Contos

O cara de camisa xadrez fumando um charuto

Eu estava numa fila infernal. Não tenho intimidade e nem quero ter com esses smartphones com câmeras que leem códigos de barras e fazem tudo acontecer num passe de mágica. Sou das antigas, passo o dinheiro e a conta, ouço o crac do grampo penetrando as folhas, digo obrigado e vou embora. É assim que funciona. Porque esse contato faz com que me sinta um ser vivo.

Porque eu não gosto desse negócio de não sair de casa no dia de folga e ficar o dia todo na frente de uma tela digitando como um bobo e conversando com os bytes e os bits, alucinadamente idiota. Já se viu esse povo de hoje, enfurnado nesses cubículos, dançam, riem e até choram. Eu gosto de dançar sem ser com meu próprio braço, de rir de e com pessoas, de chorar por acontecimentos reais e sofrimentos verdadeiros. Embora eu não faça nada disso e seja como todo mundo enfurnado nesses cubículos.

E, enquanto eu estava numa fila infernal pra pagar as contas, observei um cara do lado de lá. Não importa se é direita ou esquerda. Você não vai conseguir pensar e formular o lado, porque simplesmente você não estava lá. Mesmo que eu tente explicar isso de algum modo perfeito, você não saberá direito o que é norte, sudoeste e caixa prego. Portanto, não reclame comigo, mas ele estava à direita, isso posso garantir.

E a fila infernal em que eu estava deu uma andada. Passos lentos. Tinha um gordão na minha frente. Flatulento e mal educado. Xingou a esposa de vaca pelo whats que eu vi, e os filhos de demônios. Tudo isso eu vi enquanto estava na fila. Atrás de mim, tinha uma garota com cabelo azul, piercing no nariz, mas fiquei na minha, e não falei que ela tinha cara de idiota com aqueles óculos sem lentes só pra dar uma de intelectual.

Se alguém perguntar por que eu não me relaciono a sério, namorando como todos, eu penso se quero ou não responder. Se eu quiser, eu respondo; se não, eu fico calado e não respondo nada. É assim que funciona. É assim que é. Mas como ninguém perguntou nada e mesmo assim eu quero falar, eu responderei tudo o que eu quiser, mesmo que ninguém tenha perguntado. Isso se chama liberdade de expressão sem condições prévias.

Eu não namoro porque não gosto de conversar. Relacionamentos são cheios de conversas. Minha paciência é pouca com pessoas que falam muito sobre variadas coisas em tempo não muito longo. Principalmente porque eu não tenho instrução e não entendo nada. Não sei o que é capitalismo, socialismo, feminismo, xintoísmo e dadaísmo. É um saco. Por isso eu ando preferindo amores platônicos em que só eu participo, é claro. Porque eu também não gosto que fiquem olhando muito pra mim, ainda que à distância. Sou tímido, e isso é tudo.

E a fila infernal não andava. Mesmo tendo duas pessoas sido atendidas e já saído dela. Esse fato inusitado e irritante ocorreu porque o próximo da fila não andou quando poderia ter andado. Ficou no mesmo lugar desde que dois haviam sido atendidos e outros dois estavam sendo. Aquilo me deixou nervoso. A fila poderia ter andado não fosse aquele imbecil parado lá no mesmo lugar. Eu inclinei o pescoço e pude verificar que ele estava a vários passos da linha de limite. Bastava ele andar, todos andariam e eu me sentiria melhor. No entanto, isso não aconteceu.

Essa babaquice me fez pensar em como dependemos uns dos outros pra nos sentirmos bem. E se uma única pessoa for idiota, todos nós sofremos. Se uma pessoa for atrasada, atrasará a todos. Se uma pessoa for descuidada, todos pagaremos por seus descuidos. E isso me fez ter vontade de morar numa ilha sem ninguém pra me prejudicar, voluntária ou involuntariamente. Enquanto o mesmo pensamento me deu tristeza pela impossibilidade de se concretizar. E medo de encontrar por lá o senhor das moscas.

Mas a fila andou e eu voltei a ficar contente com a humanidade e comigo mesmo. Porque se uma pessoa não for idiota, todos nós seremos beneficiados. Se uma pessoa for rápida, adiantará a vida de todos. Se uma pessoa for responsável, todos colheremos os frutos. E isso me fez estar feliz por viver em sociedade, com pessoas amáveis umas beneficiando as outras, voluntária e involuntariamente. Enquanto o mesmo pensamento me deu um vislumbre de como podemos ser melhores do que somos. E de como é bom acreditar em utopias, são elas que evitam suicídios em massa.

Contudo, a garota atrás de mim com cabelo azul começou a mascar o chiclete e a estralar bolhas na cara. E aquele cara do lado de lá veio para o lado de cá. Era um cara de camisa xadrez. Passou fumando um charuto, soltando enormes baforadas na cara de todos que estavam na fila. Abraçou alguém, e passou uma pasta cheia de contas para esse alguém pagar pra ele. Foi embora e não precisou nem por um segundo enfrentar a fila. E eu não sabia como reclamar daquilo. E fiquei revoltado pela ausência de certas leis para pessoas muito inteligentes e folgadas.

Voltei a estar desacreditado na humanidade. Saí da fila pra ir comprar um smartphone e pagar minhas contas no sossego de casa, depois de ter depositado dinheiro na calada da noite sem fila alguma e sem crac algum. Depois de uma hora em casa, alguém tocou a campainha. Eu me escondi no banheiro e não atendi.

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12 comentários em “O cara de camisa xadrez fumando um charuto

  1. Cara, que texto genial, e que ótimas reflexões! Realmente adorei, parabéns pela escrita. Não posso deixar de dizer que me identifiquei com a parte do namoro, e todas aquelas conversas sobre “ismos” que nunca acabam bem. E o medo de atender à porta? Sempre. Grande abraço, amigo!

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