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Ninguém presta quando se apaixona – VI

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VI

Convidou Filipe com um olhar implacável, quase de censura. A impaciência tomou conta. Muitas ocasiões desperdiçadas pela sua correção, apesar do flerte, pela vigilância constante das amigas, a onipresença de Cícero em momentos que teriam sido flagrantes, além de uma estranha reticência de Filipe. Esta vinha de dois bloqueios: Cícero e Rafaela, sua ex.

Tinha que ter cuidado com um e ainda mais com a outra. Embora não fosse tão próxima de Isa, sempre estavam juntas conversando. Sua ex ajudou vedar um primeiro contato. Em ausência da primeira: a presença de Cícero. Dessem a ele oportunidade, Filipe diria estar de saco cheio. Acrescendo: “Como pode alguém se circunscrever com tanta porcaria impeditiva?”

Isa resolveu o imbróglio dando a eles momento e local perfeitos. Eliminando tudo o que pudesse servir de estorvo. Atrás de uma escadaria em Z, que levava às salas superiores. Local devidamente restrito que lhes possibilitava alguns minutos de privacidade. A chuva  e o frio afastaram muitos formandos do dia de aulas. A palestra no auditório afastou o remanescente do pátio, e o constante vai e vem se tornou esporádico.

Ela estava nos seus melhores dias. Envolta num semblante sanguíneo de olhar persuasivo; aprofundado pelo perfeito uso do delineador. Lábios úmidos; efeito do gloss equilibrado. O clima frio a fizera escolher um blazer cinza-escuro aconchegante, destacado pelo bege claro da camiseta sem estampa. Completando o estilo elegante e casual a calça jeans larga, as sapatilhas leves, a bolsa com alça ímpar, que podia ir do ombro à cintura ou, com um pequeno ajuste, leva-la ao braço em L.

Ele estava nos seus mesmos dias de sempre.

Aproximou-se. Apresentaram-se. Filipe, Isabelle.

– O prazer é meu. Mas pode me chamar de Isa.

– Isa. Não vou esquecer. Só que acho Isabelle um nome lindo. Combina com você.

Ela sorriu, passando a mão nos cabelos, encostando-se à parede que ligava uma das pernas da escada inferior à superior, e disse:

– Ah, obrigada! Eu gosto dele também. Mas soa estranho pelo costume. Quando me chamam Isabelle, penso logo em circunstâncias mais formais.

Encontrava-se a um passo e meio dela, diminuiu a distância para um. Pôs as mãos nos bolsos da jaqueta, relaxando os ombros, e disse:

– Comigo não pegou nenhum. Não sei se você sabe, mas seu nome é a versão em português para Elisabeth.

– Sei. Na verdade, seria Isabel. Isabelle é uma inovação.

– Por que não nos conhecemos antes?

– Talvez você possa me responder. Eu não sei.

– Também não sei. Desconfio que seja porque você não quis. E, hoje, você quis. Não parece ser dada aos encontros promovidos por aqui, né?

– Eu não gosto. Fui uma vez pra nunca mais. Drogas e situações embaraçosas por todos os lados sem o menor pudor. Sou careta. Curto reuniões saudáveis sem chance de ir parar todo mundo na delegacia ou no cemitério.

Filipe sorriu do humor espontâneo dela. Enquanto Isa gostou da expressão facial que o riso dele pintou. Ambos se olhavam com sede e fome mal disfarçadas.

– Você tem senso de humor. Vou pra me socializar. Ou melhor, ia. Agora tenho ido esperando encontrá-la. Mas você está certa. Essas reuniões por vezes acabam sempre desandando.

– Eu não sei o que querem. Penso que a maioria está aqui só pra curtir, pra baderna.

– Pensa? Pode ter certeza tranquilamente. Talvez até alguns professores.

– Disso eu não sei. Meu problema com eles são essas ocupações forçadas em grupos. Não sei como não percebem a inutilidade delas aos inúteis.

– Pode ser que percebam e até queiram. Quem sabe se fazem por um projeto de cima? Esse ambiente está completo de marxistas, e eles não agem naturalmente ou por um objetivo virtuoso. Os formandos em letras da cidade vizinha foram num encontro esses dias. A maioria é persuadida a ser imbecil. Isso se dá em toda a área das humanas. O currículo é imbecilizante. As obras recomendadas mais se parecem com bíblias satânicas. Não acho que queiram formar realmente. Se é que se quisessem poderiam, porque, evidentemente, são ignorantes.

– Não concordo. Eu procuro não dividir nessa visão concentrada; maniqueísta, dualista o ensino e as relações. Enfim, o que quero dizer é que gente que não presta há pra tudo quanto é lado. Mas prefiro analisar comportamentos individuais mesmo. E sou um tanto cética quanto a esses planejamentos absolutistas de controle mental. Parecem sempre teorias da conspiração bastante incríveis pra sequer dar atenção. Faz Serviço Social ou Contabilidade?

– Contabilidade.

– Legal. E qual semestre?

– Segundo. Quer dizer, eu tenho umas pendências no primeiro. Porque minha avó morreu e eu fiquei abalado.

– Que infelicidade! Meus pêsames. Realmente sinto muito.

– Ah, agora já superei. Ela era muito velhinha e sofrendo. Melhor morrer mesmo. Melhor pra ela, né. Obrigado mesmo assim. Você eu sei que faz Direito. Qual semestre?

– Estou no sétimo. Não vejo a hora de concluir.

– Pra você está bem perto.

– Bom seria. Também tenho minhas pendências.

 – Uma curiosidade, ainda está namorando?

Filipe impacientou-se. E não engoliu sua defesa das esquerdas com o desvio do assunto ao curso.

– Olha, você não perde tempo mesmo, hein? Por exemplo, tem irmãos, mora aqui há quanto tempo e em que bairro. Por que resolveu estudar Direito? Está trabalhando? Passou por cima de várias formalidades e de questões importantes para um primeiro diálogo, não acha?

– Não. Você sabe e eu sei o que interessa. E por que estamos aqui. Você é linda, mas muito séria e escorregadia. Se precisa que eu diga, eu digo. Quero e desejo você. Percebi que seu namorado não te traz nem te leva. O que é ótimo. Não vou lamentar. Não sou falso. Quero mais é que ele se exploda.

Ela, automaticamente, ruborizou-se com esse ímpeto. Por um momento, ele conseguiu deixa-la completamente envergonhada. Um silêncio tomou conta, mas ela não o sustentou muito.

– Nossa! Agora você pegou pesado. Veja bem. Eu e Cícero estamos dando um tempo. É tudo que vou dizer. E, por favor, se for mais invasivo e desrespeitoso, me considere novamente uma estranha.

Ela, no entanto, só disse isso por dizer. Ele pensou que era grave ameaça:

– Calma! Eu não mordo ou ataco. Sei meus limites. É só que… geralmente, eu não ajo assim, eu sou mais contido. Com você está sendo diferente.

Aproximou-se dela ainda mais, deixando-a encurralada.

– Você, contido? Para, por favor, que está ficando feio. Te conheci agora, mas se precisasse dizer a minha primeira impressão sobre você, eu arriscaria uma bem próxima da predatória.

– Que isso! Também não precisa insultar.

Ele se afastou um pouco. Estava na defensiva. Alguns passos nas escadas os deixaram num silêncio total. Como se estivessem roubando ou fazendo algo proibido. Assim que o som desses passos foram desaparecendo, ela retomou.

– Desculpa. Realmente me desculpa. Tudo bem. Falemos de outra coisa. É um assunto delicado pra mim!

– O quê, o tempo?

– Sim. O teeempoooo…

– Certo. Eu entendo. Já passei por isso. Eu namorava há um… uns… sei lá, tempos atrás. Quase noivei. Felizmente, não deu certo. Ela era ciumenta e amante de surtos. Certamente tem problemas mentais incuráveis. Eu pedi um tempo a nunca mais ver, eterno. Não é o que você está imaginando. Não quero saber se foi você ou ele quem pediu tempo. Embora eu tenha certeza absoluta que foi você. Aliás, me perdoe, mas esse negócio de tempo parece coisa de adolescente de mil novecentos e vai lá.

Ela ressentiu-se por pensar o mesmo. Mas ele não poderia imaginar a realidade dela e o que foi preciso fazer para tentar se livrar de Cícero. No entanto, desejava que ele intuísse, não gostou de sua falta de imaginação.

– Eu realmente não quero falar sobre isso. É pessoal. E coisa de adolescente parece ser a sua vida.

– Você é mesmo selvagem. Calma! Me desculpa. Eu também não falava. Agora perdi toda a vergonha na cara. Creio que foi pela convivência com algumas mulheres que isso se deu. Ela fala de mim absurdos por aí. Aliás, é bom você já pensar nas defesas. Términos de relações acabam sempre prejudicando a reputação. Por isso eu falo mesmo sobre ela, até pra você não pensar mal de mim.

– Eu? Pelo que sei, não a conheço e nem conhecia você há minutos atrás.

– Conhece-a sim. É a Rafaela. Estuda com você.

– O quê? Rafa? Rafaela de Andrade?

Ela sorriu tão ironicamente que o magoou.

– Essa mesma!

– Das vezes que conversei com ela, falava de um maluco chamado Ted. E você disse que apelido e diminutivo não pegam. Primeira mentirinha?

– Mentira nenhuma. Só ela me chamava assim. E não pegou.

Ele se afastou um pouco mais, magoado ao extremo. Ela se aproximou. Pronta pra atacar. Iria provoca-lo abertamente. Não engoliu a gracinha com o tempo.

– Meu Deus, então você é o Ted? Elas sempre diziam que estudava aqui, mas nunca me interessei sequer por olhar. Agora entendo sua, deixa pra lá. Se metade do que ela diz for verdade, eu deveria me afastar de você já.

– Ta vendo? O que falei sobre reputação? É tudo mentira daquela neurótica. Tudo. Eu deveria processá-la por calúnia e difamação. Você inclusive poderia me ajudar com essas questões.

– Tô fora disso. Eu não sei se é verdade ou não. Embora considere improvável que uma pessoa possa mentir tanto. O que pude perceber é que você tem uma natureza bem disparatada. Talvez ela não tenha, né? Quando relatava o que você… ai, não dá nem pra falar, só sei que parecia sofrer. Alguma coisa você aprontou.

– Aprontei nada. Há pessoas que não aceitam muito bem o término de uma relação. Sem querer ofender, mas isso se dá bastante com mulheres.

Isa se aborreceu com tantos ataques ao seu gênero.

– Foi um prazer, Filipe. Eu estou cansada e preciso ir à biblioteca verificar uns arquivos e ver se ainda pego um pouco da palestra. Foi um dia duro. A gente se tromba por aí, talvez.

– O prazer foi todo meu, Isabelle!

Assim que Isa ia saindo, Filipe, vendo o desastre do primeiro diálogo, partiu pro tudo ou nada. Num gesto tão perigoso quanto ousado, segurou seu braço e a beijou à força. Ela foi pega completamente desprevenida. Ficou imóvel no primeiro instante, quando retomou o controle de si, o estapeou no peito, tentando empurrá-lo com força. Ele resistiu. Ela, nem tanto. Surgiu, momentaneamente, um torpor logo substituído por excitação, o que a fez relaxar a boca e o corpo.

Retribuiu o movimento dos lábios por cinco ou seis segundos. Ficou com as mãos no ar e, finalmente, fechou os olhos. Envergonhou-se por estar gostando. Da atitude dele e principalmente do toque em sua boca, tão diferente do de Cícero. Para não parecer fácil, esforçou-se mais até se desvencilhar dele duma vez, desferindo um grandioso tapa na cara, praticamente um soco depois que conseguiu. Fez uma cara de nojo falso, limpando com a manga do blazer a boca. Olhando-o com indignação, disse:

– Você não presta. Não vale nada. Não se aproxime mais de mim. Deveria denunciar você. Não é um homem, está mais para maníaco.

–  Desculpe, não sei por que fiz isso. Isa, espera.

Ela fingiu nem ouvir. Saiu a passos rápidos, quase correndo. Mas, naquela noite, ao entrar em seu quarto e se jogar na cama, respirou fundo e sorriu. Lembrando e concluindo. “É mentiroso, meio ignorante e machista. Mas que ombros, que cabelos, que olhos, que beijo e que atitude!”

Filipe ficou preocupado por alguns instantes imperceptíveis. Depois pensou: “que se dane”. Planejou o que faria no dia seguinte. Lembrou-se do que Vítor, seu amigo de longa data, fizera para reconquistar uma namorada. Como tinha pouca imaginação, resolveu imitá-lo à risca.

Comprou flores. Fingiu-se funcionário da floricultura. Entrou no setor onde Isa trabalhava. Ninguém o barrou, se fosse pra assassinar alguém, teria conseguido. Entregou as flores pessoalmente. Isa, novamente surpreendida, só pôde sorrir em público.

No meio das flores, havia um bilhete bem-humorado com um pedido de desculpas. E todos os contatos dele. Ao fim, a mensagem que a fez rir muito: “Se nada disso servir, tem abaixo meu endereço. Com a descrição da casa em detalhes. Há como entrar pela janela de trás e sair sem ser vista. Se precisar de ajuda, eu estarei lá.”

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