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Ninguém presta quando se apaixona – VII

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VII

Não demorou muito tempo para que todas as amigas de Isa ficassem sabendo do tempo entre ela e Cícero. Mas nenhuma soube do que se dera com Filipe. Ambos dissimulavam na faculdade. Isa mandou mensagem curta e concisa a ele. Desculpando-o sem esquecer de se usar das invectivas e solicitando discrição. Precisava pensar. Quando e se decidisse, entraria em contato. Filipe, num raro momento de lucidez, entendeu aquilo como era. Pura retribuição de sevícia, distribuída num pequeno gole de misoneísmo. Nada que a capacidade de suporte a alguns pontapés e a paciência que produz o hábito não pudessem dar conta em dias. Em outras palavras, o contato era certo. Cumpria a ele a simples espera sem promoção dos passos em falso.

Para pôr as conversas em dia sobre o meio término e outras fofocas, fingindo que era apenas um encontro qualquer para que Isa fosse, as amigas dela marcaram um sábado à tarde na Sorveteria Central.

Isa estacionou seu popular seminovo no estacionamento da Praça da Matriz e sentou-se.  Amava aquele ar puro e ali se sentia livre. Ao contrário das outras pracinhas, essa não lhe dava nenhuma lembrança desagradável de encontros mais ainda.

Naquele dia, crianças corriam e brincavam em miniparques de recreação da praça sob a observação atenta de pais e mães orgulhosos. Vários bancos se encontravam vazios enquanto outros, mais afastados e escondidos, eram ocupados por namorados ou jovens jogando conversa fora. O gramado formidável era atapetado de grama São Carlos. Todo o local tinha como teto as copas de árvores altas sombra em verdes múltiplos; mas entre uma e outra, chamando o contraste, o roxo então florido das unitárias Manacás da Serra com o vermelho hipnótico do único Flamboyant ao centro. As passarelas e escadarias eram seguidas por azaleias perfeitamente aparadas em desenhos cilíndricos. Numa pequena fonte, pardais e tico-ticos banhavam-se desconfiados. Mais distantes: querendo o mesmo, os beija-flores flutuavam pelas proximidades e desapareciam em ligeireza sobrenatural.

Isa permaneceu absorta durante uns bons vinte minutos. Chegando a meditar de olhos fechados. Inspirando fundo o ar purificado pelos verdes, sossegando a alma das intempéries da semana num ambiente limpo e calmo. Só não conseguia fazer fugir da mente o quadro com Filipe. Seus lábios adocicados, e seus braços fortes segurando-a naquele dia. Sentia, porém, um pequeno peso na consciência devido à promessa feita a Cícero. Não que ela tivesse culpa de ter sido atacada. Mas por ter adorado ser. Sobretudo por estar planejando solicitar o completo; na união hermética, feminina masculina, dos corpos.

Lembrou-se do encontro com as amigas. Estava atrasada. Saiu caminhando depressa. A Sorveteria distava apenas três quadras da praça. Percorreu a distância nas calçadas minúsculas sob um sol ameno. O dia estava sob o mormaço que anuncia chuva, e na rua não existiam árvores para lhe dar sombra ou lançar brisa. Do lado oposto da primeira quadra que percorria, dois garotos soltaram comentários esdrúxulos sobre os seus quadris que ela ouviu e procurou fingir que não. Pensando o que dificilmente verbalizaria: “leõezinhos mal saídos das fraldas e  já canibais, irritadiços por só se alimentarem de legumes”.

Antes de chegar lá; no finzinho do percurso, lançado na parte interior da calçada, abaixo de uma cobertura comercial, um pobre mendigo estendeu a mão. Ela verificou os trocados na bolsa e deu os primeiros cinco reais que achou. Infelizmente, o número de pedintes havia aumentado na cidade. Ela não ligava se o mendigo fosse encher a cara com o provento. Diante de tanta tristeza, por que negar a ele sua única possibilidade de uma alcoólica ode à alegria?

Quando se aproximou da sorveteria, estava se liquefazendo. Gotículas de suor escorriam pela sua face, borrando um pouco sua leve maquilagem. Isa Chegou esbaforida e suada. Suas amigas estavam dispostas em semicírculo à mesa perto da sacada, com vista para a rua e a entrada do Hospital. O ambiente tomou-se dum tom familiar. Quase ninguém reparou quando Isa entrou exceto as amigas, a maioria entretinha-se no sabor dos sorvetes e das conversas.

Caminhou suavemente em direção às amigas enquanto o choque térmico do ambiente refrigerado desenvolvia a sucção do seu calor e umidade. Foi abraçada por Marcela: negra belíssima com olhos orientais e corpo escultural, apesar de passar um pouco do ponto no busto. Permaneceram sentadas Rafaela, a ex de Filipe, loira dos olhos pretos, linda, e seria ainda mais, não fosse a clara tentativa de se masculinizar pelo feminismo feroz que carregava; Cristina, atarracada e fofoqueira causadora de cataclismos e guerras; e Dandara, tão branca que pareceria sulfite se as minúsculas e espalhadas vermelhidões deixassem, todas elas esperando os beijinhos da recém-chegada para irem escolher logo seus sabores e pesá-los.

– Não era sem tempo, hein? Que embaça, Isa. – Disse Rafa com uma impaciência camarada. Ela se lembrou de novo de Filipe ao ver Rafa. Mas procurou parecer natural:

– Ah, que horror, Rafa. Uns dois minutinhos só.

– Vamos logo nos servir, estou doida pelo meu preferido de abacate. – Disse, lambendo os beiços, Marcela.

Depois que todas se serviram e se sentaram; munidas dos seus potes com o colorido dos sabores, atacando-os com as colherinhas de plástico, a conversa foi imediatamente destinada a falar de Cícero. Cristina, que era amiga preferida dele, disparou sem rodeios.

– Isa, estou tão triste! Quando o Cícero me contou, tomei um susto. Vocês combinam tão bem… O que aconteceu?

As outras encararam Isa em conjunto, curiosas da resposta com a expectativa de ouvirem reclamações formadoras de futrico.

– Ai, Cris. Se eu soubesse que vocês iam falar sobre minha vida amorosa, nem teria vindo aqui.

– Só queria entender direito. Você sabe como é o Cícero. Fala, fala, fala e a gente tem que se esforçar depois pra juntar tudo e dar um sentido. – disse Cristina.

– Se sei… Desculpa, Cris. Esse assunto é terrível pra mim. Estou sofrendo muito. Afinal, são oito meses e alguns dias. Quero clarear minha mente, dar um tempo a mim mesma, e não acho que esteja pronta pra falar ainda. Espero que me compreendam.

Marcela, que também era amicíssima de Cícero, contemporizou.

– Amiga, não se preocupe. Quando você estiver pronta, fala. Ponto final.

Dandara assentiu, convidando todas à mudança de assunto.

– É mesmo! Deixemos o tempo fazer seu trabalho. Aliás, gente! preciso contar um escândalo pra vocês. Ou melhor, um quase escândalo porque ninguém sabe a não ser eu e os envolvidos, claro. O Professor Mestre Borges ofereceu a Luana uma troca. Um jeitinho pra evitar que ela fique de DP não só no semestre como em tudo o que ele ministrar até ela terminar o curso. Ela aceitou. Disse estar arrependida, mas não senti muita firmeza não. Está morrendo de medo do Gui descobrir. Se ele sequer desconfiar é capaz de matar o Borges. Gente, por favor, não contem pra ninguém, hein. Ninguém. É praticamente caso de polícia.

Isa ficou escandalizada. Porque Borges havia tentado o mesmo com ela no primeiro ano da faculdade. Por pouco não o denunciou. Não o fez porque não aconteceu mais que uma tentativa. E ela imaginou, pela vaidade, que ele só a havia assediado por uma paixão irresistível. Rafaela, contudo, ficou curiosa. Gostava de um escândalo, ainda mais quando envolvesse homens em suas relações de poder. Era a oportunidade perfeita para jogar todos na fogueira de sua inquisição feminista. Infelizmente pra Rafa, Borges sabia com quem mexia e jamais tentou algo com ela. Já Marcela e Cristina ficaram constrangidas. Não porque foram assediadas por Borges tão somente, mas porque ambas aceitaram a troca de “favores”. Na verdade, desejaram que ele se oferecesse a elas. Borges era um homem atraente, apesar dos seus trinta e sete, tinha uma pinta de galã irresistível. Marcela fora ainda mais longe que Cristina. Passando noites e noites com ele quando não havia mais nada em jogo.

– Isso tem que acabar! Tem que acabar! Vou denunciar esse aproveitador, ah se vou! – Irou-se Isa.

– Não adianta, Isa. – Aconselhou Dandara. – Já fizeram mais de uma vez. A reitoria escondeu. São amigos de longa data. E alguns professores são corporativistas. Os que não são, não acreditariam tão facilmente sem provas. Num desses casos, humilharam a menina que denunciou. Ela entrou em depressão. Não tinha como provar. Ficou a palavra dela contra a dele. Trancou o curso e saiu até da cidade.

– É o que sempre vejo nessa droga de sociedade patriarcal. – Rafa entrou no assunto para distribuir sua ira. – Eles podem tudo! Abusam da gente. Espancam. Estupram, matam, escravizam, desvalorizam nosso trabalho, pagando menos pelas mesmas funções que desempenhamos e, se são professores ou estão em hierarquia superior, nos assediam, dificultam nossa vida, nossa graduação, nos chantageiam, se acham melhores em tudo o que fazem, e tudo fica por isso mesmo. É revoltante. As mulheres precisam acordar. – Rafa despejou sua ira, puxou uma cadeira e jogou os dois pés em cima, criando o som agudo e irritante do arraste da borracha contra o piso.

– Também não é assim, Rafa – Ponderou Dandara. – Existem muitos homens que são honrados. E a Luana aceitou. Ela quis dormir com ele. Traiu seu namorado que é um homem se você não sabe. Tenho é pena do Gui. Tão amável. A meu ver, é até a minoria que não vale nada. E há um burburinho surgindo de que a professora Mical dá em cima dos alunos com as mesmas armas, assim como o professor Dr. Túlio, que todos sabem ser gay. Os homens também penam.

– Conversa fiada. Mical é simpática e os homens confundem simpatia com outra coisa. Quanto ao professor Túlio, é homofobia. Esses alunos são todos filhos de boçais reacionários. Eu desafio você a me mostrar onde está sua maioria? Onde? Mostre-me uns cinco pelo menos, excluindo seu pai e seus irmãos pela suspeição de julgamento. Não existe, você nunca os encontrará. Lembram-se do meu ex, o Ted? Deu em cima da minha irmã menor de idade. Chegou a beijá-la. E a tonta ainda gosta dele. Ele é um ser imprestável. Mas não foi só ele. Todos os outros namorados ou ‘ficantes’ que tive, todos, todos, todos… só queriam sexo. Alguns eram violentos. Eu não sabia, mas eles têm raiva de mulher. Potenciais estupradores sim! Só queriam me usar, em atos ferozes. Eu já decidi. Vou cobrar. A cada duas horas, mil reais. Chega de ser besta!

Rafa soltou tudo e começou a chorar de vergonha da última parte. Arrependeu-se dela. Foi contida pelas amigas. Que tiveram de sair dali às pressas após Isa alerta-las de que o gerente vinha de encontro. Os clientes olhavam-nas horrorizados. Alguns adolescentes riam às gargalhadas. Ouviram Tudo. Inclusive as crianças. Porque o som entrou no intervalo entre uma música e outra e as conversações nas mesas estavam pausadas e baixas, ao contrário das palavras de Rafa, que foram gritadas aos quatro ventos.


Trecho inicial do próximo e antepenúltimo capítulo:

– Pra onde você está me levando, Filipe?

– Como pra onde? Já disse que é surpresa. Não vale tirar ou levantar a faixa. Você deu sua palavra.

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