Contos

Tudo pode não acontecer

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Eu voei. Durante alguns instantes estive pássaro. Foi uma pena não ter asas, porque caí como um carro que capota. Estou aqui. Não sei onde é. Ignoro quanto tempo faz. Pela aparência das coisas, parece-se com algum lugar. Mas pode ser qualquer outro. Não seria tão surpreendente se fosse. Pois aqui há máquinas impassíveis indo e vindo sem tudo e com bastante pressa. É igual a todos os outros lugares em que já estive. Com pessoas idênticas as outras que conheci.

A tipologia humana nem é tão vasta. Há as pessoas que atravessam ruas, outras que ficam na metade do caminho. Há as engolidas pela estrada diante da calçada, e as que eram como eu. Que nem sabem se são, se andam ou correm. Este último tipo, desprezo. Não tenho a menor vontade de saber nada a respeito. Dizem que os opostos se atraem, pode ser. Porém, é mais seguro dizer que os iguais nunca. Não sei se quero convivência com qualquer pessoa semelhante. Se não posso me evitar, ao menos os outros iguais a mim eu sinto que devo. Ia dizer outra coisa.

Passou-se um tempo desde que uma mulher foi mais que transeunte em minha existência. Eu ouvia passos na plataforma como se fossem um gotejar pausado, de um lavatório qualquer. Pelo som produzido da aproximação, intuí que era gente. Provavelmente do gênero oposto. Olhei para os trilhos após observar a linha amarela. Limitante, não limitada como eu. O som dos passos estava próximo ao escandaloso. Aqueles outros pés logo surgiriam nos mesmos limites em que os meus. Mas meu olhar, apesar da mente rastejar em outros cantos, continuara fixo nos trilhos. Imaginei minha mão tocando aqueles ferros. Pela temperatura fria da noite, fazendo minha respiração ser similar às baforadas de um fumante inveterado, tinha certeza que o contato seria gelado.

O grande relógio da estação grudado à coluna não tinha ponteiro de segundos, uma coisa anacrônica como eu. O tempo ia passando devagar, exatamente igual a mim. Reparei nisso, além da cessação dos passos do lado oposto. 22:55. Sabia o motivo pelo qual a curiosidade não havia vencido meus olhos e os dirigido até a pessoa ao lado. Olhar pessoas tinha-me custado muito caro nos últimos meses. Estava procurando ignorar todas. Tarefa impossível que eu precisava tentar.

Num dia diferente dos outros, estava me dirigindo ao trabalho. Dei de cara com um sinal vermelho na condição de pedestre. Por trás dele, estava o prédio onde trabalho. Um Gigante que faz todos se sentirem minúsculos e chegarem em sua recepção humildes, curvados. Aguardar o verde sinal é angustiante. Como máquina ou homem. Tudo na cidade é angustiante. Mais ainda quando se é sempre uma parte da engrenagem, parando, andando e vivendo a hora em que decidem. O jugo é pesado e o fardo não é leve.

Enquanto aguardava, do meu lado direito havia várias pessoas. E outras atrás, do lado esquerdo, do outro lado da rua, dentro dos prédios e dos veículos passantes. Como tem gente no mundo! Não é impressionante que apenas uma me chamou a atenção? Olhos castanhos, tal gotas de águas turvas contra o sol. Cabelos lisos e pretos, saídos dos beijos da escuridão com a luz. Boca de linhas encíclicas, com corte superior em v manuscrito exemplar. O corpo estava envolto em panos que foram prontamente invejados por minhas mãos. Um olhar nos encontrou. No instante seguinte, perdi a paz que nunca tive.

Havia nela muita repercussão. Mesmo diante de paisagem multitudinária. Despreocupada, com as mãos dentro dos bolsos da jaqueta, a perna direita tamborilava a guia da calçada com uma bota de um preto gasto das passadas desajeitadas. Estimulada por fios brancos high-tech que carregavam notas suaves às suas orelhas, encobertas pela touca e cabelos. Vi-a dos pés ao rosto. O sinal se abriu, mas meus olhos já estavam abertos antes. Observei-a ir. De lado e de costas. Quando ela desviava, hesitava ou ia em pleno movimento, era agradável. Muito agradável. Arrebatado por um impulso incontrolável, como se fosse metal sendo puxado por um ímã, ou melhor, como um cão atrás de cadela no cio, saí em passos rápidos. Esquecendo-me de algumas coisas importantes. Eu sabia que ela era dessas hipnóticas. Saber não me adiantou muito, nem naquela hora ou em todas as outras.

Após segui-la por três quadras, vi-a entrar numa loja de chocolates. Entrei como cadáver que anda. O ar que eu olhava era o chão do que procura algo extraviado. Chamei a atenção da balconista pela cara de bobo. Esta se manteve discreta por uma provável determinação gerencial: deixar os clientes esquecidos até achá-los na caixa registradora. Não a vi de imediato. Uma agonia perplexa varreu ainda mais meu rosto. O que eu havia visto, havia visto? Para tudo existe uma possibilidade. Fiquei indeciso. Mas permanecer ali parado daquela maneira era tão absurdo quanto os livros de Camus.

Recuperei um pouco de mim e tratei de observar algumas embalagens de chocolates numa prateleira próxima. Entre segundos ou minutos ela apareceu do lado de lá do balcão. Trabalhava ali e deveria ter entrado para os fundos da loja a fim de colocar o uniforme. Fiquei feliz demais por conseguir saber onde ela trabalhava. Era o bastante. Aliás, tinha ido mais longe do que costumava. Ponto a favor do meu futuro incógnito. Mas, ainda assim, futuro.

Saí logo dali. Antes, comprei um chocolate amargo horrível, e observei-a novamente. Ela ainda era ela. Fui trabalhar, chegando atrasado, levei uma bronca e fiquei o dia todo sem conseguir fazer nada direito.

Minha cabeça deve ter batido forte. Porque eu saio do passado e entro em outro. O da estação. Estou agora mesmo olhando de novo para o relógio nela marcando: 22:56. Que tipo de loucura é esta? E como podia um minuto representar um dia inteiro em minha vida? Lá na estação e não aqui. Lembrei-me dos que estão à beira da morte e, depois que retornam, dizem ter visto a vida toda num relance. Acreditei que isso se devia à insignificância de todos os nossos anos. O bom da vida se resume em alguns minutos. Para alguns, vinte ou trinta segundos bastam. Meu corpo está aqui, mas minha mente está em toda a parte. Especialmente na que tem um relógio sem ponteiros de segundos.

O monte de plástico e ferro que me levaria pra casa chegaria em menos de quatro minutos. Adentraria pela porta de um vagão qualquer, que tinha carregado prédios de gente durante todo o dia. Para ele, eu seria uma folha. Não sei se digo lembro. Sei que senti uma vontade quase incontrolável de olhar ao lado para ver a pessoa. Mas preferi novamente a linha amarela, limitante, não limitada como eu. Observei sua qualidade retilínea. Essa era grossa e tinha uma falha. Provavelmente causada pela quantidade de pés que a chutavam todos os dias. Ou também poderia ser um defeito da pintura. Seria eu uma linha amarela? Que diferença isso fazia?

Meses depois de a contemplar pela primeira vez, tudo estava na mesma. Absolutamente nada de diferente aconteceu a não ser eu ter me endividado mais. Boa parte do meu salário iria ficar pela segunda vez comprometido em variadas dívidas, das quais estava farto. Não podia evitar. Estar vivo e permanecer assim custa caro, enquanto trabalhar tem sido muito barato.

Na loja do cacau gastava bastante também. Era recebido com risinhos acanalhados. Não tinha tido coragem de erguer o olhar para ver quais eram os autores deles. Dela não era, conhecia o seu riso. Ele era silenciosamente gentil e elegante. Respeitador e gracioso.

No trabalho, colegas discutiam minha condição desprezível pela falta de atitude. Por algum lapso de idiotice imanente comentei sobre ela com homens meus adversários. O que eu via mais imbecil, Marcelo, interpelou-me pela lógica.

– Diga pra mim, que benefício há nesta frescura de não ir logo dizer o que sente. Se você não tem porcaria nenhuma, uma recusa irá dar a você a porcaria que já tem. Enquanto que se ganhar a aceitação, terá o que há meses, semanas está querendo.

Perdi a paciência de ter razão. Fiquei com preguiça de explicar que perderia muito com a recusa. Tinha a esperança. Antes a dúvida da probabilidade ínfima que a certeza da vergonha. Caminho pelas trilhas conhecidamente duvidosas, e evito a todo o custo o embaraço da certeza. Procurando viver sem os riscos de uma decisão. Mas o que falei a ele foi produto da automação. Disse a ele que estava certo. Só que eu não conseguia me aproximar e não queria que ninguém o fizesse. Precisava ainda entender o que sentia… Não queria agir pela pressa.

– Entender o que sente? Que papo de garota adolescente! Você é quem sabe… Acontece que não existe perfeição, a não ser a completamente imperfeita. Nem momento certo ou errado, apenas acontecimento e nada mais. Se ela é tão atraente como diz… O tempo se encarregará de ser o seu maior inimigo. Fique atento!

Uma pitada de ciúmes endoidece e faz agir até covardes. Não tinha resposta para a inexistência da perfeição. Se nada pode ser perfeito, tampouco existe imperfeição. Tudo é normal, natural, animal e banal. Por que eu me matava pra ser perfeito, então? Fiquei pensativo, viajando. Imaginei os flertes vagabundos que ela recebia constantemente de outros. Fui invadido pelo desassossego. Marcelo percebeu o golpe leviano de suas palavras, e procurou acalmar-me o espírito com uma sugestão bem parecida com cafajestice.

– Mostre-me ela, descubro o que pensa sobre você, e crio uma aproximação entre os dois.

Está aí um homem! Um que certamente merecia apanhar, mas um homem. Vendo isso em retrospectiva, tenho vontade de me socar, mas só depois de tê-lo esmurrado. No entanto, naquele momento a fragilidade da paixão me fez aceitar o inaceitável. Eu falei como uma freira.

– Você faria isso por mim?

– Claro, pra que servem os amigos… – disse isso e sorriu.

Assim eu aceitei a troca do suspense relativista pela tragédia anunciada. Para dar fim a um problema nem tão grande assim, criei a catástrofe. Nem sequer pensei nos riscos. Eu, que sempre os ponderava cuidadosamente até pra ir ao banheiro do escritório. Fiquei feliz por ter um amigo que iria fazer eu finalmente sair da dúvida certa pra mergulhar na certeza incerta. Eu só precisava de um pouco de atitude. Não fazia a menor diferença de quem, como e de onde ela viesse.

Carlos, outro colega de escravidão, sujeito esquisito que vivia falando sozinho, talvez fosse até misógino, – não aceitava ordens femininas sem reclamar, brigava com elas até quando lhe pediam um copo d’água. Em contrapartida, quando via um macho, nosso superior, de terno, parecia uma donzela ruborizada com o príncipe encantado – não gostou muito da solução proposta por Marcelo e se intrometeu.

– Cara, caia fora de mulher linda. Deixa eu te falar o que penso. Geralmente, não sou atraído por mulheres lindas. Nem pelas completamente feias, claro. Gosto de uma mistura. Um defeito aqui e ali dão as bonitas um pouquinho de sal na salada. Tempero infalível para uma boa dose de insegurança. Mulheres precisam estar inseguras ou nos pisam até a morte. Nariz meio torto, olhos espaçados demais, sem sobrancelha, com orelha gigante, alta ou baixa demais e, principalmente, traumatizadas. Enfim, mulheres em que qualquer característica destoante as façam se sentirem um lixo de vez em quando. Procure mulheres assim. É o que te digo.

Coisa estranha de se ouvir. Mas Carlos era realmente estranho. Eu não falei nada, dei uma risada abafada, querendo evitar mais comentários malucos. Ele nem se deu por isso e continuou.

– Mulheres lindas demais, principalmente quando o assunto é rosto, são narcisistas. Amantes de si mesmas, cheias de tremeliques, controladoras, absurdamente chatas e fúteis.  Por isso, e também por elas nada quererem comigo, o mais próximo que cheguei de ter um relacionamento com uma dessas foi… Deixa isso pra lá.  Mas ela era perfeita para mim. Infelizmente não deu certo, depois que fez a cirurgia da qual fui veementemente contra, ficou ainda mais linda, toda cheia de si, e me abandonou para ficar com um sujeito nhém-nhém-nhém. Noivou esses tempos com ele, pelo que fiquei sabendo.

Homicídio passional não tem graça. Eu disse qualquer coisa e fui ao banheiro para me livrar da sua presença tórpida. Ainda lá, continuei pensando nela. A verdade é que não queria agir nem pela pressa ou pela demora enquanto pudesse ficar na mesma. Sou alguém puramente teórico. Toda a minha prática consiste em pôr tudo na teoria. Pra mim, era tarde demais.

Meu olhar saiu da linha amarela e foi verificar o minuto 57. Algo aconteceu na estação e aqui. Lá, eu não tinha certeza, porém pareceu-me que a pessoa ao lado estava chorando baixinho. Aqui alguém me olhou como se não olhasse e foi embora. Voltei para o ferro gelado.

Marcelo aproximou-se de Camila como prometido. Só percebo agora que eu o fiz apaixonar-se por ela antes mesmo de conhecê-la ou de vê-la. Através das minhas palavras que, ditas sem perceber, acabaram criando um mito. Ele a conquistou usando a minha intenção, as minhas palavras e tudo o que eu havia manifestado dela.

Estavam namorando e, em toda parte, eu tinha que vê-los de mãos dadas e sorridentes. Juntos. Extremamente juntos. Beijando-se e abraçando-se. Tudo foi acontecendo de repente enquanto eu não acontecia pela milionésima vez. Parei de frequentar a chocolataria uns dias após o início do namoro entre eles. Usei esse tempo pra não dar muito na cara. Mas estava atordoado. Fui traído por Marcelo. E sentia-me traído mesmo por ela. Culpara-a pela minha exclusiva inércia. Pelo visto, ela estava há bastante tempo disposta a namorar quem quer que aparecesse. Eu nada disso sabia, e a tornei inalcançável a mim e desejável aos amigos.

Talvez para me ajudar a sair da fossa, fui convidado por Carlos para um aniversário. Não queria ir de jeito nenhum. Ainda mais depois de um dia de serviço. Estaria cansado e revoltado como sempre. Por que tudo precisa virar um evento à custa do meu descanso? Droga de mundo que não para de festejar suas tolices enquanto a desgraça dança com vidas inocentes. Vida que segue, dizem. Segue mesmo, no meio de cadáveres estatísticos, pobrezas e injustiças costumeiras. Segue insuportavelmente triste entre gargalhadas horripilantes de monstros banguelas.

Fui. Mesmo pensando toda essa patacoada. Cheguei ao local, procurando uma roda em que eu conhecesse alguém que não fosse o Carlos. O ambiente tinha cadeiras, mesas, teto, som alto, gente e, aparentemente, muita bebida. Não foi tão difícil achar um grupelho para ir falar bobagens. Fui até o do Paulo, matemático, e o do Tom, desempregado. Junto aos dois estava um terceiro tagarela. E, bem oferecidas, duas mulheres meio gastas pelo tempo e pelos homens, com caras sérias de barraqueiras. Não levei presente algum. Pudera, não dou presente nem pra minha mãe. Só queria parabenizar o cidadão que eu nem sabia quem era e cair fora.

Após os cumprimentos de praxe; interrompendo conversa sobre mulheres, e apresentações com “muito prazer” sem pronúncia de nomes, perguntei:

– Onde está o aniversariante?

– Sou eu, disse o terceiro tagarela anônimo. Chamava-se Gustavo.

As risadas irromperam. Estava feita a primeira palhaçada da noite comigo, o que já era de se esperar. Eu não ligo que riam de mim, contanto que não cuspam. Só que eles riam cuspindo. Pra meu prazer, nem deu tempo de ficar revoltado com a zombaria, porque um esquisitão de terno rosa se aproximou. Ele era tão branco que lembrava uma pomba. E também machista ao extremo. Cumprimentou a todos, dando seu presente ao aniversariante. Que o interpelou com clara intenção de causar polêmica.

– E aí, grande amigo. Estávamos aqui falando sobre o empoderamento das mulheres. Numa discussão ferrenha sobre o que elas querem. Você que é um especialista no assunto, conta pra nós. O que, afinal, as mulheres querem?

– Pergunta complexa, amigo. Eu conheci almas puras femininas que só queriam sexo. A maior parte, infelizmente, já morreu de DST. Quanto às que sobraram, desconfio que querem que nós fiquemos nos perguntando exatamente isso, pra dizerem a cada segundo uma coisa diferente e ferrar com tudo. O que elas querem também não me importa, boa coisa não deve ser. Sei que eu quero apenas um fracasso dantesco.

O silêncio tomou conta. Aquilo ia virar uma briga. As duas mulheres chupadas por alguma plástica mal feita estavam fazendo caretas horríveis uma pra outra. Até que a mais velha tomou partido do gênero feminino mundial.

– Você só pode estar de brincadeira. É por causa de machistas como você que nós devemos mesmo continuar lutando pelos nossos direitos. Pelo nosso espaço. Tenho pena de você, é um frustrado. Nem adianta fazer biquinho e mimimi, o mundo mudou e é nosso. Vocês homens serão escravizados, humilhados. Lamberão nosso chão. Seu universo desabou e vai desabar mais ainda.

O Mr. rosinha respirou fundo e piorou a coisa de vez:

– Quando vocês ficavam na cozinha, lavando roupas e fofocando, o mundo era melhor. Não tínhamos tanta violência. Lugar de mulher é em casa, criando nossos filhos. De preferência uma ninhada que é pra não pensar em outra coisa. O universo está desabando, sim, mas é desde que vocês surgiram no mundo.

Uma jogou a bebida na cara dele enquanto a outra lhe dava um tapa estralado fenomenal, um que doeu até em mim. Depois que ele apanhou um pouco, a turma do deixa disso se aproximou. Eu não. Porque estava pouco me lixando para sexistas se estapeando. Que se matassem.

Mas o que já estava ruim ficou ainda pior. O casalzinho MarCam chegou. Todo sorridente como sempre. Senhor e Senhora Simpatia. Não poderia sair agora dali assim, ou iriam pensar que eu estava fugindo da vergonha. Sou covarde, mas não ao ponto de assumir isso assim publicamente. Fiquei por ali ouvindo as palhaçadas do Carlos contra o homem do terno rosa. Ele estava feliz por ter encontrado palhaço maior que ele. Até que se cansou e decidiu cair fora.

E os ponteiros da estação indicavam 22:58. O choro aumentou o volume. Aqui eu pensava em outras coisas no mais absoluto silêncio. A linha amarela estava ficando desfocada.

Enfim fiquei só num canto, disfarçando enquanto enchia a cara. Fui surpreendido por um toque no meu ombro. Engasguei com a bebida. Era uma mulher. Não era linda, mas bonita. Não sei explicar a diferença.

– Oi, tudo bem? – gritou ela.

Balancei a cabeça afirmativamente, e nenhum único grunhido saiu. Eu apertei sua mão macia, gostosamente macia. Quando fui dar um beijo, quase dei um selinho. Foi constrangedor porque ela não desviou. De onde me conhecia foi algo resolvido rapidamente.

– Desculpa o incômodo, mas é que nunca mais o vi na loja. Estão todos curiosos, alguém lá o tratou mal?

Chocolates. Nem reparara que naquele local havia outras pessoas trabalhando.

– Não, de maneira alguma. Todos são sempre atenciosos. É que… Eu estou dando um tempo. Estava viciado em chocolates.

– Hum. Queria ter essa sua força de vontade. Nunca consigo parar de comer chocolates.

Qualquer homem em meu lugar iria pelo menos se sentir valorizado com o esforço de uma mulher bonita em puxar conversa com alguém que está enchendo a cara. Mas não um que nunca acontece. O silêncio tomou conta de mim. Balancei o corpo com a música de maneira ridícula, olhei para o teto e achei que era a ocasião perfeita pra cair fora.

– Preciso ir, Tchau.

– Mas… Até.

Um mês depois, Marcelo e Camila estavam separados. Isso me deu mais do que eu estava disposto a admitir. Mas quando se monta uma imagem feminina perfeita, e esta não permanece só, indo ser poluída com algum homem, se transforma numa torta de morango com uma mosca espatifando em cima do creme.

Nunca mais voltei a frequentar a loja. Após o término do namoro dos dois, Marcelo confidenciou a Carlos que havia falado a ela sobre mim. Pretendendo fazer chacota. O que ela não aceitou, brigando com ele por causa disso. E que a partir desse dia ela mudou, perguntando sobre mim frequentemente… Algo difícil de acreditar, porém, quem há de recusar um brilho no ego? Certamente era tudo verdade!

A paixão manifesta-se diversas vezes dessa forma. Permite que outros nos desprezem, até que nos dá a chance de desprezar. Alguns suportam o desprezo, poucos a indiferença. Diga a alguém tanto faz ao invés de não, e este alguém terá uma forte obsessão por mostrar que não é bem assim… Inclusive se usando da perseguição e paranoia. Eu fingi dizer um tanto faz a Camila. Ela ficou interessada em descobrir se era mesmo assim. Que prazer eu senti ao perceber! Mas demonstrava grande desinteresse.

Houve, então, uma abordagem. Um preciso falar com você. Uma hora marcada após o expediente. Eu disse que sim, mas resolvi que não. Acho que não era pra magoar nem nada, ou era?

O relógio me encarou de volta com um olhar nono. Desta vez arrisquei vislumbrar a pessoa ao lado. Era alguém de fato. Chorando miseravelmente. Não tenho a menor ideia dos motivos. Ou melhor, talvez eu tenha e não esteja com disposição pra pensar sobre. Nunca um minuto passou tão depressa, e feliz. O Metrô nos convidou. Entramos cada um no seu vagão. No dia seguinte, acredito ter sido atropelado na calçada pela rua. Agora estou aqui, sem saber onde é. Lentamente apagando.

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6 comentários em “Tudo pode não acontecer

    1. Muito Grato, prezado Renato Ribeiro. Suas leituras são sempre bem-vindas, ainda mais pelo ofício seu, irretocável. Tenho visitado clássicos desde sempre. Não tanto quanto gostaria. Fico feliz que alguma essência apareça. Forte abraço, amigo. Ótimo fim de semana.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Adorei! Li cheia de expectativas…voltei algumas vezes às linhas já assimiladas para vê-las melhor entendidas. Saber o que se passou na cabeça e no coração desse moço foi no mínimo interessante. Conta outro? 🙂

    Curtido por 2 pessoas

    1. Muito obrigado, A. Estímulo grandioso. Principalmente por não ser um texto recomendável ao WP, pela sua extensão. É muito gratificante seu cuidado. Me encheu de orgulho. 😀 Contarei, pódexa. Abração. Ótimo fim de semana.

      Curtido por 1 pessoa

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