Contos

Conde-rato Vronsky

conde

Tentei matá-lo; infinitas armadilhas e perseguições foram realizadas, nenhuma delas resultou no homicídio do invasor. Ele é metódico, e após ver a família junto com a comunidade assassinadas pelo veneno, não caiu nas armadilhas. Identificou as ameaças e controlou os instintos.

Consegui declarar guerra ao matar sua mulher numa invenção revolucionária dos tempos modernos: o adesivo. A ele foi um acontecimento traumático, vê-la se debatendo sem nada poder fazer. Tem se vingado desde então. Estudando meus hábitos e gostos, procurando sempre me atingir no que me é mais valioso. Os livros. Destruiu vários; alguns raros. Onde quer que os coloque, ele vai lá e os destroça. É um ser vingativo, movido está pelo rancor e por um objetivo claro: matar-me.

Verificou-se sem limites para a ameaça. Ele vem passando algumas mensagens desde suas roeduras. Possui alguma linguagem que se desenvolve a olhos vistos. Está a comunicar-se pelas frases que deixa sem roer. Para isso, alimentou-se primeiro de minha gramática, a mesma que eu só tinha em casa de enfeite.

Depois de comer tantas páginas de livros entre eles os didáticos, aprendeu a ler. Exagero? não. Há evidências: numa remota quarta-feira pela manhã, encontrei uma página de um dos meus livros favoritos de Gabo, Crônicas de Uma morte Anunciada, quase inteiramente roída e separada do livro. Era a primeira página. Até aí nada de curioso. No entanto, o que sobra? “… tinha uma reputação bastante bem ganha. Quando saía ao monte levava à cintura um 357 Magnum, cujas balas blindadas, segundo dizia, podiam rachar um cavalo ao meio.”

Era uma ameaça dirigida contra mim. Este infeliz estava querendo usar minha arma que guardava em cima do guarda-roupa. Próxima a essa ameaça de morte, estava a prova indiscutível: suas fezes. Escreveu com elas um M, bem espaçado, que decodifiquei como promessa de morte lenta e dolorosa. Evidentemente não procurei a polícia, buscando evitar correr o risco de ser internado num hospício.

Porém temi pela minha segurança. Procurei me proteger e vendi a arma no dia seguinte para um bandido qualquer. Retirei também todas as facas e materiais metálicos, comprei talheres de plástico. Troquei a cama de lugar porque os pés do guarda-roupa estavam sendo minados, na intenção de jogá-lo em cima de mim enquanto dormia.

Mas as conspirações continuaram. Ele agora estava aprendendo muitos métodos de tortura, dissimulação e emboscada em “As crônicas de Gelo e Fogo”. Roeu páginas inteiras deixando em algumas apenas a mensagem escrita em alto valiriano: “Valar Morghulis”: todos os homens devem morrer. Ou frases zombando de minha incapacidade em me colocar à frente dos seus passos, aquelas em que Ygritte dizia para Jon, o Snow: “Você não sabe de nada, Jon Snow!”

Seu humor era dado a sátiras. Sua presença em minha casa estava se tornando um grande estorvo. Não podia mais namorar. Todas as mulheres que levava em casa ele tratava de aterrorizá-las, mostrando-se e até ameaçando agressões enquanto eu estava em algum outro cômodo da casa. Era o suficiente para que todas quisessem ir embora imediatamente.

Exímio pentelho, uma vez permitiu que eu me deitasse com uma. Só pra passar em cima das costas dela enquanto estávamos fazendo amor. O susto foi tão grande que quase matou minha agora ex-parceira de um ataque cardíaco. Eu levei a culpa. Várias bofetadas e arranhões por não cuidar da casa como pessoas civilizadas faziam. Ninguém compreendia que eu não tinha culpa, o rato era maquiavélico e totalmente escorregadio.

A partir desse dia, vi que não tinha jeito. Teria que matar ele ou ia acabar com minha vida. A primeira tentativa mais violenta era um tanto óbvia, adotei um casal de gatos. Durante a noite, ele e os gatos faziam um escarcéu dos infernos, não permitindo que dormisse direito por dias. Miados, esbarrões, desabamentos, tombos além das correrias sem fim e, no entanto, nada de morte do invasor infeliz. Ele arrumava tempo para me ameaçar mais ainda. Agora em  xingamentos impronunciáveis. Desfiz-me do casal de gatos depois que ambos amanheceram cegos. Pelo visto, eu mesmo teria de enfrentá-lo numa guerra antológica, uma em que a casa provavelmente iria abaixo, mas uma em que o homem mostrasse definitivamente quem é que manda nos bichos.

Parti em busca de estratégias de guerra. Reorganizei os móveis de modo que o chão ficasse sempre visível. Espalhava pedaços de papel com reações às ameaças e xingamentos dele pela casa. Ele se revoltava. Estudando seus hábitos e sua personalidade com afinco, descobri um ponto de irritação crítica: a zombaria. Ele gostava de zombar, mas odiava sê-lo. Destruiu o sifão da pia e uns três livros quando eu insinuei que era traído. Sua resposta furiosa foi algo incomum, pois em média era um livro por semana, aos poucos. A provocação que o deixava ainda mais nervoso era a alcunha gatinho mimado. No dia que fiz isso, por pouco não fez cair o telhado da casa sobre mim.

Insisti na perseguição com coragem heroica. Fiz arapucas e ficava de tocaia. Por vezes a noite toda. Fingindo dormir enquanto o via perambular. Mas ele era desconfiado. Tornava-se imperceptível como um espião, armado de ideias revolucionárias. Fugia, se escondia, andava por todos os lados na surdina, em horários que nunca coincidiam. Comia minha comida e passava suas mensagens homicidas pela Constituição. Comprei um exemplar comentado da Carta Magna, intentando emenda-lo às regras. Acreditando que tudo pode ser resolvido com um pouco de educação, instrução, esclarecimento, protestos pacíficos e no ensino do Estado de Direito. Mas ele era dado ao inconstitucional. Um autêntico brasileiro.

Fiz tudo isso sem esperança, sabendo que iria ser difícil retira-lo das margens da lei. Eu não aguentava mais e precisava apelar a todos os artifícios que existissem. Ele, contudo, reescreveu o artigo 5º ao seu modo. “Todos são iguais perante a lei e é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem…” Canalha! Mil vezes canalha.

Cheguei ao meu trabalho exausto em uma manhã ensolarada antes do túnel e chuvosa depois dele. Com uma cara de nocauteado que rapidamente chamou a atenção de um colega. Desabafei com ele e contei toda a história. Jorge pareceu interessado, e quando falou sobre uma opção que havia usado com problema semelhante, pensei: é agora! O que ele sugeriu foi o seguinte:

– Contrate uma rata treinada, assassina. Tenho amigos fortes no setor. Claro que é tudo clandestino e você precisa manter segredo. Essas informações que vou te passar devem morrer aqui.

Jorge me passou o endereço. Eu mal pude esperar o horário do almoço para ir visitar o QG Ratas Treinadas e Cia. Que a noite era chamado “Exotic Grannies”, por motivos que eu desconhecia e nem queria conhecer.

Assim que se deu a pausa, chamei um táxi e fui com impaciência para lá. O local era bem afastado da cidade, cheio de vielas e becos. Parecia um local cheio de vielas e becos. Pessoas desconfiadas olhavam para o táxi com olhar terrorista. Pedi para que o taxista esperasse ali que iria resolver rapidamente o assunto. Ele se negou, ainda que eu oferecesse o dobro da corrida, disse que não esperaria um minuto naquela merda. E que eu ligasse quando estivesse livre. Não houve como persuadi-lo e tive que me contentar com a promessa de que viesse me buscar quando o chamasse, naquela merda.

Dirigi-me até o beco 875, e interfonei no grito o barraco 238. André atendeu, olhando no de um furo no papelão que lhe servia de porta.

– Se for da polícia, devo avisar que estou carregado de explosivos e destruirei todas as provas.

Nem precisava de explosivos. Bastavam alguns pontapés e o barraco de um andar e meio desabaria fazendo fugir todas as ratas, mas… respondi com educação.

– Não é da polícia. Fui indicado pelo Jorge. Preciso de uma de suas agentes.

A porta se abriu violentamente, fazendo com que o barraco quase caísse, e fui a passos rápidos até o que ele chamaria de sala.

André disse, desconfiado:

– Tem certeza de que não foi seguido?

– Certeza, certeza, eu não tenho não. Mas se tiver sido, é só você explodir o prédio.

– Engraçadinho você, não? Cuidado! Muitos aqui entram, mas poucos são os que saem.

– Vamos logo com isso, trouxe o dinheiro e preciso da sua melhor assassina.

– Você é muito impaciente, mas ok. Vou te mostrar. Tenho as melhores, algumas são lendas vivas. Siga-me.

Segui ele por um corredor totalmente escuro, inóspito, com cheiro de cheiro ruim, em que ia parar num amplo salão sem teto e sem paredes, repleto de ratas pequenas, médias, grandes e enormes. André, como quem estava mostrando um parque de diversões, começou a apontar e dar nomes.

– Madame Bovary, por exemplo, já matou centenas de ratos com armas únicas de engodo.

– Luísa, rata terrível. Perigosa, usa-se de sensualidade pueril e finge ingenuidade com perfeição, mas é o capeta. Milhares de ratos.

– Capitolina, rata oblíqua, impassível, imperturbável e insondável. Jamais se tem certeza do que ela pensa, planeja, fez ou fará. Também milhares de ratos.

– Chega, Sr. Amaral. Tenho mais o que fazer. Quero a melhor.

– Amaral é seu pai. Porém a melhor vai depender de com quem estamos lidando. Fale-me mais sobre seu inquisidor.

– Um rato absolutista que sabe ler e quer me matar.

– Seu caso é grave. Precisaremos da Karenina, então. Da alta burguesia. Esse rato deve ser descendente do Conde Vronsky. No caso dele, precisamos de uma que usa as armas da sedução, mas que seja também controladora, manipuladora, problemática, neurótica, feminifacista, mãe que troca filhos por amantes, mentirosa, falsa, chorona, traiçoeira e suicida. E que, mesmo assim, se passe por heroína a todos que a conheçam.

– Pode ser, quanto?

– Três mil.

– Que absurdo, está louco? Com esse valor ressuscitava a Anna verdadeira.

– Até parece. Com esse dinheiro não dá nem pra ter a Anastasia Steele, que dirá mulher de verdade.

– Certo! Três mil, mas se não funcionar, devolvo e quero o dinheiro de volta.

– Combinado. E não se preocupe que isso vai funcionar.

Saí dali rapidamente com Anna Karenina na gaiola. Chamei o taxi que demorou a ponto de quase me atrasar para o serviço. Cheguei ao trabalho e falei com Jorge que tudo saíra como planejado. Ele manifestou a necessidade de sermos discretos e nunca mais falarmos do assunto. Tentei trabalhar, mas não conseguia pensar em outra coisa senão na Anna Karenina destruindo o Conde Vronsky. Era minha última esperança.

Terminados os ossos do ofício, dirigi-me para casa com imensa pressa. Soltei Anna que rapidamente desapareceu pelo forro. Ouvi sons que me pareceram ser apresentações entre eles. Depois disso, silêncio total.

E assim foi a semana toda. Nada de barulho. Nada de mensagens. Nada de baderna. Tudo sempre limpo. Não havia o menor sinal do Conde Vronsky fuçando nas minhas coisas. Eu nunca estive tão havia tempos. Algo aconteceu, no entanto. Surgiu uma mensagem nova após vinte dias de silêncio. Era o inciso primeiro do artigo 226 da Constituição: O casamento é civil e gratuita a celebração.

Não era possível. Anna deveria estar grávida, prenhe ou sei lá o quê. Isso significava uma dezena, no mínimo, de filhotes. A paz acabou. E o sacana parecia querer que eu realizasse uma cerimônia de casamento entre os dois. Imediatamente liguei para André.

– Acredito que Anna está prenhe, o Conde está sugerindo casamento. E agora vai encher a casa de ratos. O que faço?

– Ela até pode estar, mas não se preocupe, nunca deu a mínima para seus filhotes, e se usa deles para conseguir o que quer. Depois os descartará. Faça a união, ela deve estar planejando algo diferente. Esse seu rato deve ser mesmo um ser dos mais malignos que já tive notícias. Mas não tenho nada a fazer além de te dizer que confie nela. E vire-se.

– Mas…

Ele desligou na minha cara. Voltei para casa e deixei duas arruelas minúsculas com um bilhete dizendo que eram alianças para formalizar a união. Precisava fingir que estava tudo certo para pensar no que fazer. Não tinha ideia de como iria me livrar daquilo.

As arruelas sumiram e passou-se mais cinco dias sem qualquer barulho, sem qualquer nova mensagem. Até que assistindo o telejornal, me deparo com uma notícia bombástica.

“Câmeras de vigilância da estação do Metrô Linha Vermelha – Artur Alvim – registraram nessa noite uma briga violenta de um casal de ratos. Após o desentendimento, a rata se suicidou, lançando-se nos trilhos. Aparentava estar prenhe. O rato escondeu-se em algum canto, e foi filmado saindo da estação algumas horas depois.”

Foram mostradas as imagens, e confirmei minhas suspeitas. Eram eles. Conde Vronsky a enlouqueceu, levando-a a uma atitude drástica. Respirei fundo. Tinha certeza de que ele retornaria. Mas nunca mais apareceu. O que estranhamente me deixou menos feliz que triste. Hoje, sinto sua falta. Ele era espirituoso. E é bastante certo que poderia me ensinar muito sobre como lidar com mulheres, principalmente as déspotas problemáticas.

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