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Por que tantas Igrejas? (Republicação)

Para ser raso e até injusto: Lutero. Nesse tipo de alucinação, ignora-se que Lutero viveu há séculos de nós. Seria como culpar Cabral pela corrupção no Brasil. E é preciso esquecer que não foi Lutero quem saiu da Igreja Romana, propriamente. Mas que ele foi simplesmente excomungado em 1521 por, principalmente, rejeitar a autoridade papal. Culpar a Reforma Protestante pela existência de tantas denominações não é razoável. A Reforma traz uma das bases da liberdade religiosa em nossa sociedade: livre exame das escrituras. Que não é livre interpretação das escrituras, sublinhe-se! Aliás, a Reforma nasce como isso mesmo: vontade de reformar e não de dividir e destruir. Isto é, voltar às origens fundamentais, ao primeiro amor, mas tudo o que encontra é autoritarismo, obstinação e intransigência, daí a ruptura irremediável. Por esses e outros motivos não é aceitável culpar os reformadores. Isso é injusto, desafia a historiografia e, talvez, até bastante preconceituoso. Há muitas outras explicações razoáveis e pertinentes que podem aclarar com racionalidade o surgimento e crescimento contínuo de denominações consideradas evangélicas. Explorarei as que considero principais em meu entendimento.

Uma delas pode ser vista no contraste entre o crescimento do número de evangélicos com o decréscimo do número de católicos confessos. Isso é lógico e óbvio. Em qualquer censo se percebe que, quanto mais evangélicos, menos católicos. Dessa maneira, pode-se concluir que, provavelmente, muitos são os ex-católicos a fundar novas Igrejas. Ou por não aceitarem as Igrejas Protestantes existentes como alternativas, ou por ser mais fácil a adaptação em um ambiente próprio com regras próprias. Trata-se, claro, de uma probabilidade razoável, com bases estatísticas. Há também, contrastando com o aumento do número de evangélicos, o aumento do número de ateus ou pessoas sem religião. Provavelmente, muitos desses, talvez a maioria, sejam também ex-católicos. Isto é, para algum lado as pessoas têm que ir, a não ser que estejam todas morrendo sem filhos.

Outra suposição é a extrema rigidez de costumes e doutrinas das Igrejas Tradicionais, inclusive a Católica. Isto é, tais Igrejas, até as clássicas Pentecostais, tratam a conduta, ética e moral, mesmo com relação ao vestuário com muita rigidez. Quase puritanas. Sempre houve constantes expulsões de membros que não se enquadraram nos ensinamentos. Isso chegava a ser feito publicamente, pra toda a Igreja ver. Prática que hoje vem sendo deixada, talvez por medo de processos por danos morais. Adúlteros, por exemplo, foram alvos de perdas de cargos ministeriais aos montes em praticamente todas as Igrejas Tradicionais. Excluídos e tidos como desviados, eram proibidos de exercer qualquer atividade eclesiástica e religiosa. E, mesmo congregando, não eram mais vistos como membros. Arrependidos ou não, fato é que não encontravam mais seu lugar e isso pode ter contribuído para criação de diversas igrejas.

Não somente adúlteros, mas até pouco tempo, havia Igrejas que só nomeavam ministros que não tinham o nome sujo. Faziam consultas aos cadastros de proteção ao crédito para nomear ministros. Não sei se ainda existem e colhi isso a partir de relatos de irmãos. Qualquer pendência era motivo para exclusão. Quem já leu “A letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, que, apesar de ser uma obra ficcional, retrata bem o comportamento religioso frente a qualquer erro público, sabe como era profunda a rigidez. Chegando até a ser hipócrita muitas vezes.

Há também, hoje, a questão da secularização das Igrejas. Isto é, sua aproximação com práticas mundanas que torna mais fácil ser “cristão” sem ter que abandonar vicissitudes conquistadas na vida mundana. Tudo não somente é lícito mas conveniente. Igreja dos surfistas, Igreja Evangélica Gay, Igreja dos motoqueiros, Igreja dos jogadores de Futebol, Igreja UFC, Igreja dos Políticos, Igreja dos desviados das outras Igrejas, Igreja do cabelo vermelho, Igreja da tatuagem, Igreja Hippie, Igreja da Minissaia, Igreja da Mulher pregadora, Igreja dos Ricos, Igreja Tecnológica, Igreja Midiática, Igreja de tudo o que se pode imaginar. Obviamente, voltadas para certos setores comportamentais e seculares, muitas delas absolutamente contrárias à Bíblia, ou seja, não são resultado do livre exame de maneira alguma, mas da livre anarquia. Algumas até bem intencionadas procuram ser mais atraentes para os jovens. E produzem bons resultados. Aproximando o Evangelho dos jovens de maneiras muito inteligentes e sem deturpar a Palavra, mas são bem raras. A maioria torna-se seita no instante mesmo de sua criação.

Mas creio que de todas as suposições, infelizmente a mais convincente vem de uma fonte primária: dinheiro! A formação de fortunas com o surgimento de Igrejas que pregam a riqueza, sucesso pessoal e profissional, cura de enfermidades, relaxamento moral e ético, cessação de sofrimentos, tendo no sofrimento, todos eles, não como a cruz comum e útil aos cristãos, mas obra de demônios sempre. O sucesso tremendo de tais denominações tem chamado a atenção de empresários que, maioria, são descrentes totais. Mas veem nesse nicho um mercado próspero e promissor para enriquecer facilmente, além de estarem livres de diversos impostos, podendo inclusive ter mais voluntários sem salários que assalariados. Lucro. Ou seja, é um mercado muito atrativo que também traz efeitos positivos aos seus objetivos políticos e de tomada de poder, por conta da influência que exercem sobre as massas. Não se pode ignorar que há também Igrejas criadas como fachada para lavagem de dinheiro. Até porque não sei se há como fiscalizar doações voluntárias de maneira satisfatória para que possa ser possível identificar práticas criminosas. Mas cabe no parágrafo, pois é nítido o mesmo objetivo: dinheiro. Nenhum desses “empresários” terão problemas em colher versículos bíblicos aos seus gostos, deturpando completamente a mensagem original, para sustentar suas metas. O que se vê não é pregador cristão mas palestrantes do pensamento positivo, psicólogos do otimismo, e “pregadores” do: é dando que se recebe.

Não pretendo tratar nesse texto de soluções. Creio que seriam necessários muitos outros textos para tratar disso. E, a bem da verdade, não tenho a menor ideia de como resolver tamanho problema sem ter que o Estado controlar a religião. E aí teríamos outro problema, que todos já sabem como termina. Isto é, estamos todos num beco sem saída. De um lado a liberdade religiosa virando libertinagem religiosa. Do outro a cessação dela é um risco imenso e forte candidato para um regime autoritário. Não vejo muito o que fazer a não ser denunciar, cobrar das autoridades investigações minuciosas referentes às fortunas de alguns líderes e, principalmente, orar bastante para não cairmos no controle Estatal da religião. Aí seria o fim. Em todo o caso, é preciso abandonar a crítica aos reformadores. Nenhum deles queria o que hoje se vê. Nem podem ser responsabilizados por isso. E os ateus precisam também parar de fazer generalizações. Ninguém é mais prejudicado por essas criações diárias de denominações que os próprios cristãos honestos. Ou os que ao menos tentam ser honestos.

Publicado em: 28/05/2015

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2 comentários em “Por que tantas Igrejas? (Republicação)

    1. Eu acho que isso pode ser considerado bom ou ruim, dependendo do posicionamento político. Limitando a Reforma ao domínio religioso, sem investigar suas consequências econômicas, culturais ou de outras naturezas, creio que ela pode ser louvada eternamente por ser a principal causa que permitiu o livre exame das escrituras, até como fator de denúncia aos descalabros em nome do cristianismo. Abraço, ótimo fim de semana.

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