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Ninguém presta quando se apaixona – III

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III

Moravam eles numa cidade pequena. Onde todos sabiam o que acontecia com todos. E quando não sabiam, inventavam.

Não era cidade de prédios. Poderíamos ver aqui e ali alguns sobrados sem estilo preponderante. Contudo, essas moradias de dois pisos em contraste com as de um possibilitavam identificar a separação de classes no subúrbio. Construções inacabadas ou em andamento denunciavam pretendentes a novos ricos. Família que obtivesse maior largueza financeira, tratava logo de a usar em estruturas para um segundo piso. Esse tipo de vaidade residencial andava desacompanhada do estilo e do bom gosto. A arquitetura, enfim, era à contemplação do espectador visitante um amálgama de construções indefinível.

Isa estagiava no Fórum. Cícero era torneiro mecânico. Filipe, contratado temporário do Banco do Brasil. Isa e Filipe frequentavam a única universidade da cidade. Esta oferecia apenas três cursos. Direito, Contabilidade e Serviço Social. Cícero graduava-se em Engenharia Mecânica à distância. Tanto Cícero quanto Isa estudavam o que gostavam, e queriam crescer profissionalmente. Não eram alunos excepcionais, apenas regulares. Filipe ia do péssimo ao regular. Fazia contabilidade principalmente por ameaça paterna. Gostava de Educação Física. Talvez por isso acabou sendo um aluno desleixado, atrasado e, constantemente, um estorvo.

Assim como em todas as cidades, o município era rico em quantidade de igrejas e cristãos nominais. No que se refere à religiosidade de Isa, Cícero e Filipe, os três se diziam cristãos. Na prática, nenhum deles era. Filipe rotulava-se católico romano, mas não sabia nem o que significava missa. Cícero frequentava até antes de conhecer Isa a Igreja Católica também. Porém, era agnóstico. E quando teve a confirmação do namoro, chegou a ser batizado na Presbiteriana Renovada da qual Isa era membro desde o nascimento. Ela tinha um bom conhecimento teológico e gostava de debater assuntos dessa ordem. Entretanto, sua vida girava totalmente no que é mundano, chegando a ser fã de quem zombasse da sua própria ‘fé’. Considerava a Bíblia um livro ultrapassado, mas não dizia isso abertamente por medo de represálias. Em suma: iam todos à Igreja por simples conveniência, relacionamento social e por não terem o que fazer.

Os moradores se reuniam em quantidade considerável somente nas missas, cultos dominicais ou onde se davam acidentes e incidentes. Todo o lazer consistia em conversar ou namorar nas três pracinhas. Tomar sorvetes ou cerveja em grupo. Visitar os lojistas apenas consultando preços sem nada comprar ou comprando sem consultar os preços, mas os valores das parcelas. Também frequentar rodízios semanais das pizzarias e churrascarias. Ou ter a sorte de ser convidado para aniversários e casamentos (o que gerava comoção entre as mulheres, por terem a oportunidade de usar vestidos opulentos, colares, anéis, passar o dia no salão fazendo penteados complexos e mudando os traços imperfeitos através da maquiagem carregada. Produzindo centenas de fotografias a noite toda para postagem nas redes sociais ou mudar as fotos dos perfis de comunicadores de seus smartphones. O que causava uma verdadeira avalanche de upload nos mensageiros. Faziam isso nessas festas, pois esses hábitos femininos em outras ocasiões seriam vaidades e embelezamentos tidos por exagerados ou mesmo levianos. Por causa do conservadorismo vigente ali).

Nadar numa represa perigosa em feriados e finais de semana quentes era um acontecimento digno de nota. Nem tanto as vestimentas dos banhistas e a própria represa, pouco habituados à moda desse tipo de ocupação. Se nada pudesse entreter os habitantes, a última opção era locar filmes em baciadas, assistindo-os até se virem obrigados a fazer outra coisa. Na cidade não havia cinema, shopping, parque de diversões, mata selvagem quiçá praia. Havia um pequeno monte, porém. De onde se podia ter vista privilegiada de toda a região. Era visitado por famílias durante dias de folga, que lá faziam piqueniques. À noite, visitado por um ou outro casal que se arriscava e se aventurava procurando maior privacidade ou um grandioso desafio.

As ruas centrais eram e continuam apertadíssimas. Não há como estacionar em frente às lojas, bancos ou órgãos públicos sem parar todo o trânsito. Todos se usavam dos estacionamentos das praças, principalmente a da Igreja Matriz, ou dos supermercados e da rodoviária, indo depois realizar suas obrigações a pé. O que não era fácil porque as calçadas têm um metro e meio para pedestres transitarem entre as lojas e as vias. Típico problema de cidade que cresce pra dentro. Onde o verbo expandir é desconhecido e a claustrofobia não é tida por neurose. Para piorar a situação, os moradores em sua maioria tinham à época uma existência sedentária que os puseram acima do peso. Alguns, muito acima do peso. Essa gula peculiar oriunda do superávit familiar dificultava o trânsito entre as pessoas e as obrigavam, não raramente, a terem que se usar dos pisos internos das lojas, dando nelas voltas labirínticas. Ou mesmo das ruas, desviando de veículos. Todo esse esforço para evitar o choque entre uns e outros ou quando avistavam conhecidos dados a conversar pelos cotovelos no meio da rua.

Os motoristas, por estarem sempre a guiar com obstáculos humanos, andavam nas vias como se seus carros fossem camelos. Ocorriam esbarrões nos carros e nas gentes, disparando como gatilhos os impropérios mútuos. Ditos e respondidos com o olhar direcionado em outros horizontes sem ser aos olhos dos casuais adversários. Mas tudo ficava nisso mesmo; um fingindo não ter xingado, outro não tê-lo sido.

Não obstante esses problemas urbanos comuns, se alguém fizesse uma pesquisa de satisfação com relação a morar naquele município, a esmagadora maioria, exceto a dos mais jovens, sempre a mais apta a querer piorar o regular, solicitando o horrível pensando ser ótimo (estão conseguindo hoje), seria de satisfeitos. A rede de esgotos funcionava e não havia alagamentos em época de chuvas. A periferia era composta de bairros de classe baixa sem ser miserável. E era acompanhada com atenção pelas autoridades, sob a tutela de alguns projetos sociais que deram certo, como espaços esportivos que funcionavam durante a noite. Também havia bases policiais que possibilitavam as rondas frequentes diminuindo a ocasião dos pretendentes a bandidos. As casas de entorpecentes tinham pouquíssimos clientes, os quais eram esporádicos tanto quanto diversamente casuais.

A criminalidade existia como em todo o lugar, mas eram poucos os casos graves de violência, a não ser um ou outro surto familiar. Não existiam casas de shows, prostíbulos e bailes funk. A indecência era legada para barezinhos discretos que, procurando evitar perseguições, pagavam pequenos agrados a policiais corruptos e não abusavam do volume dos aparelhos de som.

Quanto ao clima, subtropical com dias quentíssimos esparsos no verão. Assim como dias gélidos no inverno. Ventando bastante. E as chuvas: tempestuosas, de modo a sempre deixar rastros de danos nos aparelhos eletrônicos das residências, além dos comuns destelhamentos.

Os moradores nutriam verdadeira adoração aos animais de estimação. Grande parte possuía cães, gatos, maridos e esposas. Uma minoria tentava domesticar cobras venenosas, viúvas-negras e amantes. Sem notícia de que obtiveram sucesso.

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