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Ninguém presta quando se apaixona – I

lenha-na-fogueira

I

Ele a desejava. Intensamente. Ela tinha outro. Por isso intensamente. Considerava-a lindíssima. Estava enganado. Os olhos não eram emblemáticos, sentaram na franqueza crua e lá ficaram. Faltava-lhe busto menos pedinte. Lábios protuberantes. Altura. As pernas ganharam reputação de exóticas. Não tanto pelas coxas, mas pelo arredondamento incomum da parte anterior das canelas. Para tudo isso contribuía um leve mas perceptível desarranjo nos quadris, como se vissem doutro corpo. Seus melhores atributos vinham do nariz sensivelmente ajustado ao rosto e da fronte iluminada, de onde emanava pureza sem, no entanto, lança-la a uma suspeita de pueril ingenuidade. Vinham também dos cabelos pretos e curtos aos ombros: modernos, implacavelmente lisos; desembaraçados por natureza, sendo reluzentes isentos da acusação de artificiais. Os pés finos de dedos médios causavam admiração por sustentarem com firmeza um corpo todo tendo tamanha fragilidade. As mãos não causavam tão boa impressão, pelo desgaste. Lidaram tempos passados com domesticidades frequentes. Ainda assim, lutaram com resiliência para não serem chamadas decrépitas.

Mas o que o atraía em Isa não era a beleza estonteante que ela não tinha, e Filipe nem sabia disso, era a delicadeza. Espontânea que podia ser facilmente percebida como sensualidade. Não era. Essa vem dum fogo, e nela mesmo o brando era ausente. Tinha uma faísca, porém. Visível, de tempos a tempos, tentando acender a chama da sua aura pra requisitar atenção mais detida a si. Às vezes, conseguia. Não profusamente, tampouco em absoluta minoria.

Filipe fazia parte do seleto grupo. No início, ele confundiu lascívia com paixão. Pouco depois, paixão com amor. Não sabia o que sentia. Mas sentia. O empecilho para a realização do que quer que sentisse, trazendo o imaginário desejado à realidade prática, era o namorado de Isa. Cícero. Empecilho que também cumpria as vezes de combustível. Além dessa dificuldade, Isa também não era de se doar à contemplação. Ela e ele: a primeira desatenta ao ambiente com o segundo, um outro, pegajoso e maçante, fizeram diminuir consideravelmente a oportunidade do bote que Filipe buscava.

Definitivamente, não tinha boa fisionomia o namorado dela, pensava Filipe. Essa conclusão, embora a ele fosse desagradável por manchar de alguma forma a imagem perfeita que fazia de Isa, não era de todo. Pelos seus cálculos quase inconscientes, formulava: se ela foi capaz de união tão aparentemente desvantajosa, não pode ser impossível se entregar a outra menos. A conclusão era, de fato, boa.

O que se pode dizer de Cícero é que, por ver-se subtraído de aspectos estéticos importantes para ser considerado ao menos um “boa-pinta”, esforçava-se por ser gentil, elegante, inteligente, caridoso, humilde entre outros esforços qualitativos que se criam, se desenvolvem e, mais comumente, se fingem sem que seja necessário o complemento da beleza física. Tendo por intuito unicamente a compensação de sua ausência. Nele, contudo, esses esforços apareciam extravagantes demais até aos que mal observam. E prejudicava o objetivo de manifestar tais qualidades como sendo inerentes à sua pessoa.

Isa namorava Cícero por duas causas que não eram paixão ou amor. Para Cícero, irrelevantes. Não tinha amor-próprio suficiente para deixa-la. A causa primeira era a pena. O tipo de mulher que conseguia dar-se a outro, em prejuízo de si mesma, por piedade. A segunda, não em poder de persuasão, era a coação das amigas em comum com Cícero. A pressão delas não provinha de uma preocupação genuína para com o outro, mas para consigo mesmas. Tinham pavor de iniciar relacionamento pela causa a que constrangeram Isa. Com isso no coração e mente de um grupo de amigas, há um sacrifício que sai dum empurrão. Empurraram, sem hesitação e escrúpulo, Isa ao cadafalso, para salvar suas próprias peles. Para isso, a tática era a retórica perseverante. Frases como “formariam um belo casal”, “ele te ama muito” e “coitado, está sofrendo demais” jorraram por semanas nos ouvidos de Isa. No início, foi convencida de que a imagem deles juntos não era assim tão inaceitável. Depois, de que poderia ser comum e possível. Mais um pouquinho, aceitável e mesmo desejada. Enfim, que o sentimento dele poderia fazer o contrabalanço com seu evidente desinteresse, sendo este moldado à imagem e semelhança do sentimento de Cícero.

Deu tudo certo ou tudo errado e começaram a namorar. Não foi necessário muito tempo para ela cair na real, enxergando que não iria gostar dele de jeito nenhum. Porque não dava para tê-lo nem como amigo. Apesar de, antes dele, Isa ser sexualmente ativa, jamais permitia seus avanços atabalhoados do princípio do namoro. E, passados dois meses, com a adição insuportável da insistência mais atabalhoada ainda. Para não se entregar, usava como escudo a religião. Mas a verdadeira razão não era religiosa. Isa não era nenhuma puritana. E sim, tão somente, a insignificância plena que a essência de Cícero representava para a sua libido.

Simplesmente não despertara nela uma única fagulha de desejo. Quando a beijava, parecia-lhe estar sendo beijada pela palma de sua própria mão. Até que à mão foi parar uma miniatura de iceberg. Era o que sentia quando estavam juntos: muito frio. E essa sensação acabou por transforma-la no que não era e nunca quis ser: fria. De uma frieza glacial.

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