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Ninguém presta quando se apaixona – IV

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IV

Isa suportara cinco meses de namoro com Cícero. Namoro? Ele gostaria de dizer que sim. A nomenclatura mais apropriada era incômodo. A mulher parece ter a capacidade de suportar coisas que um homem sequer consegue imaginar. Talvez essa inerência venha se desenvolvendo na alma feminina desde o primeiro parto.

Ela gostaria de dizer que as crises eram frequentes. Impossível. Não pode existir crise onde não há relação. A ausência de uma relação se dá por um aspecto até simplório, é que nela transita uma determinada troca de sentimentos responsável por trazer à luz crises, conflitos e rupturas. O que se dava com eles se assemelhava melhor com programação. If, else.

O software que as pessoas poderiam confundir com um casal caminhava pela cidade parcialmente vazia num domingo mórbido. Daqueles com a feição do desânimo, do langor. Cícero chamou aquilo de encontro. Isa, obrigação. Seja lá o que for, foi marcado por Cícero no meio da tarde porque Isa se recusara a sair à noite naquele dia. Tentando com isso evitar esse encontro-obrigação. Teria conseguido contudo, não fosse ele ir à sua casa buscá-la. Descobriu que Cícero era perseverante como a loucura. E agora tinha que suportar o peso de sua decisão.

Beijar e abraçar de dia no calor, com gotas de suor teimosas escorrendo pelo rosto e pelo corpo. Sentindo os odores do perfume dele misturado à transpiração forte. Ver cada poro do rosto pela incidência da claridade absoluta. Verificar maiores imperfeições nas minúcias. Era tudo muito ruim para ser real. Parecia um pesadelo do qual não se acorda. Fosse ela antropófoba, saberia defender a beleza da solidão plena citando o ato de namorar de dia, num domingo calorento e preguiçoso, com alguém que não se ama ou se deseja. Tinha certeza que precisaria de poucas palavras para fazer uma plateia toda ser convertida à misantropia.

Ele decidiu ir numa pracinha pequena. Por que não eles? Porque Isa era um objeto parcialmente animado que se movimentava por impulsos elétricos. Em outras palavras, condução semicoercitiva. A pracinha era limítrofe da cidade. De frente para a represa. Viam-se de lá uns banhistas. Com as habituais e ridículas cuecas brancas, pretas e amarelas: homens; e camisetas até as coxas, lingeries, e um ou outro maiô da vovó: mulheres. A praça estava quase vazia. Exceto por um casal de verdade (corajosos, segundo Isa) no canto oposto se engolindo. Ali parecia haver algo. Causou um estranhamento tal nela, essa troca de fluído antropofágico vespertino, que desviou o rosto com admiração e nojo.

Ele sentou num banco. Puxou ela, delicadamente, e a fez sentar em seu colo. Ele, todo social. Ela, no auge da delicadeza, com um vestidinho leve e florido que caia à altura do joelho. Conjunto feminino que gera nos homens heterossexuais desejo de tocar o corpo junto com o tecido, ou de estar com a mão sob ele e sobre a pele. O contato de seu derrière com as pernas dele produziu nela sensação nauseenta. O mesmo contato o fez ficar excitado. Beijou seu queixo, orelha e a envolveu com seus braços. Qualquer que olhasse de longe, diria: Quem é aquele cara com um cadáver no colo? Mal sabendo esse qualquer que o cadáver pensava e sentia o seguinte: Ele é ainda mais feio e insuportável de dia, como isso é possível?

O desconforto se tornou insustentável por uma vibração que ela sentiu. Saiu do colo, sentou no banco curvilíneo, desconfortável e duro de concreto, olhou pra ele e tentou terminar pela, sabe-se lá, qual vez.

– Tentei de verdade, Cícero. Mas não gosto de você pra continuar namorando. Podemos continuar amigos.

– De novo, Isa. Nós conversamos semana passada.

– Sim, de novo. Você não me ouve. O meu sentimento é de amizade.

– Isso acontece bastante. Às vezes, vamos aprendendo a gostar de alguém aos poucos. Não acredito nisso de amor à primeira vista.

– Nem eu. Mas são cinco meses. De quantas mais vistas você precisa?

– Isa, o sentimento entre duas pessoas vem com o tempo. Não pode se precipitar. Temos a vida pela frente.

– Não é só por isso. Queria estar mais focada nos estudos. São tantos os compromissos. Nem dá pra te dar atenção.

– Eu sei que está difícil. Mas sei ser compreensivo. Aguardar.

– Você merece algo melhor, Cícero. Alguém que não esteja tão envolvida consigo mesma.

– Quero te confessar algo. Eu, antes, pensei gostar de você. Não era verdade. Gosto agora. Conhecendo sua índole. Sua personalidade íntegra.

– Mas eu não.

– Cada um tem o seu tempo.

– É que eu acabo infeliz por não poder fazer você feliz. Por não poder retribuir.

– Retribua então. Estou aqui. Em carne e osso.

Nesse instante, ele pousou a mão em seu joelho direito. Subiu ao limite do aceitável. Ela retirou sua mão de maneira abrupta e violenta.

– Não é disso que estou falando. Você sabe que tenho um compromisso espiritual. Falo da convivência e companheirismo. Afeto mútuo.

– Desculpe. Eu admiro sua firmeza religiosa. É que tem sido difícil. Sou homem. E desejo você. Tenho esperado o que nenhum esperaria. Seu cheiro. Seu toque. Sua pele macia. Se não posso tê-la agora, deixe pelo menos que eu a veja.

– O quê? Ficou louco? Acha que sou uma qualquer?

– Não é isso. Um pedido simples. Puro. Só pra contemplar e admirar. Talvez isso me desse força pra suportar mais tempo.

– Eu não pedi nada. Suporta porque quer. E  te dei a opção. Me respeite e se dê o respeito.

– Perdão, Isa. Aonde você vai?

– Leve-me pra casa. Agora!

Ela tinha certeza de que era mentira. De que o sentimento viria com o tempo. Pelo que via das relações, mais fácil era desaparecer com o tempo. Não conseguiu insistir no término. Confundiu-se, pensando somente na recusa de pousar nua e em manifestar seu desapontamento. De certa forma, admirava a paciência de Cícero. Ficara lisonjeada por alguém esperar tanto por algo que qualquer mulher poderia oferecer na primeira noite com ou sem dinheiro. Sabendo que ele era fiel, e conhecendo a natureza dos instintos masculinos, ficava não poucas vezes envaidecida. Sentir-se desejada sexualmente e objeto de paixão não era ruim, mesmo quando não havia correspondência. Era difícil admitir, mas gostava de despreza-lo. De ter alguém para espancar e humilhar.

Em contrapartida, Cícero estava se tornando mestre em desviar de assunto. O pedido de sua nudez era um artifício que ele sabia ser impossível ela aceitar. Mas que ia nebular a mente dela, fazendo-a ir do ataque à defesa. Ele estava usando táticas políticas. Se quiser algo, peça muito mais e terá algo. Ou se contente em pedir algo para não ter nada. Ele a confundiu e ela não conseguiu pensar em duas recusas. Recusou o ruim aceitando temporariamente o menos pior, mais uma vez. Funcionou pra ele. Embora por pouco tempo.

Aproximadamente três semanas após esse ensaio dela, o namorado conseguiu dar a ela o princípio do asco. A compensação mínima de ser desejada sem desejar estava desaparecendo dia a dia. O motivo foi percebido por ela sem a amplitude do alcance. Viu-se observada por Filipe. Passou a soltar mais os cabelos. Cuidar com maior frequência das unhas. Maquiar-se sem desleixo. Usar roupas mais provocantes. Andar com maior graça. Sorrir de qualquer coisa que suas amigas dissessem. E enfim, retribuir de maneira contida alguns desses olhares de Filipe na faculdade. Desabituando-se da fidelidade a Cícero, entregou-se ao flerte. E para sorte de Filipe, não o comparou com ninguém a não ser seu namorado. A vantagem estava do lado dele por causa desse pequeno detalhe tão insignificante, mas que viria a determinar todo o resto.

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