Crônicas

Da bondade e maldade

Desconfio de mim. Desconfio dos bons, não desconfio dos maus. Desconfio dos que confiam em todos e em si mesmos. É inequívoco que os considerados bons por eles mesmos ou outros acabarão por fazer males, e nem existe alguém tão mau que, mesmo sem querer, deixe de fazer algo bom. Patifes são os que não fazem bens ou males? Uma existência assim poderia ser considerada o mal absoluto? Poder-se-ia afirmar, no entanto, que alguém que não pratica o mal seja considerado bom? Muitos são os que tal afirmam. Se isto é assim, temos que quem não pratica o bem é mau, mesmo que não faça males.

Atribuem a Confúcio a máxima: “Não faças a outro o que não queres que te façam.” Por Confúcio ser precedente a Cristo, O Senhor, alguns disseram que o Mestre plagiou de alguma forma a Confúcio – ou mais propriamente os evangelistas – quando disse: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles.” Eu prontamente discordo do plágio não por buscar confirmar a originalidade, mas por conta da visível discrepância entre a ação e a inação. São pensamentos antagônicos. Está mais de acordo uma semelhança do decreto de Jesus com a inspiração do salmista que diz: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um.” Ou seja, a maldade no Salmo não está em não fazer males, mas em que não se faça o que é bom. E há nisso a ideia de universalidade. A neutralidade inexiste ou, se existe, é má. A coesão e unidade bíblica contra os tons de cinza dar-se-ão, enfim, no Apocalipse:

Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

É evidente que Confúcio chama à inação, ainda que do mal: não faça. Ao contrário de Jesus que chama à ação do bem: faça! Confúcio quer os olhos dos homens na ausência de males que temem sofrer; Cristo, na prática das boas ações que desejam receber. Confúcio requer dos seus o olhar no mal visto, pensado ou ocorrido, Cristo, no bem almejado. Repousa em Confúcio a observação da maldade, no Senhor, da bondade. Seria demais dizer que Confúcio convida os homens a olhar tudo o que é mau enquanto Cristo convida a querer tudo o que é bom, espalhando isso sem sequer por um momento contemplar o que não presta? O que causa a epidemia da bondade é o convite a não ser mau ou a ordem de ser bom? O que é melhor, que ninguém procure fazer males ou que todos procurem fazer boas obras? É preciso o casamento, ou a segunda expressão já contempla a primeira por consequência, enquanto a primeira não leva à segunda?

Tive uma das melhores conversações na web a respeito desse tema “inação para o mal versus ação para o bem” com um amigo que produziu por um período aqui e, infelizmente, parece ter se cansado. Não consigo recordar exatamente os pontos, mas girou em torno dos aspectos acima descritos. A superioridade de uma boa ação frente à inação de toda a maldade. Chegamos com isso até o Estado e suas intervenções. Onde me pareceu que o Estado mínimo, que pouco age além de fiscalizar, é melhor que o Estado paternalista, que mais atrapalha quanto mais ajuda. Ou seja, para com  o estado, me parece ser melhor a inação de coisas más que toda essa pretensão de praticar boas ações salvando a todos, mas condenando, ao mesmo tempo, todos nós com altas cargas de impostos e multiplicação de parasitas. Como disse Kennedy: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país.” O Estado que age bem é aquele em que toda a ação visa estimular a ação conjunta, produzindo em seus cidadãos os atores responsáveis por todo o resto e livrando-os de ficarem metade do ano pagando impostos por serviços que nunca funcionam ou funcionam mal.

Outro caso é a realidade fora dos assuntos meramente públicos. Um fato importante a se considerar é que há muitas pessoas pensando como Confúcio, ou melhor, achando que é bom apenas não ser mau. Em certo sentido é, certamente. Contudo, é de uma bondade menor se comparado ao que procura ser bom não somente deixando de fazer males, mas procurando fazer boas obras. Há também que se atentar que é possível não fazer mal a alguém e ainda assim deixá-lo morrer de fome ou frio à sua porta. Pensando sobre isso fui levado a outras considerações diversas.

Isto é, quanto aos que dizem a mim ou a outros publicamente querer fazer o bem ou mesmo assumindo fazer boas obras, penso que são passíveis de desconfiança idêntica com relação à sua bondade que os que apenas não fazem o mal. Talvez seja uma desconfiança leviana amparada na minha índole que me diz constantemente para não fazer o bem a ninguém. Se há uma vantagem, sou logo  atraído. Não pelo bem propriamente que faço, mas por aqueles benefícios os quais receberei de volta em dobro. Homens são atraídos a praticar o bem na busca das recompensas pelas suas boas ações. Mas estas serão somente consideradas boas quando desembaraçadas do interesse. Um nome vem à mente e não é bom, mas interesseiro o que se usa da prática das boas obras esperando recompensa. Porque essa bondade, quanto mais sendo pública, tem ares da mais abjeta soberba e busca da glória e, posteriormente, causas egoísticas do bem próprio usando-se do feito ao alheio. É certo que uma ação assim está corrompida. Como aquela denunciada por Jesus de dar esmola esperando a trombeta soar.

Como se vê, para ser bom não é necessário apenas fazer o bem, e sim fazê-lo sem saber que se está fazendo ou, pelo menos, sem dar qualquer importância a si mesmo por essa prática. Mas se todos estivermos numa situação tão miserável que, mesmo quando procuramos deixar de ser maus praticando o bem e nem por isso somos bons, resta se perguntar se um dia o seremos ou como seremos.

Mesmo diante dessa conclusão, se nos reconhecermos maus e procuramos praticar o bem, tendemos a achar que somos de fato bons somente pela primeira ação. O que seria outro engano. Pois a simples percepção de que não se é bom faz aumentar a dissimulação em vez de repará-la. O que se sabe mau e se confessa mau se sente bom por ser capaz de ato tão magnânimo que é a confissão da miséria. Acabando por ser pior que antes, duas vezes mau. Se for um religioso, orará dizendo-se o pior dos pecadores buscando não o deixar de ser o pior dos pecadores, mas somente o perdão e autorização para continuar sendo o pior no dia seguinte. Além disso, enquanto se confessa horrível, no íntimo passa a se considerar o melhor dos religiosos pela pujante qualidade de reconhecer-se. Está duas vezes desgraçado, pois, quem enganará a Deus?

Que faremos, então, se encontramos as piores vaidades na prática das maiores virtudes? Se eu soubesse como não ser mau ainda quando tento ser bom, diria. Porém, parece impossível ser bom sem uma parcela de nociva maldade. Passei a desconfiar dos meus movimentos. Se ajudo um cego ou um velho a atravessar uma rua, estaria eu fazendo um bem a ele ou a mim? Eu me sinto melhor ao estar do lado de lá com ele por ajudá-lo ou pelo olhar trombeteiro dos que estão ao meu redor, parabenizando-me com sorrisos? Ou ainda, fico feliz por me sentir bom auxiliando-o, mas não por evitar um mal a ele, exclusivamente.

É, então, certo dizer que alguém que não pratique o mal seja considerado bom? Ou ainda que alguém que faça o bem para o seu próprio bem antes do alheio seja considerado bom? No entanto, tentar ser bom é tarefa dos que se sabem maus, e saber-se mau já é um bom começo nem sempre com um bom fim. Mas não invejo bons em que toda a sua bondade consiste em não fazer mal enquanto um número razoável de maus executam o mal sem que nenhum desses bons os impeçam. Tampouco os maus que se confessam maus apenas para continuarem sendo maus, e se sentem melhores por se verem cada vez piores contanto que sejam confessos.

Eu mesmo, sinceramente, não quero ajudar ninguém senão a mim mesmo. E confio bastante nesses que pouco se importam com os outros. Todo egoísta confesso é verdadeiro porque todos somos egoístas. Enfim, salvo alguma grande exceção à regra, serão esses a ajudar à revelia quem precisa; com imensa má vontade fazem o bem. O único inconveniente em toda essa minha confissão de ser mau por natureza é que ela guarda em si a vaidade detestável já destacada. Pois, quando assumo ser mau, não sei bem se o que me leva a confessar-me assim é justamente o sentimento de ser melhor que todos os outros que tal não sabem. Sendo assim, o que desejo não é melhorar confessando-me mau, mas ser visto como melhor por outros unicamente por me ver pior que todos. Poderia chamar isso de humildade soberba. Um completo contrassenso por ver que sou mau inclusive quando estou tentando ser bom.

Não sei quanto aos outros, eu, contudo, fico de tal modo desesperançado que despejo toda a minha ruindade na escrita. Talvez ser um péssimo escritor me livre de ser um homem horrível. Ainda que todos os outros pensem pela análise literária psicológico-psicótica que diz ser o escritor detestável sempre sinônimo de pessoa ruim. Por certo deve haver alguma estatística a demonstrar que deixaram de existir vários homens maus quando se tornaram escritores horripilantes. Esta aí uma receita para a bondade, tornar-se escritor ou escrevente e, de preferência, ruim para estar bem longe da glória humana. Pois é nela que o diabo se encontra entrelaçado, fazendo ruindades por suas características boas que sobraram.

C.S. Lewis chega a manifestar essa aparente loucura na parte introdutória de suas “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, a de que até o próprio “trem” não pode ser alguém cem por cento ruim, pois ausente de todas as qualidades como inteligência e astúcia ou força, não seria mesmo um ser. Ou seu campo de ação se restringiria a nada. O mal para ser executado, por incrível que pareça, precisa de uma grande dose de boas qualidades. Já o bem por excelência precisa estar ausente de qualquer resquício de maldade. O diabo só faz o mal porque restou nele muita coisa boa. Jesus Cristo só fez o bem sem pecar jamais porque não havia nele uma única fagulha de maldade, apesar da condição humana. A Árvore da Ciência da qual todos tomamos o fruto em Adão e Eva nunca foi do mal, mas do bem e do mal. Nossa desgraça, se é total, não é pela inclinação tão somente, mas pela escolha. Em vez de olharmos para a beleza e fartura do jardim, para a gloriosa saúde eterna, olhamos para as genitálias. 

e perceberam que estavam nus…

Se temos ciência do bem e do mal e só fazemos ou temos essa tendência ao mal, a culpa é de como a maior parte de nós entende a compensação. Sempre preferimos o que não vale nada porque traz-nos a impressão de valer mais que tudo. Na glória em sermos deuses e não em glorificar a Glória de Deus. A ilusão traz mais prazer que a realidade. E continuamos com o mesmo olhar baixo e vil de milhares de anos atrás. Olhando o que vale como se nada valesse por causa da recompensa vindoura ser algo vindouro demais. Mas para muitos a culpa é divina por ter colocado tal árvore no meio do Jardim e proibido que se comesse o fruto. Não seria mais fácil simplesmente não colocá-la lá? Esquecem-se de que a da Vida Eterna também estava lá sem proibições? Todos querem a liberdade sem que a mesma resulte em desgraça se a escolha for ruim.

O que chama a atenção é a infinita capacidade em direcionar nosso olhar para tudo aquilo que não presta, enquanto desviamos o mesmo de tudo o que é aprazível e proveitoso. Tornando-nos amargos, absorvidos que somos pela maldade que nem é total e muito menos nossa. Não dá pra culpar tanto a mídia. Se noticiassem coisas boas, é provável que a audiência despencasse. Gostamos de ver tragédias, massacres, escândalos, bizarrices, cachorradas, fanfarronices, brigas e tudo o que não vale nada. Porque a maldade, a vergonha e desgraça alheia nos faz sentir melhores que tantos desgraçados. Mesmo quando choramos por eles. Dizemos sinto muito com um olhar choroso, por dentro dizemos: ainda bem que não fui eu.

Talvez isso explique um pouco dos nossos textos e também nossas leituras. Afinal, um pai que arranca a cabeça de um filho é noticiável, torna-se digno de notoriedade e é mais real em nossa sociedade que mil pais que ensinam seus filhos a terem suas cabeças nos devidos lugares. E muito da nossa considerada melhor literatura não é a que tem pessoas virtuosas, mas a que tem seres absolutamente desconfiados, imprestáveis, bandidos, imprevisíveis, devassos, canalhas e cafajestes, adúlteros e adúlteras, mentirosos contumazes e trambiqueiros, em histórias absurdas beirando e ultrapassando a psicose. Isto é realismo, se entre cem casais dez adulteram, escrever sobre os noventa fiéis é romantismo pedante. Irrealismo. Daí os clássicos verdadeiramente reais e aplaudidos, Anna Kariênina, Primo Basílio, Dom Casmurro, Madame Bovary, Vermelho e Negro, Lolita, O Amante de Lady Chatterley entre tantas outras obras-primas que mostram com as melhores letras, certamente, toda nossa ilustre capacidade de sermos horríveis. 

Oh, glória! Somos realmente os melhores em tudo o que não presta.

Mas esqueço tudo isso de bondade e maldade, ligarei o televisor cheio de patacoadas caóticas, só pra ver o que nossos semelhantes têm feito de absurdo, cômico ou horripilante no último dia e na última hora. E enfim, durmo alegre. Já é muito, segundo Confúcio, que não agrida alguém. Bondade mais boa está para ser descoberta.

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10 comentários em “Da bondade e maldade

    1. Olha, Cris, não saberia te dizer. Mas adoraria saber se você considera que poderíamos. Talvez, a ordem dos fatores não altere muito o produto, porque uma vez na prática do bem e do mal, a consciência acuse e defenda como também atestou Paulo. O que vejo de fato é que você fala muito escrevendo muito pouco. Qualidade sempre impressionante dos poetas. Abração, querida Cris. Ótimo dia. 🙂

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      1. no contexto ele fala que o querer fazer o bem estava nele mas que não conseguia o realizar pois que bem algum habitava em sua carne. portanto, não. não considero. obrigada pela riqueza da leitura Waldir. Forte abraço. dia de paz pra você. 😉

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        1. Obrigado eu, Cris, pelo retorno. E obrigado por me fazer reler esse texto algumas vezes. Pelo contexto paulino, de fato a relação com a consciência perde o conteúdo. Pelo meu texto, não sei mesmo o que pensar. Acho que sua sensação dedutiva tem boa equivalência com o escrito. Espero não ter tomado do teu tempo, dia de paz pra ti também, querida Cris.

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            1. 😉 Obrigado, Cris. Não resta outra coisa a fazer senão agradecer-te. Ter alguém como você lendo meus textos é muito mais do que poderia esperar. Afinal, sou teu fã. Não dá nem pra falar em reciprocidade. Está mesmo pra privilégio. Imerecido. Bj, cris. Tenha um dia lindo. E excelente fim de semana, cara amiga. E obrigado mesmo, estou lisonjeado. 🙂

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