Série · Uncategorized

Ninguém presta quando se apaixona – VIII

lenha-na-fogueira-1

 

VIII

– Pra onde você está me levando, Filipe?

– Como pra onde? Já disse que é surpresa. Não vale tirar ou levantar a faixa. Você deu sua palavra.

– Já me arrependi. Saco. É horrível!

– Calma, dona Isa! Falta pouco.

Ela estava desconfortável. A inclinação vertical do veículo lhe dava a ideia de subirem; a trepidação constante, de estrada esburacada; e as virações bruscas, da sinuosidade do trecho. Excetuando essa sensação, não tinha noção alguma de para onde estavam indo.

A noite era fria e o céu fora inundado pelas luzes das estrelas e da lua, sem uma única sombra. Combinação de brilho fértil dos momentos memoráveis.

Ela ligou pra ele dias após o encontro com as amigas na sorveteria. Não acreditava em Rafaela. Via-a instável e suspeita demais para sujeitar sua confiança às notícias dela. Toda vez que se lembrava do episódio na sorveteria, brotava-lhe uma vergonha insuportável. Jurou nunca mais estar onde Rafa estivesse.

Contudo, não era só o episódio escandaloso de Rafa que a deixara com um sentimento repulsivo. Antes de ir pra casa, Marcela pediu que ela voltasse com Cícero. E derrubou nela a ladainha de sempre. Porém, a reprodução das palavras dele ditas a Marcela iam aos ouvidos de Isa como bofetadas na cara.

Cícero dissera a Marcela que Isa seria dele. E que ninguém a conhecia tão bem quanto ele. Tinha plena confiança de que Isa nunca o trairia. Porque era frígida, mas que estava disposto a se sacrificar.

Houvessem lhe decepado um dedo, não teria doído tanto. Em transe; ferida no seu orgulho e pronta a dar satisfações a si mesma, remoendo o que ouvira por horas no trabalho, na faculdade e em casa, contatou Filipe.

– Oi, Filipe. Isa…

– Oi, linda. Tudo bem?

– Nada bem. Quando?

– Hoje, amanhã, ontem. Quando você quiser.

– Amanhã então. As sete, pontualmente.

– Ótimo! Falta um detalhe. O endereço…

No dia seguinte à ligação, Filipe organizou tudo o que pretendia. Chegou uns quinze minutos antes das sete. Permanecendo em frente da casa dos vizinhos dela. Ela não queria ser amolada pelos pais. Disse que ia passar a noite na casa de uma amiga após ir a uma festa de aniversário.

Os minutos se passaram e as sete horas também. Os vizinhos se incomodaram e começaram a ficar desconfiados. Com medo de que chamassem a polícia, Filipe teve que ir parar no acostamento da Avenida próxima.

Ele ligava e ela dizia: “Só dois minutinhos, estou indo!”. Dois minutos se transformavam em cinco, em dez, em quinze. Não quis ligar mais e mandou mensagem. Sabendo qual era o problema, brincou: “Venha nua, no carro tem um edredom e eu. Frio você não passa!”. Ela caiu na brincadeira, provocando. A resposta veio em mensagem com foto: de lingerie. “Se me amolar mais, quem perde é você.”

Depois de ver a foto ampliando o zoom, decidiu que esperaria até à meia noite do dia seguinte se fosse preciso.

Os problemas dela, na verdade, eram somente um. Excesso de roupas, sapatos, brincos, blusas, jaquetas, lingeries e de dicas de modas variadas que, constantemente, se contradiziam. Bufava de raiva. Chegou a chorar. Seus pais já estavam habituados àquele expediente espetaculoso, nem mais interferiam. Se diziam que estava bom, ela dizia que não, se diziam que estava ruim, não era bem assim. Se não falassem nada, ficava enfurecida.

Terminou no visual metaleiro. Bota preta de couro. Calça rasgada. Jaqueta preta cheia de zíperes e uns três anéis metálicos nos dedos. Não era bem a sua praia. Mas, se não ficou deslumbrante, rejuvenesceu uns seis anos, no mínimo.

Quando finalmente ficou pronta, já eram dez para as oito. Os pais desaprovaram o visual. E, com isso, o aprovaram de vez.

O que Filipe pretendera era um luau. Assim que ela entrou no carro, a fez prometer usar uma faixa sobre os olhos até que lá chegassem. Tinha medo de que se ela soubesse onde a levaria, Isa não quisesse ir. Ele convidou um casal de amigos. Raí, um poeta sonhador que queria sobreviver de versos, mas que ganhava dinheiro com uma mecânica de motos. E Estela, jeitão de cigana, cantora e violonista, que trabalhava numa funerária. Era, evidentemente, exótica.

Estes deixaram tudo pronto para o primeiro encontro entre os dois. Amavam Filipe. Conheciam-no lá do ensino médio. E, desde então, sempre se encontravam para tomar algo, conversar e se divertir.

Assim que chegaram, Filipe tirou a faixa que cobria os olhos de Isa. Demorou um pouco para ela se habituar. Assustou-se ao saber que ele a levara ao Monte à noite, mas; diante da fogueira que viu, além da visão privilegiada e a companhia de outra mulher, amou tudo e se tranquilizou.

O fogo lambia galhos secos meticulosamente arranjados sobre toras que o fariam durável; labaredas flamejantes dançavam com ventos frios em litígio. O lugar era perfeito para uma noite romântica que Filipe pretendera. O Monte com vista para a cidade iluminada a deslumbrou. Era como se estivesse entre dois céus. O real acima, e um outro em miniatura que era a cidade vista dali, iluminada. Isa nunca se sentiu tão bem como naquele dia.

Foi apresentada por Filipe a Estela e a Raí e se sentou onde havia um banco de madeira rústica em volta da fogueira.

Conversaram amenidades durante um bom tempo. Raí interpelou Isa sobre seu curso:

– Realmente te admiro, Isa. Não sei se conseguiria lidar com o que é jurídico. Especialmente o texto. Ele me entedia ao infinito. Deve ser o costume poético, a música da e na palavra, com todo o seu sintoma do belo. Você não se cansa daquela linguagem crua, formal?

Estela e Filipe lançavam mais alguns galhos à fogueira, fazendo suas chamas elevarem-se incrivelmente. Isa retomou o olhar ao ouvir Raí e respondeu:

– No início, sim. Foi um constante desafio. Mas houve um processo que se deu comigo, e é difícil explicar, Raí. Fui do tédio ao estranhamento, do hábito à admiração. Porque há beleza, por mais oculta que esteja, no parágrafo de uma lei. Uma beleza de profundidade e concisão. A doutrina jurídica guarda com a poesia a ojeriza da palavra desperdiçada. De certa forma, o texto jurídico é poético. Não somente na terminologia usual, literatura jurídica, mas literatura plena. – Raí ficou excitado. Quase nunca podia conversar sobre o que amava a não ser com Estela.

– Interessante, Isa. Nunca vi assim. Novos horizontes, eis o valor da comunicação. O texto jurídico como literatura plena. Isso só mostra o quanto é difícil definir literatura. O mesmo se dá com a poesia. O quanto são subjetivamente múltiplas. Escorregam dos nossos dedos racionais. Eu, como amante dela, não posso negar, nutro preconceitos contra todo o tipo de prosa. Ou o que se pareça com ela.

– Não está sozinho, Raí. Em uma aula dos meus primórdios no curso, meu Professor predileto, Caio, quase foi linchado por um grupo que amava poesia ao ouvir dele que ela, a poesia, é só mais um tipo de prosa.

– Meu Deus, acho que os teria ajudado. Já pensei muito sobre, às vezes penso que a prosa é a decadência da poesia. Mas agora que você cita o que ele disse, recordo ter imaginado a poesia como evolução da prosa. O que acaba indo de alguma maneira ao que seu professor expressou. Se é evolução, faz parte de um todo maior que os contemplam.

Enquanto os dois iniciavam teorizações, Estela investigava o nível de casualidade na relação entre Filipe e Isa. Surpreendeu-se quando o viu estar completamente apaixonado. Jamais havia imaginado que esse dia chegaria pra ele. Pela sua conhecida fama boêmia de trocas constantes de parceiras.

Isa se entregava com prazer à conversa com Raí. Mergulhando no analítico.

– É, Raí. O campo das definições é complexo. Até porque, se formos analisar as minúcias, veremos que a prosa pode ser poética. Ainda que possa haver o inverso, nem todos os poetas veem bem a poesia sendo prosaica. E, num romance, por exemplo, você tem poesia, crônica, excerto jornalístico, material histórico, biografia, enfim, todas as possibilidades de alcance do texto. A poesia me parece restritiva. Ao mesmo tempo, é fácil errá-la pela interdição no eu lírico, ausente até de musicalidade. Alguns que se dizem poetas, mas não transcendem nada além de estranhamento. Não é arte, é simulacro, falseável.

Continuou.

– A poesia nos últimos tempos entrou tanto na interiorização e na abstração que os versos dos Lusíadas, – a bíblia da nossa língua – comparativamente, poderão ser chamados de prosa antiquada por vários que se intitulam poetas. O que é uma blasfêmia óbvia. Se são poetas eu não sei, mas sei que detestam a letra que lança luz e é compreensível, ainda que carregada no misticismo. Na musa clássica. O poeta de hoje, herdeiro do século passado; o do escritor misantropo, pornógrafo e suicida, parece ser, em essência, um religioso satânico. Seu deus é o mal absoluto e o seu culto não é à forma ou à beleza, à musica ou à técnica, é ao exercício da loucura, da solidão, da incompreensão absoluta e, quando não, da violência, da tristeza e, com o perdão da palavra, da putaria e do nada.

– Crítica forte. Alguns diriam que é incompreensão. Não eu. Porque gosto de comunicar. Concordo em partes. Poesia não é só som. Não é tampouco rearranjar palavras, ainda que com toda a técnica. E não pode ser só sentimento. Tem que ser tudo isso com conhecimento clínico da vida, da natureza, e transcender. Trazer a complexidade do simples e simplificar o que é incompreensível. Sei, parece um paradoxo. Mas o poeta lida sempre com o que ninguém entende. Da seara da alma. Dando ao que lê o gosto do mel sem esquecer o vai e vem da abelha na flor e o ar que em que ela transita. Verbalizar o que nos é apenas intuição íntima, não para finalizar no verbo, mas para agir como gangorra de sensações; do infinito ao verbo e ao infinito na produção, pelo verbo ao infinito na publicação.

Raí se empolgou de vez:

– Assemelha-se um pouco com o que disse o Ramos. Na metáfora de torcer a roupa, assim deveria ser o poeta. A roupa tem que estar seca, mas tem que ser roupa. A poesia tem que ser vida, não depressão e misantropia. Tudo o que se escreve se escreve a… Até um diário secreto é escrito para alguém. Talvez alguém do futuro. Um neto. Um bisneto. Um biógrafo. Um museólogo. Não nutro admiração alguma por poesias que não dizem nada a ninguém senão ao próprio poeta. Ou que só digam na letra suntuosa o que se expressa num ai! Que guardem então essas porcarias nas suas gavetas. A língua é produto social e de transformação. A poesia é arte no mais puro sentido. Se não se dão nem a uma ambiguidade, ou não procuram a maestria, não são poetas. São idiotas.

Conversaram muito sobre muitas outras coisas. Raí amou Isa como uma irmã. Era como se sempre a tivesse conhecido. Dificilmente encontrava alguém para conversar sobre suas impressões. Sobre a arte, sobre a vida, sobre a poesia.

Filipe sentou-se ao lado de Isa depois de confissões alongadas a Estela. Abraçou-a. Pediu uma música que, na voz de Estela, era como ser massageado na alma. A escolha foi certeira por combinar o momento à poesia. Isa riu, tendo na simples pronúncia do nome Fagner uma ideia de algo brega e anacrônico. Mas quando Estela iniciou, ela se arrepiou e chegou a se emocionar.

“… Fazer silhuetas de amor à luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti …”

Raí entrou a duelar, e até Filipe arriscou um ou outro verso enquanto abraçava mais fortemente Isa, de maneira carinhosa. Ficaram todos serenos. Não uma alegria efusiva, mas a da tranquilidade e da paz. O aroma de uma comunhão. Pela música e poesia, envolvidos no brilho das chamas da fogueira. Entre os céus de baixo e de cima.

Filipe encheu taças dum vinho tinto delicioso da Casa Valduga e começaram a se aquentar. Estela tocava violão e cantava baixinho várias músicas em sequência com Raí. Assim relaxavam, ouvindo músicas românticas dos anos noventa e oitenta tão distantes, mas tão belas. O vento assoviava mais forte de vez em quando, fazendo galhos envoltos nas chamas gritar de alegria. E criando abraços mais íntimos nos dois casais. Isa estava no céu.

Ela se lembrou da infância remota. De quando ia ao sítio do avô com seus primos, tios e amigos da família. E lá se reuniam em volta de uma fogueira enorme, colocando batatas doces na beirada, debaixo das brasas. Dançavam descalços, cantavam e, quando a noite ia perfurando a outra noite mais escura, tiravam as batatas pegando fogo. Com gosto único. Que jamais ela experimentara depois quando cozidas a gás.

Em dado momento, movida por uma satisfação plena interior, pediu beijos de Filipe com o seu olhar mais doce, apoiando o pescoço no ombro dele totalmente entregue à música, à noite e à paixão. Beijaram-se por muito tempo. Devagar, conhecendo-se. Lendo cada linha dos lábios um do outro num exame pra lá de minucioso.

Ele se levantou e a conduziu para um local mais afastado. Lá estendeu o edredom e deitou-se, convidando-a para olhar as estrelas e a lua. Que distantes das luzes da cidade e da fogueira, mostravam seu verdadeiro brilho.

Isa se deitou ao seu lado. Segurou sua mão e o fez explorar pouco a pouco seu corpo. Até que deixou-o à sua própria vontade. Em instantes, explorou curvaturas sempre misteriosas, macias e fugidias do feminino. Num toque específico, olharam-se. Centenas de palavras foram ditas nesse olhar. Não foi preciso dizer mais nada. Foram ao carro e lá passaram a noite. Isa estava certa e Cícero errado. Ela não era nada frígida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s