois, Filipe e Cícero, chegaram a se encostar e se espremer pra passar. Vê-la daquele modo abraçada com ele arrebentou Filipe. Foi tão duro que Isa sentiu na hora um remorso angustiante. Uma intensa vontade de chorar. Por causa do modo que Filipe reagiu; visivelmente perturbado, envergonhando e triste. Ela sabia que uma hora ou outra se encontrariam. Imaginou diferente. Imaginou magoando ele e ficando feliz com isso. Porque não sabia o quanto gostava de Filipe, até àquele momento, quando, enfim, descobriu que era muito. O único exultante nisso tudo foi Cícero. Seu coração pulava de alegria. Não por muito tempo.

O rolo compressor do tempo passou. E tudo o que resta a eles são as memórias. As mesmas que os traem nas camas da parcialidade, e que estão forradas pelos lençóis dos contextos com suas rugas abstratamente ambíguas.

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10 comentários em “Ninguém presta quando se apaixona – Epílogo

  1. Acho que ao autor basta saber que foi lido até o fim e que proporcionou o prazer da leitura. Fato. Eu gostei bastante. Vou apenas acrescentar que gostei particularmente da coesão de cada personagem, das bem definidas personalidades e de suas agradáveis descrições das cenas… adoro esse ligar da câmera na minha mente. Sua forma de escrever tem um traço qualquer de agressividade. É o que é e isso é bacana de observar. Parabéns pelo belo trabalho! 🙂

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    1. Se basta, Ana! Basta e transborda, certamente. Fico feliz e lisonjeado. Honrado é a palavra, excluindo-se disso o exagero. Não o é. Esse escrutínio do traço é bastante verdadeiro. Tenho tentado doma-lo. É um cavalo selvagem. Uma espada de dois gumes. Por vezes, me escapa e quer me desgraçar. Gostei disso, particularmente pela nomeação. Traço no estilo em vez de tu na subjetividade. Nem sempre tiveram esse cuidado… Resta-me agradecer. A inteligência, ao contrário do que muitos pensam, não é comprada com ouro, mas com vivência no cuidado. Muito obrigado, cara Ana. Excelente sábado. 🙂

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  2. Waldir, acompanhei todos os capítulos e minhas palavras são poucas pra dizer o quanto gostei. Você trata os detalhes com uma riqueza ímpar. E também cada personagem gannha contornos especiais na sua escrita. O capítulo com o embate sobre a poesia é simplesmente sensacional. Sei que você escreveria facilmente um livro, já pensou nisso? Parabéns Waldir.

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    1. Obrigado, Cris. Eu vou aceitar o que você disse e guardar. Não vou dizer, ah é bondade sua e fingir humildade porque aí eu recuso esse carinho maravilhoso. Seria hipocrisia. Ficar contente não pode ser crime ou pecado. Perceber que fui lido capítulo a capitulo em posts que ultrapassaram duas mil palavras por você e outros queridos, ah, sei lá. Indescritível! Aceito e aceito gostando mesmo. E o que você cita foi o que eu mais me empenhei e onde inclusive a imagem titular da fogueira se inspira. É de onde tudo brotou de certa forma. Eu tenho pensado mais em contos, por enquanto. Falta-me aprofundamento no contemporâneo e no histórico para o pincelar social e psicológico na seara do livro. Não que o conto seja fácil ou menor no sentido qualitativo. Talvez seja até mais difícil por ser dado a poesia e ao desenrolar labiríntico. Mas é onde tenho caído há mais tempo. Na verdade, para contos e livros falta um monte de coisa. Talvez até pra dissertar dois parágrafos. Falta quase tudo. Mas não tem faltado estímulo. Graças a você (s). Posso nunca ter um livro, mas já fui lido. E há muitos com livros sem serem, de fato, lidos. Acho que foi Agualusa quem disse que um escritor é quem teve livro publicado. Não concordo. Escritor é o que escreve e é lido. Seja publicado na celulose ou não. Digital ou não. Em vida ou não. Texto continua sendo texto nos bits e até em cadernetinhas surradas. E leitor continua sendo gente não impressora, falo sobre Agualusa. Só um veiculo novo o blog para o que é milenar. Até porque, considerando o recente desse mercado de publicação tal qual conhecemos, e, seguindo a linha do Agualusa (se foi ele), nem Shakespeare e Camões foram escritores ou poetas; que é quase sinônimo. Sem falar nos que morreram sem leitura de ninguém, e tiveram seus escritos desenterrados e lidos, mas eram escritores porque o ser lido eu digo no atemporal. Fui, então, já me sinto realizado. Grato, Cris. Ótimo domingo, poeta da palavra que diz, e muito. 🙂

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      1. Olha, não, não é crime nem pecado ficar contente e menos ainda assumir que tem talento pra escrever. E tem mesmo. Então, continue a explorar isso em você. Não se sinta satisfeito. Não ainda. Escritor, pra mim, é quem tem essa criatividade e capacidade incrível de criar personagens, tramas, e desenvolvê-los amarrados no tempo e espaço. O que deve ser muito difícil, por sinal. E isso, como sabes, você tem de sobra. Lembrei de dois filmes que vi e que gostei muito. Um, porque trata justamente sobre isso. Da escrita, de onde vem, como vem, por que vem, e ela e sua relação com quem escreve, O “The Shadow Dancer” do Brad Mirman. Muito bom. O outro, “As Palavras” do Brian Klugman, este tem no Netflix, porque quando você mencionou “escritos desenterrados” ele me veio à mente. Muito Bom também. Se tiver um tempo e interesse, veja, e se o fizer, depois me conta? 🙂 Os dois falam sobre essa figura enigmática, o escritor, além de outros aspectos muito reflexivos. Enfim, bom domingo também e desculpe falar tanto. Mas repito, continue Waldir. 😀 de ❤

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        1. Obrigado pelas indicações, Cris. Não assisti ambos. Anotados! Continuarei sim. Não peça desculpas, porque eu agradeço e sou corresponsável. Falo demais. Abração. Excelente semana!

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