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Pães de queijo – Prototipagem

É sempre fácil julgar. A opção preferida dos que nada sabem sobre a vida. Já não há no mundo ninguém que reflita sobre atirar pedras. Pelo contrário, todos estão sempre dispostos a atirar pedras, telhas e paralelepípedos não com as mãos tão somente, mas com canhões. Para os tais santos e anjos, se a pergunta a eles fosse feita como nos dias de Jesus, não hesitariam em matar a adúltera. Primeiro os mais velhos, depois todos. Ao fim cuspiriam e é bem provável que até urinariam em seu cadáver estraçalhado.

Não sou a culpada do mal no mundo. Quando nasci, a não ser que eu esteja muito enganada, ele já fazia milhares de vítimas todos os dias. Não sou eu somente a culpada por R. S. D. não ter tido mãe. Estou pedindo que me entendam? Que me perdoem? Guardem suas comiserações para vocês mesmos! Tudo o que quero é ser julgada, por Deus! A não ser que vocês sejam Ele, o que lhes cabe é somente minha confissão. Eis ela.

Fui estuprada pelo meu padrasto aos onze anos. Só tive coragem de contar para minha mãe aos doze, minhas suspeitas estavam certas, no entanto. Levei uma surra. Ele havia sido o único que a sustentava sem muita dificuldade. A ela e a nós: quatro. Todos os filhos eram de pais diferentes. Assim como o quinto que estava chegando. Como ela não deu a mínima, ou pelo menos aparentou assim ser, segui sendo estuprada até os treze pelo meu padrasto. Quase que diariamente. Alguns, inclusive minha mãe, poderiam dizer que foi até os quinze. Mas não. Foi somente até os treze.

Estranhamente, jamais engravidei. Nunca tomei qualquer precaução. Apesar de meu padrasto ter preferências que não me engravidariam, nunca deixava de ter relações que sim. Talvez fossem os chás que minha mãe me obrigava a tomar quase toda a semana. Não sei. O que sei é que à medida que minha irmã cresceu, ele se cansou de mim e era ela que procurava. Acho que se tratava de uma questão de gosto. Não deu muito certo pra ele. Desta filha minha mãe gostava muito, era a queridinha. Por ter sido fruto do amor, do amor…

Minha mãe denunciou-o. Teve um baita escândalo e nos mudamos para os fundos da casa da avó do meu irmão menor. Fiquei chateada por ser obrigada a trabalhar e dar todo o dinheiro em casa. Até parece que eu ia aceitar isso. Nem era a queridinha… Resultado: saí de casa direto assim que surgiu oportunidade. Oportunidade que me pareceu bem lucrativa, vender-me.

Cliente nunca faltou. Eu sempre fui magrinha, era conhecida como Gisele. Bastante disputada. Hoje, nem tanto. Eu me protegia. Mas num dado mês, esqueci de tomar apenas um comprimido. Justamente no período em que eu tinha um “fixo”. Não deu outra, engravidei. Não creio que seja necessário dizer que o queridinho que dizia que me amava e iria me tirar da vida deu no pé assim que soube da minha gravidez. Nunca mais o vi. Acho que ele tomou alguma poção e ficou invisível.

Tentei abortar com medicamentos, emplastos e tudo o mais, não deu certo. Procurei uma clínica. Até combinei o dia. Mas desisti com medo de morrer depois de ver pela televisão que uma mulher tinha morrido e sido jogada num terreno baldio depois de um aborto malsucedido. Resolvi que teria o filho e daria para quem quer que aparecesse. Ou vendesse se fosse bonito.

Enquanto estive grávida, continuei trabalhando normalmente. Havia clientes que me pagavam mais. Tinham fantasias com grávidas. Assim que se tornou impossível trabalhar, eu tive uma crise. Pensei em largar tudo e cuidar do bebê, mas como? E iria trabalhar no quê se não sabia fazer nada a não ser vender meu corpo? Ir à casa da minha mãe estava fora de cogitação.  Se ela me visse de mala na mão e grávida é bem provável que me matasse antes de me ajudar. Não, eu realmente tinha que dá-lo a alguém. Não queria orfanatos, instituições de caridade, queria alguém que pudesse cuidar dele.

Ofereci pra umas vendedoras de uma loja de calçados da qual era cliente, assim que saí do hospital. Estava sem dinheiro, por isso ofereci por dois mil reais. Pechincharam e cheguei aos mil e quinhentos. Era ruivo e dos olhos vivos, com certeza valia muito mais. Uma mulher chamada Daniele o comprou. Mais tarde, quando se deu o encontro assustador meu com R., soube que provavelmente Daniele o vendeu para outra pessoa com um lucro exorbitante. Tenho certeza que aquelas vendedoras eram bem mais putas do que eu.

Sobre o encontro com meu… meu filho, eu não pude evitar o choque. Jamais imaginei que fosse ter com ele em qualquer dia da minha vida. A sorte foi que ele sabia onde me encontrar, ou poderia depois se tornar um dos meus clientes sem que eu me desse conta. Não era raro ser paga por adolescentes.

Passado o choque, procurei me controlar e só pensava em me livrar daquela figura. Mal posso cuidar de mim, que dirá de um rapaz totalmente perdido. Chamem-me do que quiserem. Comigo ele só teria chance de se transformar num vadio pior do que já era. Eu evitei-o. E depois de sair dali com um cliente, mudei-me de cidade. Não fiz nada errado. Lembro de uma vez ter em algum lugar algo sobre vencer o mal com o bem. Eu nunca fui do bem e não tinha bem algum para dar àquele garoto, mergulhando no mal. Torço para que alguém tenha ajudado ele. Mas, se ninguém ajudou, eu é que não iria.

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5 comentários em “Pães de queijo – Prototipagem

    1. Fico mais feliz que você pelas suas leituras. Quanto à assiduidade, é verdade. Opera em mim à produção, por vezes, essa coisa de nada, incompletudes ou pilhas de texto. O jeito é se habituar. Muito obrigado, Ma, significa muito sua companhia. Abraço, ótima semana!!!

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  1. Li, reli e fiquei chocado. Mesmo sabendo que nele havia uma realidade que sempre tentamos dizer que nos chocamos é um fato normal e corriqueiro. Percebi logo após uma outra visualização o grande Nelson Rodrigues ao lado e com certeza esse sabia e muito descrever os textos nesse sentido, as tragédias da vida.
    Para julgo é um texto super forte e de difícil dissertação.
    Mesmo sendo algo triste adorei sua história. Abração! 🙂

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    1. Prezado Cláudio, realidade sinistra e, infelizmente, como você diz, corriqueira e normal. Talvez por isso ainda mais sinistra. Conhecida por nós nas semelhanças com frequência anual, mensal ou até semanal. Agradeço pelo seu retorno. Certamente é de grande ajuda contra a insegurança literária sempre presente. Forte abraço. Ótima semana.

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