Opinião · Pensamentos

Construção de Zumbis

Parece-me no mínimo indecente que os mesmos agentes da negação de influência mental dos dispositivos do entretenimento vendam seus espaços para publicidade por preços astronômicos, com tempo de propagação ínfimo, considerando o despendido aos seus produtos ‘artísticos’, tentem ao mesmo tempo vender a ideia de que a realidade influencia a ficção e não o inverso, ou que não garimpam pelo interesse buliçoso tudo o que noticiam e propagam. Trata-se claramente de um fingimento tórrido da dissimulação.

Não podem esperar que eu acredite que duas horas de novela, uma hora e meia de filme, uma hora de telejornal ou horas de programas de auditório não têm poder de influenciar as mentes das pessoas enquanto vendem trinta segundos de comerciais garantindo aos contratantes o exato oposto. Não há constatação viável senão a de que nos consideram completos idiotas.

É autoevidente o engodo. Dentro do chamado horário nobre, o preço por anunciar um produto, um serviço ou uma ideia ultrapassa a casa dos milhões. Que empresa, geralmente das mais sólidas do país e do mundo, munidas dos melhores profissionais em todos os seus departamentos, estaria disposta a gastar fortunas em tão pequeno espaço temporal se não obtivessem resultados imediatos nas vendas do que anunciam? Claro que têm resultados. Claro que convencem. Claro que as pessoas correm no dia seguinte para consumir aquilo pelo qual foram persuadidas a possuir. Sem perceber, na maioria das vezes, que não precisam daquilo, mas foram convencidas a acreditar que precisam ou seduzidas para tanto. É praticamente hipnose.

Se isso se dá com trinta segundos de uma chamada, o que se dá então com horas de passividade do telespectador diante de homicídios ‘necessários’, abortos úteis, tramas diabólicas, falsidades entre ‘amigos’, corrupção normatizada, ladroagens, desfaçatez, adultérios, premeditações criminosas, putarias de variedades mil, ridicularização sistemática da religião e de religiosos – fundamentalmente evangélicos – e de todos os preceitos morais judaico-cristãos – numa sociedade de preceitos morais judaico-cristãos – estímulo infinito da libido, posicionamentos políticos e ideológicos dos mais nefastos e todos de esquerda, glamourizados e passados como o progresso absoluto, a verdade maior, o céu na terra, e tantos outros que me fariam escrever um livro só de citações de conteúdos propagandeados dia-a-dia nos lares dos brasileiros, não por segundos, mas por horas a fio. E eu estou falando somente com foco nos adultos. Como dimensionar todo esse mar de influência na cabeça da criança e do adolescente?

E, mesmo eu, que agora questiono isso tudo nesse texto não tenho qualquer motivo para comemorar, pois não saberia precisar de forma alguma qual é o tamanho do produto que sou e fui, manipulado. Quais são meus comportamentos que tive e tenho notadamente construídos por essa classe de dominadores do intelecto. Não sou extraterrestre, cresci como todos: vendo e consumindo todo esse lixo ‘cultural’.

É fato que agimos primordialmente ao crescer e adolescer pela imitação. Mas engana-se quem acredita que as classificações etárias servem para indicar que se está preparado para consumir determinado produto audiovisual sem por ele ser influenciado, tenha-se lá qualquer idade.

Não estou generalizando. Há sim informação. Há conteúdo. Há tentativas variadas de instruir as pessoas a terem uma mente crítica. Contudo são exceções nos mares da regra: controlar a mente e construir zumbis. Seres completamente doutrinados e aptos a pensar e agir da maneira que o establishment quer.

Se não é assim, alguém poderia tentar explicar somente uma prova que exponho mediante estudo sério. Um estudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), analisando cruzamentos de dados dos censos da década de 70, 80 e 90 em conjunto com informações concernentes ao aumento do sinal da TV Globo no país, mostrou que: “a parcela de mulheres que se separaram ou se divorciaram aumenta significativamente depois que o sinal da Globo se torna disponível”. A conclusão não para por aí: “Além disso, a pesquisa descobriu que esse efeito é mais forte em municípios menores, onde o sinal é captado por uma parcela mais alta da população local.” (1)

Não sou um anti-Globo. Em matéria de qualidade, principalmente jornalística, é um dos grupos de maior sucesso e competência do mundo. O que creio é que não é a única no mundo e muito menos no Brasil a disseminar ideias, ideais e ideologias que, majoritariamente, vão ter como consequência pela análise fundamentada a destruição de toda e qualquer ordem ou moral, com absoluto sucesso. O que exponho aqui não tem interesse sectário, mas analisar, se posso chamar assim, o conjunto da obra.

É, contudo, evidente que o BID não cruzou ou não quis cruzar esses dados sob outros horizontes. Quem duvida que o resultado seria diferente com relação não aos divórcios, mas aos homicídios? Aos estupros? Aos abortos? Ao aumento significativo de mães solteiras pela consumação do sexo sem compromisso? Ao planejamento de assaltos? À secularização de uma sociedade anteriormente religiosa? Aos parricídios? Ao desenvolvimento cada vez mais precoce da sexualidade? Ao partidarismo político da extrema-esquerda útil para destruição das liberdades?

Quem, no entanto, me vê falando assim pode concluir que vejo todo o mal do país e do mundo vindo da televisão. Oras, claro que não. Há ainda as escolas que deseducam. Há a internet. Há os tablets e celulares dados pelos pais como brinquedinhos para se livrar da responsabilidade de educar seus filhos pela ‘falta de tempo’. E não são poucos os infantes que estão sendo entregues com facilidade incrível aos pervertidos sexuais pelos seus próprios pais. Mas há também a maldade inerente do gênero humano. Que existe com ou sem a necessidade da influência propagandista de qualquer tom.

E os que fazem a TV e a internet são seres humanos. Disso sei. Mas não posso ignorar que poderíamos ver isso, o poder de influenciar, sendo usado para causas e ideais úteis. Para informar, criar uma mentalidade crítica. Uma sociedade literária (uma que não torne best-seller livro de alguém que ensina como defecar na casa das amigas). Disseminando a importância da civilidade. Do respeito às autoridades, instituições e aos mais velhos. Dar conhecimento e promover o bem-estar das pessoas e não sua destruição pela instauração premeditada de inúmeros conflitos, que depois são noticiados pelos mesmos grupos com uma estupefação cínica de atuação magnífica. Digna de aplausos dos atores que ganham o Oscar.

Mas enquanto isso não acontece, e muito provavelmente nunca acontecerá, vamos ter que ir nos habituando a lidar com pessoas que não pensam, não agem, não produzem e nem mesmo se vestem por conta própria: parasitas parasitando. Vivendo num mundo controlado por ideias absurdas. Pela destruição total da razão. Uma sociedade com a mentalidade vegetativa. Lançada ao abismo das dicotomias de quem não sabe pensar. Restando a nós a dura realidade de ter que conviver com pessoas sendo preparadas para uma hora ou outra acabarem tentando nos comer vivos. Sem a necessidade de qualquer vírus de proporções apocalípticas senão o da estupidez.

(1) http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/01/090130_noveladivorciobrasil_np_tc2.shtml

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2 comentários em “Construção de Zumbis

    1. Pelo visto o problema é mundial mesmo. A televisão na modalidade paga por aqui tem crescido bastante. Em julho desse ano, segundo a Anatel, são 18,9 milhões de assinantes. Os motivos são diversos. Crê-se que a qualidade dos conteúdos é maior, além de ter-se a possibilidade de escolha e menor número de comerciais. Talvez estejam certos, e o lixo seja um lixo reciclado. Abraço, amigo.

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