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Ninguém presta quando se apaixona – V

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V

Hesitava tomar decisões e, quando se decidia, tinha de agir logo, antes que o produto das hesitações fosse mudado por outra hesitação. Esse arcabouço mental não a impedia, horas ou dias após decisões tomadas, de procurar desfazê-las. Fosse ela incomodada com porquês, dizia: Provavelmente é por que sou mulher. E achava ser isso resposta plausível pra não ter que explicar mais coisa alguma a ninguém, inclusive a si mesma.

Isa pediu um tempo pelo meio do oitavo mês de namoro. O estudo analítico da coisa a conduziu no caminho da solução intermediária. Nesse ínterim o esperado não era fazer cessarem as lamentações de Cícero. Elas viriam com ou sem artifícios de frenagens para ausência paulatina do hábito. O intento era dividi-las ao invés de multiplica-las.

Antevisão. Tinha-a bem desenvolvida. Calculou a multa alta no caso de um real e definitivo rompimento sem aviso prévio. Por isso postergou. Buscando o caminho menos trepidante, alcançou meses de quases. Optou, enfim, por um quase na fronteira do alvo. Na mente, nascia um epitáfio nada moral. Via-se num dilema: o soco também machuca a mão. Digladiava-se com seu eu reticente, ponderando pra convencer:

“Ele vai infernizar minha vida, implorando intervenções dos amigos e dos familiares por dias, talvez semanas a fio. Vai me perseguir. Fazer um escândalo vergonhoso. Preciso me defender com um golpe violento, mortal. Antes que enlouqueça!”

Cícero, contudo, ia agir assim com ou sem tempo preparatório. Com ou sem execução de planos dilemáticos. Quanto à sua família, nem precisaria de muito esforço dele para tanto. Estava conquistada. As provas vinham das frases soltas ao acaso ditas com tom de repreensão.

“Há pessoinhas aqui que vão perder um partidão se continuarem a tratar gente pior do que bicho” dizia sua mãe.

Enquanto o pai era mais direto.

“Não sei como é que um homem pode suportar seu temperamento com tanta paciência. Eu não suportaria jamais.”

Sua vontade era colocar os pais em seu lugar. Só vivendo pra saber o que se vive, pensava.

No dia em que entregou a notificação extrajudicial a Cícero, foi obrigada a suportar sua conversa estafante, paroxística. Às raias da loucura. Seus discursos, princípio de choramingo e, afinal, suas condições. Que ela esperava, mas jamais tão ditatoriais.

Não poderia exceder três meses, dizendo isso como se fosse certíssimo o retorno. Conversariam semanalmente. E, claro, nenhum deles poderia ficar com outras pessoas.

Isa ouviu tudo como uma vendedora de loja qualquer, cujo cliente solicita desconto após desconto até que perca toda a comissão e tenha vontade de jogar o produto na cabeça do cliente em vez de concluir a venda. Transpareceu alguns sinais exteriores. Por dentro, estava enfurecida, e o princípio de asco virou raiva. Enquanto ele, percebendo o que se dava pela fúria disfarçada no olhar e o seu resfolegar intermitente, apaixonou-se ainda mais, à beira da obsessão.

Ela não viu isso por não mais querer olhá-lo. Dizia consigo mesma: “Que contrato perverso, aético e desgraçado!” Respirou fundo, suplantando a ira. Aceitando os termos menos por concordância que açodamento. Não queria mais discutir. Estava farta dele e ouvir a sua voz. Queria apenas se livrar da sua presença. Ao sair dali não aguentou e chorou. De raiva, de arrependimento e de tédio. Estava muito triste. Porque era injusto.

Tudo o que ela desejava era não ter que estar com alguém sem querer estar. Terminar um incômodo sem tantos ses. Trabalhar e estudar em paz, quem sabe até gostar de alguém. Alguém como Filipe. No entanto, se sacrificara por tanto tempo. Essa boa índole que tinha era a ela àquele momento motivo de repulsa. Por só lhe trazer sofrimento. Agir dentro dos padrões e anular-se nos mesmos não lhe parecia mais virtuoso. Tinha vontade de jogar tudo na cara das amigas. Na dos pais. Responder ao pai que ela é que não sabia como aguentava Cícero. Chegou a sua casa, no entanto, e não disse nada. Não tinha hábito de culpar os outros pelos seus problemas. Só pensou no pequeno progresso. Consolando-se. “O importante é que, finalmente, o primeiro passo foi dado. Impreciso e inseguro, mas, passo.” Quanto ao resto, procurou guardar no cofre do coração, chaveando-o com a língua.

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