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Ninguém presta quando se apaixona – II

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II

Isa, Cícero e Filipe não iriam mais se esquecer daquele tempo em que suas vidas se entrecruzaram. Mas cada um desenvolveria ponto de vista distinto. Apegados ao exagero e às falsas suspeitas. As memórias traem nas camas da parcialidade, forradas pelos lençóis dos contextos com suas rugas abstratamente ambíguas.

Há pouco a se dizer de Filipe.

Nascera com carisma. Destruiu-o quase todo no desenvolvimento dum humor tórrido com o qual não nascera, mas que o levara próximo à imperfeição plena pela constância. Ao contrário de Cícero, tinha semblante destacado. Cabelos castanho-escuros da cor dos olhos. Ombros largos. Vestia-se de maneira despojada. Transparecia alegria irônica. Pouco nele era forçado. Mas o excesso de atitude, às vezes, o levava bem perto da irritação coletiva. Se não era belo, também não fora atingido de completa fealdade. Tinha bons traços.

Não tinha mesmo era caráter, e a inteligência era escassa. Apesar de lhe sobrar atitude. Se não deu em cima de Isa até o dia D, isso se deve menos a ele que a ela. Isa tinha alguma dignidade, embora o tempo cuidaria de pô-la mais à prova. A Filipe, contudo, seria impossível namorar alguém por oito meses sem gostar e sem sexo. Impossível a concepção e inconcebível a compreensão.

Não ter caráter aqui não significa ser mau caráter. Era amoral antes dos atos, e durante, e depois. Buscando a vantagem própria sem desejar o mal alheio; mas se viesse, pouco se lhe dava. No entanto, algumas desastrosas decisões suas fariam muitas pessoas julgá-lo mau caráter. Porque pessoas que nada vivem tudo julgam. Se vivessem, excluiriam mau e poriam no lugar ignorância e precipitação. Era elementar. As consequências traziam mal a ele mais que a qualquer outro.

Sua criação é responsável senão completa quase completamente por esse desequilíbrio. Foi criado num lar que era erguido sob uma base, ao mesmo tempo, de rigidez moral elevada com uma frouxidão moral absoluta.  A primeira na figura dos pais com eminência do pai; a segunda, na dos tios, primos e amigos com eminência de todos. Em teoria, isso poderia representar a receita correta do equilíbrio, mas era o oposto. Essas duas forças agindo na construção da sua personalidade o fizeram trilhar caminho diverso dos santos e também dos canalhas, terminando por vesti-lo duma santidade acanalhada.

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