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Pães de Queijo – Pai e Filho

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Porque durante toda a sua vida jamais deixou de acreditar no amor. Na mão estendida pronta a ajudar os que realmente precisavam. Em paz consigo e com todos, assim morreu. Não na desistência. Mesmo diante do claro prejuízo de quem opta por não ser um peso a mais nas densas trevas, dessa realidade triste: a de que um homem mau corrompe milhares, ao contrário do homem justo, que para interferir no curso do mundo, deve se contentar com a influência a conta-gotas, teve constância.

Insistiu por dois motivos, que encontrou em suas ponderações libertas do imediatismo da desfaçatez. Não comercializava ações, esperando os depósitos da troca vantajosa ou do lucro usurário. Seus atos carregavam em si mesmos a recompensa, a da boa consciência. E conseguia enxergar claramente na massa do mal reunida em milhões de milhões; praticando todo tipo e espécie de maldades, seu irrisório valor diante da alma límpida, clara e serena de apenas um único homem que quis ser transformado e não acomodado às paixões vis. Precisamente com essas palavras, ele me educava. Esse homem, esse grande homem foi o pai que necessitava ter. Apesar da desgraça de ter sido abandonado, criado nos laboratórios do crime, encontrando-o, pude vencer.

Meu nome é R. S. D. Oculto prenome e sobrenome por uma causa justa. Não posso ser só um. Minha história é minha, mas também a de uma multidão.

Assim que nasci, fui repelido por minha mãe. Antes de nascer, ignorado pelo que seria meu pai. Os dois, criaturas amorais de nosso tempo, uniram-se como cães se unem quando se encontram nas ruas da podridão, em pleno dia de noites vagabundas. Sem qualquer verossimilhança com seres emocionais e racionais.  Entregues às babas, uivos e latidos e rolares no mato por uma questão instintual, que fazem cachorros serem adoráveis e seres humanos detestáveis. Eles eram descompromissados com a vida, inteiramente compromissados com a morte. Descompromissados com o amor, inteiramente compromissados com o hedonismo barato. Definitivamente, compromissados com tudo que não vale nada. Quase conseguiram forjar um déspota, não fossem as circunstâncias do favor, certamente seria esse meu trágico fim.

Não sou… não sou uma raridade nesses dias, dias tenebrosos. Quem dera fosse. Esse habitat está abundando de bastardos. Tive alguma sorte, não era pra eu existir. Se a sociedade… Esperem! Sociedade não, se a parcela da sociedade contrária ao aborto não tivesse dificultado o processo, eu teria sido certamente um pouco de carne amontoada nalgum montículo de lixo hospitalar. Porque não tenho dúvidas de que minha mãe biológica tentou me matar. As tentativas não deram certo por algum motivo que desconheço. Digo isso porque a conheci. Sim, eu fui atrás dela, esperando olhar em seus olhos e encontrar a fagulha do genuíno arrependimento. Quanta ingenuidade! Encontrei um monstro odioso. Se não tivesse um nome e se chamasse Tarsila, poderia tranquilamente ser chamada Perversidade.

A pesquisa para encontra-la não custou muito tempo. Todos se solidarizam com pessoas como eu, desconhecedoras de quem vieram. Como se já não fosse o suficiente não saber de onde e para onde, vão. Além disso, ela nem sequer havia parado de frequentar os mesmos becos. Uma mulher bastante conhecida em ambientes tórridos. Não gostou, óbvio, de se reconhecer em mim. Cara de um focinho de outro.

Lembro-me bem desse dia. Era uma quinta-feira à tarde. O dia marcado em que um bastardo encontra sua mãe puta. O diabo deve ter se divertido. O céu estava nublado a tal ponto que a tarde parecia noite. Nuvens negras manchadas de tons cinza-escuro, horríveis. As ruas periféricas, nascidas de ocupações ilegais, transbordavam de depressão e desânimo. Talvez por serem pisadas por pessoas que carregavam o mesmo espírito. Era, enfim, uma tarde feia. Feia como as circunstâncias.

Ela evitou-me por um tempo, até que foi obrigada pela minha perseverança a parar de fingir que eu não estava ali. Quis saber os nomes dos responsáveis pela situação indesejada, com ar de ameaça. De como sobrevivi, com visível desapontamento. Emocionado em vê-la, ditei a minha vida com ímpeto, ignorando os sinais claros de desprezo e impaciência. Narrei as passagens em orfanatos sujos. As quatro adoções malsucedidas. As fugas fracassadas e a que deu certo. A vida nômade nas ruas de outro estado. Contei tudo, tudo. Seu semblante, no entanto, permaneceu inalterado, inabalavelmente inóspito. Como se todo o meu sofrimento não lhe dissesse respeito. Entrou num carrão instantes depois de eu terminar o relato. Tudo o que disse em despedida foi: Boa sorte! Nem abraço, nem beijo e nem sequer um sorriso ou um movimento de comiseração. Nada, nada e nada. Sequer uma lágrima, um endereço ou um sinal de piedade que se vê no olhar humano até para um cão de rua.

O que pensei em resposta não tive cordas pra vocalizar. Boa sorte, boa sorte. Boa sorte, coisa nenhuma! Mas foi melhor não lhe dizer nada. Demorei para compreender que ela era apenas munição. Disparada por armas ocultas, dessas que são engatilhadas por mãos insuspeitas, e agem sob a égide de mentes diabólicas, poderosas. Nas sombras da engenharia.

Saí dali depois de chorar copiosamente. Sem eira nem beira ou destino com absoluto desespero. Porque a dor misturou-se ao ódio. A receita perfeita e atemporal da tragédia. O esmagar esmiuçador tomou conta da alma, permitindo a posse de todos os demônios. Eu olhava para o céu e perguntava para Deus, por quê? Por que permitir nascer alguém desgraçado como eu nesse mundo de dor?

Decidi assassiná-la. Que ia dispensar minha fúria contra todos. Eu iria ser um criminoso feroz. Nunca havia chegado nesse limite. Apesar de perambular pelas ruas, sendo enxotado por muitos, ignorado por outros e caso clínico de pena para o resto, não tinha ainda cruzado a fronteira do ódio e desprezo generalizado contra a humanidade. Naquele momento, cansei de viver como lixo social, sem ter culpa alguma dessa droga que comigo se dera. Por isso quis, desejei o mundo do crime como nunca antes. E dele sobreviver causando o terror. Mas precisava de sucessivos ensaios. Os quais eu procurava já no próprio instante com olhar de fúria. Furtos, roubos, depredação. No fundo, só estava interessado na iniciação que me possibilitasse causar desgosto e fúria aos outros, partículas das quais me nutriram sempre. Que sentissem um pouco da dose do veneno que me deram, para verem o quanto é bom ser injustiçado. Estava cego, completamente cego pelo mal. Não enxerguei o ciclo.

A ocasião de promover a desordem surgiu num desses olhares. Vislumbrei uma padaria próxima de onde estava. A movimentação era esparsa. Fiquei de tocaia, observando. Durante alguns minutos, percebi que o homem atrás do balcão, por uma portinhola, adentrava para os fundos do estabelecimento, e de lá só retornava quando alguém entrasse. Fiquei sabendo mais tarde que havia um aviso sonoro que o alertava quando clientes apareciam. Nos fundos, ele acompanhava uma partida de futebol pelo televisor.

Planejei entrar quando alguém entrasse e, enquanto ele atendesse o cliente, eu furtaria algo pra comer e sairia em disparada. Esse era o planejamento do meu primeiro crime. Planejei e executei.

Assim que entrou uma senhora, entrei logo atrás. Havia uma forma com pães de queijo de aspecto delicioso no balcão. Não hesitei quando se deu a oportunidade. Enchi os bolsos e corri. Ouvi um pequeno furdunço que, aos poucos, foi ficando distante. Esgueirei-me numa viela e os enfiei na boca como um animal. Eram maravilhosos. Mas a sensação vinda do prazer da saciedade e de causar dano ao inocente durou pouco. Bem pouco.

Todo um filme passou em minha cabeça. Foi péssimo sentir-me um ladrão. A minha consciência estava pesada. Por mais horrendas que houvessem sido as condições da minha vida, eu podia sentir o peso do erro caindo sobre mim. A avalanche de sentimentos que me levavam ao autodesprezo pelos meus atos de maldade, seguida da tristeza incomensurável produzida pelo segundo abandono da minha mãe biológica, fizeram-me chorar aos soluços: com o pão na boca sem mais conseguir mastiga-lo. Senti uma ânsia gigante e pus tudo pra fora. Escorreguei meu corpo pela parede até cair sentado no chão. E ali, na sarjeta, antevi que meu espírito não ia jamais estar cômodo na presença do mal.

Querendo aplacar tamanha dor, e ao menos me livrar da culpa, voltei à padaria. Entrei chorando. Preparado para o que desse e viesse. Se me prendessem ou espancassem, fariam um favor. Caminhei à padaria como se fosse à forca. Entrei e não consegui sustentar o olhar do homem que me esperava com os braços cruzados, porque parecia calmo, o que não aconteceu nas minhas melhores previsões. Retirei os pães dos bolsos, e os estendi ao proprietário que me encarava. O que consegui dizer foi só isto: “São ótimos. Só comi dois, mas pagarei!”. Percebi que ele olhou para cima. Quando retornou os olhos em minha direção, eles estavam marejados. Veio até mim e me abraçou. Não sei traduzir o que senti. Aconteceu algo indizível. Era como se estivesse sendo abraçado pelo próprio Deus. Passei a chorar ainda mais. Chorei todas as lágrimas que tinha. Ele também chorava enquanto balbuciava: “Ah, filho! Não precisa fazer isso, eu te daria. Sei como é passar fome, sei como é…” Tudo o que eu queria e não sabia era um abraço. Só um abraço. Não um de piedade. Um único abraço de amor.

Daquele momento em diante, ele lutou para que eu fosse seu filho. Todo o processo foi incrivelmente duro. Porque o Estado trava uma guerra contra os que querem ajudar os que precisam. Prefere burocratizar as boas ações ao infinito, e se consolida como o maior empecilho da prática delas. Age para facilitar a matança de fetos e, quanto àqueles que crescem, preferem lança-los na escola do crime, que eles mesmos criam pela falta programada de vigilância e educação, sem deixar a guarda a quem queira, de fato, cria-los como gente.

Mas meu pai conseguiu. Desfez um círculo vicioso pela perseverança. Dando-me a possibilidade, de que meus filhos tenham um pai. E eles terão. Jurei isso a ele e cumprirei. Eles terão!

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4 comentários em “Pães de Queijo – Pai e Filho

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