Opinião · Pensamentos

Predispostos à Predisposição

George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair), no texto “O abate de um elefante” (*), narra com incrível precisão como foi forçado a abater um elefante em Moulmein, na Baixa Birmânia, enquanto policial de subdivisão na cidade. “Numa manhã bem cedinho, o subinspetor de uma delegacia do outro lado da cidade me telefonou para dizer que um elefante estava destruindo um bazar. Poderia eu ir até lá fazer alguma coisa?” Ao sair para ir tentar “fazer alguma coisa”, ele descobriu que o elefante havia esmagado um cule em sua fúria. Armado, foi no encalço do elefante com uma multidão curiosa atrás. A expectativa dessa multidão o impeliu a matar o elefante, certamente essa não seria sua atitude sem tantos olhos clamando para tanto. Ele mesmo acaba confessando isso quando planejava a aproximação: “… Se (o elefante) atacasse, eu poderia atirar. Se não prestasse atenção em mim, seria seguro deixá-lo até o condutor voltar. Porém eu também sabia que não faria isso…” Ele acabou atirando no elefante. Não uma vez, mas várias. Primeiro de uma distância segura, e após os disparos iniciais garantirem que não havia risco, efetuou outros de perto. Querendo acabar com o sofrimento do pobre animal que não morria de jeito algum. Relata assim o fim: “Esperei um longo tempo que ele morresse, mas a respiração não enfraquecia. Por fim disparei os dois projéteis no ponto em que pensei que o coração deveria estar… e ainda assim, ele não morreu.” George Orwell não suportou mais ver aquela situação e saiu dali. O elefante morreria trinta minutos depois. Alguns homens, mais velhos, acabaram por concordar com sua atitude de matar o elefante, e alguns outros, mais jovens, não. Concluiu o relato justamente com esse questionamento a respeito de como agira impulsionado: “Muitas vezes me perguntei se alguém percebeu que fiz o que fiz unicamente para evitar parecer um bobo.” E eu me pergunto se todas as nossas ações não são unicamente para evitarmos parecer uns bobocas. Ou ainda, não estamos sendo todos impelidos desde que nascemos a agir dentro daquilo que se espera de nós, sem um único resquício de decisão, como autômatos completos, ainda que nos reste a consciência?

Em outras palavras, até que ponto nossas ações são propriamente nossas? Amanheci dia desses filosofando e me questionando sobre como eu agiria se ao invés de ter nascido num país ocidental no século XX, e ter sido criado por uma família cristã, o que me levou a ter contato imediato com os maravilhosos escritos bíblicos, eu tivesse nascido na Arábia Saudita, tendo sido criado por uma família muçulmana e educado com base no Corão. É evidente que sou uma criatura do meu tempo, espaço e civilização. De modo que todos os meus atos e comportamento podem ser previstos com absoluta facilidade de compreensão. Não somente eles, mas meu próprio intelecto em conjunto com minha maneira de concluir.

Parece-me inequívoco que eu não sou alguém que tenha nascido livre. Para começar, não escolhi onde nasceria. Que língua falaria. Que tipo de educação e religião teria. Nem ao menos o sexo, aparência física. Eu simplesmente fui lançado no mundo em uma época precisa para ser o que sou e estar onde estive. Seria infantilidade de minha parte inferir que após inúmeras decisões essenciais que formatariam meu caráter, e das quais nem uma foi definida pela minha pessoa, eu pensasse que qualquer ação que realize seja por conta de decisões minhas, decisões individuais que não tenham sido influenciadas por estas outras anteriores no tempo e na essência. Qualquer pessoa desligada do tempo atual veria com absoluta facilidade todas as minhas predisposições. O que penso, como ajo e o que sou não parece ter tido alguma contribuição importante de minha parte. A impressão que tenho é a de ter estado num casulo e ser um produto do meu tempo, industrializado. Do jeitinho que deveria ser quando projetado.

Foi com base nessa conclusão que, por consequência, encontrei as outras, um tanto mais dadas à subjetividade. Por exemplo. Suponhamos que eu tivesse nascido no mesmo local que Adolf Hitler. Que fosse educado exatamente da forma que ele foi, e passasse pelas mesmas transformações sociais, tendo tido contato com as mesmas pessoas e ideologias, seria diferente do que ele foi? Indo para um exemplo mais próximo de nossa realidade, poderíamos pensar aqui nos homens bomba atuais que aterrorizam a Europa e o mundo. Ou ainda em nossos conhecidos e amigos que se suicidaram ou assassinaram seus próprios familiares. Diante das desgraças que eles enfrentaram, e a quantidade de surtos psicóticos que tiveram, não faríamos nós o mesmo?

Claro que isso me causa calafrios, e me faz lembrar do decreto de Paulo a respeito do caráter de Deus. Isto é, que Deus criou uns vasos para desonra e outros para glória. E, de fato, não restam dúvidas de que isso é verdadeiro, pois pra quem acredita Nele, deve saber que Ele é Soberano e limitou nossas ações pela efemeridade de nossa existência. Conduzido sou à mesma pergunta que Paulo já antevê: do que, então, Deus se queixa a respeito das ações do homem? Ao que ele responde: que é o homem para questionar os desígnios de Deus? Não sei se isso caminha para um tipo de determinismo parcial ou calvinismo extremista.

Lembro-me de um membro de minha igreja que foi escrachado ao trair sua mulher. Não somente nas igrejas como no mundo ocidental, o adultero é mais desprezado que o serial killer. E assim foi. Os julgamentos eram implacáveis. Em uma conversa informal sobre o assunto, questionei exatamente aos irmãos que comigo conversavam se caso estivessem na mesma situação, não teriam acabado traindo suas mulheres exatamente como este nosso irmão havia feito? Provocando, eu disse: duvido muito que com uma mulher daquela no pé de vocês, oferecendo-se o tempo todo, se vocês pensariam duas vezes antes de com ela adulterarem. Provavelmente teriam feito isso antes dele? Será que a fidelidade está mais ligada à falta de oportunidade que à rigidez moral inerente? Difícil responder. Deixei esta provocação com algumas gargalhadas e o assunto tomou outros caminhos. Por dentro, no entanto, o que eu sentira era inquietação e medo.

Porque a depreensão levou ao questionamento inevitável: tenho ou não tenho controle sobre minhas ações? Elas se impõem mediante um modo de caminhar que não fui eu a escolher, simplesmente era o único possível? Eu poderia ser um ladrão se as circunstâncias me levassem a isso? Poderia ser um louco, um sequestrador, um traficante, um genocida ou um tipo de monstro qualquer? Há algum mérito no meu comportamento diante de Deus e dos homens? Não parece haver absolutamente nenhum. Ao mesmo tempo, vejo um paradoxo. Pois não é verdade absoluta que todos agem igualmente ainda que tenham crescido sob as mesmas circunstâncias. Ou não teríamos irmãos completamente diferentes no modo de pensar e de agir. Para ser mais preciso, que falar dos gêmeos, que foram criados de maneira igual com as mesmas influências sociais e até sob genética praticamente idêntica, quando passam a agir de maneira completamente distinta?

Com esses exemplos, parece haver um pouquinho de escolha, embora elas sejam dadas como probabilidades ínfimas e evidentes, surpresa definitivamente não há. Isto é, se cresço numa periferia, tendo contato direto com bandidos, posso me tornar um, mas também posso me tornar um trabalhador com valores morais elevados. Porque as duas orientações estão presentes tanto nesses ambientes quanto em qualquer outro lugar. As mesmas, contudo, não afirmam que eu decidi nada, apenas demonstram que uma se interpôs sobre a outra com maior grau de influência. Não há mérito em mim se me tornei um trabalhador honesto em tal ambiente propício à marginalidade. O mérito é na verdade das colisões da minha própria existência terem se dado com maior intensidade e regularidade na ética e na moral que na ausência delas. Ou não. O que sei com certeza é que nenhuma multidão me impeliria a matar um elefante. Ao mesmo tempo, sei que a multidão de hoje muito provavelmente me lincharia se eu ousasse chegar a tanto…

(*) Dentro da baleia e outros Ensaios. Companhia das Letras.

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7 comentários em “Predispostos à Predisposição

  1. Suas produções são sempre arrasadoras! No bom sentido, é claro.
    Veja, refleti e fiz uma conexão mental ao que Cristo disse aos apóstolos no Monte das Oliveiras “Vigiai e orai para não cairdes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” Todo e cada ser humano possui o livre arbítrio e mesmo havendo influências externas sejam elas quais forem, a decisão final só cabe a cada um por mais difícil que seja a situação enfrentada no momento e o mais importante é: não podemos esquecer que Deus criou todos nós, nos leva onde Ele quer e tudo está sob o controle d’Ele. Poderia me estender ainda mais exemplificando, mas sei que compreendeu onde quis chegar e só concluindo, independente de nossas ações sempre terá alguém para julgar e nos condenar. Contudo, antes sermos julgados e condenados pelo mundo, do que por Deus.
    Abraço, Waldir! (:

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    1. Muito obrigado, querida Mayara. Entendi seu raciocínio perfeitamente. Você é sempre bastante clara. Esse paradoxo: Soberania de Deus x Livre Arbítrio Humano dá sempre o que pensar. Seremos julgados segundo nossas obras, mas em se alcançando inocência, nem por isso merecemos salvação. É deveras controverso o assunto. Porque a salvação não vem pelas obras. A condenação sim. De qualquer forma, o céu será um ato de misericórdia, e o inferno um de justiça. Abraço, cara amiga. Ótima semana. Obrigado pelo carinho.

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      1. Sim; de total acordo, afinal somos todos pecadores e só há perfeição em Deus. O problema das obras é que muitas são feitas unicamente com o pensamento “Vou fazer porque aos olhos do Pai é bom e terei galardão.” Quando deveria ser com o pensamento de estar ajudando um irmão, que é imagem e semelhança de Cristo e o sentimento de alegria no coração pela partilha, caridade… Pensamos na recompensa, e por vezes não tendo a pureza da alegria em saciar a necessidade alheia. Exato! Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos, certo? 😉 Ótima para ti também, se cuide.

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  2. Não podemos viver nos “se”, se isso ou se aquilo. Teorizar o que seriamos “se”, nos leva a bilhões de possibilidades. Temos uma realidade que é nossa, a nossa aparência, a nossa família e o nosso meio social. Contudo fico muito feliz que tenha escrito sobre este assunto. Mostra que o escritor tornou-se um jovem homem velho, não no mau sentido, mas sim, no elogioso. Estas considerações que fez, mostra argúcia de pensar, observação acurada, extrema ponderação e muita propriedade de julgamento. É fato que jamais as coisas são como parecem, a Caverna de Platão é nosso habitat e o saber nos dá a solidão dos questionamentos sem resposta. Aos crédulos, todas as dúvidas morrem em Deus, mas ao cético, não o ateu, mas o cético que busca respostas para compreender, para satisfazer a sua inteligência e as suas indagações, estas, as dúvidas, o levam à solidão. Lembra-se da estatua grega do pensador… “to be or not to be?”… Pois é, ele estava se perguntando sozinho. É para lá que você vai escritor. Boa viagem! Grande abraço inesquecível amigo. (li um artigo interessante da Aba Morena hoje lá no Recanto.)

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    1. Obrigado, caro Athos, pelas ponderações. De fato, mesmo eu, acabo não poucas vezes cansando da reflexão que leva a tantos e tantos “ses”. É que a vida não deixa de ser um enorme SE carregado de porquês. Eu só não eliminaria tão categoricamente o “crédulo” quando ele encerra em Deus, porque em admitindo tanto, está mergulhando no desconhecido definitivamente (pois quem há que pode descobrir ou explicar Deus, ainda que com Ele se “conviva” dia e noite, absorverá a mente do Divino para entender o Divino?) e assumindo aí sim uma postura cética a tudo. Claro que entendo a que grupo se refere, geralmente os que não encerram tudo em Deus, mas encerram todas as discussões em Deus, como que o usando de escudo para a sua própria ignorância ou até ameaçando com maldições os que ‘ultrapassam’ os limites. Enfim, meu caro amigo, agradeço imensamente suas leituras, seus comentários instrutivos, coordenados e cuidadosos, mesmo as provocações da síntese particular (não dá pra negar que é excelente observador), devo dizer que sinto sua falta e, se não deixo frequentemente pegadas no seu espaço, não significa que por lá não tenha ido e lido.No mais é falta de tempo mesmo. Novamente meu Obrigado, Athos. Ótima semana!

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