Contos

O Monstro

Ela voltaria em duas horas. Ou talvez menos. Toda quarta-feira era assim; um amigo vinha buscá-la para ir visitar uma tia enferma. Pelo menos era isso o que dizia aos filhos enquanto insistia para que não contassem nada ao pai, porque ele ficaria muito preocupado.

Uma intensa sensação de liberdade os invadiu. Apesar de Fábio e Paulo terem apenas dez e seis anos respectivamente, gostavam de brincar sempre juntos. A diferença de idade não importava.

Quando a mãe saiu, pularam e comemoram como se fosse um gol. Iria dar pra brincar do que quisessem. Teriam a casa toda só pra eles. A mãe vivia brigando e não os deixava fazer nada. Agora teriam toda a liberdade pra aproveitar a ausência da disciplina rígida da mãe.

– Vamos brincar do quê, Binho?

– De monstro, Paulinho.

– Ah, não. De monstro eu não quero não. Você não pára.

– Prometo que dessa vez eu paro, mas não pode ser muito rápido. Senão não tem graça.

– Eu queria outra coisa, esconde-esconde ou fingir lutinha.

– Vamos fazer assim. É de monstro fingindo lutinha. Você deita ali perto da porta, e eu sou o monstro que te prende e não te deixa levantar e nem sair do lugar. E fingimos lutinha quando você tenta levantar.

– Tá bom, mano. Mas é pra você parar quando eu falar chega.

– Sim, pode deixar. Só que não vale ficar falando qualquer hora, tem que aguentar bastante. Senão eu nunca mais brinco.

– Prometo, Binho.

Paulinho foi até à porta do quarto dos pais. Deitou-se lá e Binho ficou em cima, colocando uma perna de cada lado e empurrando Paulinho toda vez que ele tentava se levantar. Binho fazia uma cara assustadora. E raramente falava, soltava ruídos como um cão rosnando.

O irmão mais novo sempre sustentava pouco essa brincadeira. Começava a ficar assustado e implorava pra parar. Era o que Binho mais gostava, no entanto. O desespero do irmão constituía-se no ápice da brincadeira para ele.

Mas, nesse dia, Paulinho resolveu ser mais resistente. Já conseguira permanecer por mais de vinte minutos no chão. Binho foi ficando mais e mais assustador. Intimidava com empurrões fortes. Num deles fez com que Paulinho batesse com a cabeça no chão. Um som seco se ouviu, e as estrelas surgiram nos olhos de Paulinho, junto com as lágrimas.

Ele começou a chorar. Binho não deu demonstração alguma de piedade. Passou a rosnar mais alto e tapar a boca de Paulinho pra que não chorasse.

– Chega, Binho. Não quero mais.

– Ahrrrrrr!

– Chega, Binho. Para. Já disse que não quero.

– Não sou o Binho, Meu nome é Monstro.

Ao dizer isso, O Monstro deu um soco no peito de Paulinho, e ordenou que parasse de chorar ou iria bater mais forte. Paulinho obedeceu engolindo o choro.

– Tira a roupa, moleque. Ordenou Binho, O Monstro.

– Não, Binho. Já disse pra parar, não quero mais brincar. Por favor.

– Tira a roupa, moleque. Anda.

Binho, O Monstro, desferiu vários chutes nas pernas de Paulinho, um mais forte que o outro. Paulinho gritava, e quanto mais gritava, mais pontapés, pisões e socos levava. Até que percebeu que o jeito era ficar quieto, sem chorar e obedecer.

Tirou a roupa, mas não queria tirar a de baixo. Binho, O Monstro, puxou com toda a força e finalmente o deixou nu no chão.

O coração de Paulinho estava aos pulos. Muito assustado. O olhar de Binho era maligno. Ficou no chão desejando que sua mãe ou sei pai chegassem logo. Binho nunca tinha chegado a esse ponto. Nessas horas, depois de bater de leve, parava. Mas agora batia forte e parecia ter enlouquecido completamente.

O Monstro, mostrando realmente ter perdido o juízo, tirou o pênis para fora e começou a urinar em cima de Paulinho.

– Abre a boca, vagabundo.

– Não Binho, não, para com isso.

O Monstro encharcou a cara de Paulinho com urina, dando uma risada assustadora ao fim.

Paulinho tentou se levantar novamente. Não conseguiu. O Monstro era muito forte. Mais socos e pontapés e a dor e o medo de Paulinho agora eram gigantescos. Tentava se desvencilhar de todo o modo. Se conseguisse sair, iria para o meio da rua mesmo pelado pedir ajuda.

– Bin… paraaaaaaaaaaaa…

Não parou e não pensava em parar. Binho estava sentindo um prazer indescritível em bater no irmão e humilhá-lo. Nunca havia sentido tanto prazer como agora. Todo o seu ser era absorvido pela fúria. Esqueceu de vez quem era ele e o seu irmão. Um ódio cego brotava contra aquele pequeno corpo nu. Veio uma ideia macabra em sua mente.

“Preciso matá-lo”

– Fique aí, moleque. Nem pense em sair. Se tentar, irá se arrepender.

Paulinho ficou estatelado no lugar. Seu corpo não respondia. Ele tinha que sair dali, mas não conseguia. Binho estava revirando as portas do armário, procurando por uma caixa de fósforo. Queria atear fogo no irmão.

Sua mãe chegou depois de uns trinta minutos. Os gritos dela ecoaram.

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