Crônicas

Quê?

Não sei. Na verdade, eu não sei de nada. Tudo o que sei é que, segundo você, a pergunta foi feita a mim, por que segundo eu e outros, nós só sabemos, segundo aquele outro, que a órbita é a trajetória de um corpo que percorre ao redor de outro sob a influência de alguma força (normalmente gravítica).

E eu não posso achar senão segundo o que outros acham. Digo aqui, então, o que é segundo alguém, evidentemente. Se eu fosse cristão, eu diria que sou contra. Mas como não sou e finjo ser por causa de segundo os Evangelhos não ser é pecado, digo que sou contra, mas a favor de que se seja contra e a favor de tudo. Enquanto isso, busco claramente o pensamento segundo todos que é segundo ninguém.

O momento atual, segundo muitos, é preocupante, como minha opinião sempre tende a ser segundo a maioria para agradar ou, segundo uma minoria pra me sentir inteligente, já que sou burro e, ao mesmo tempo, não me sentir só, eu digo que, segundo estes, fico do lado deles até que eles mudem de lado para que eu assim também possa mudar sem mudar, no entanto, completamente. Pois tenho medo de cair de cima do meu muro que criei para, convenientemente, não ser quem eu sou, sendo tudo o que outros querem, sem deixar de ser, de fato, nada.

É que segundo você e segundo Platão eu diria que segundo o que acaba de se me apresentar eu nunca questionei nada. Cito porque não penso, mas gosto que pensem que eu penso. Não penso porque, segundo muitos, acertadamente, sou covarde, sou covarde, segundo outros tantos, porque tudo o que aprendi é que segundo os outros posso esconder minha opinião que não existe para não parecer ridículo, que é exatamente o que sou e procuro disfarçar, segurando-me segundo e terceiro possa. Mas o que vale é o não parecer. Porque minha opinião sobre mim mesmo não importa, mas àquela segundo todos os outros.

Sobre o resto, disso eu já não sei, porque tudo o que sei é segundo os outros. Se alguém está achando que sou, tendo a pensar, segundo estes, que sou mesmo. Logo, preciso experimentar e depois perguntar, segundo meu parceiro e depois segundo outros ocasionais pelas várias tentativas de formar consenso, o que, segundo eles, devo fazer depois. Ser ou não ser, segundo outro, eis a questão.

É verdade que tudo o que se tem se deve a alguém que agora segundo ele, procuro irritá-lo segundo outros, não acho que é muita pretensão tentar dar tiros de birinbinha contra alguém que tem um canhão que é somente segundo ele mesmo e jamais segundo outros.

Segundo ele, ele tem um canhão. Mas segundo o orgulho e a vaidade produzida em mim, segundo outros que ele trouxe a mim pelo seu único esforço, tendo a achar que posso, segundo as duas coisas anteriores que posso e devo. Mas tenho medo de que segundo os meus segundos haja represálias, por isso nunca digo segundo eu, mas procuro isentar-me pelo fingimento e pela falsidade que, segundo o que outros já sabem sobre mim, é ele mesmo. Usarei esse artifício para depois dizer que nunca disse nada, apenas os outros é que disseram segundo eles mesmos.

A Camilinha Feminista, ela era a favor. Se alguém perguntar do quê, não saberia dizer. Por sua mente ser uma grande confusão. Mas eu digo, era a favor de tudo o que todos os outros fossem contrários e contra tudo o que todos os outros fossem favoráveis. No entanto, ninguém sabe o que seria de alguns escritores e cantores sem a maconha e o cinismo.

Estive falando com P. sobre a interrupção de todas as tratativas por pelo menos dois meses. Será possível que você tinha que ser tão idiota a esse ponto? Não posso mais suportar sua compulsão sexual. Tudo estava se encaminhando para o nosso propósito ser concluído, mas você não consegue deixar de ser precipitado. Transar com a mulher do dono? Que diabos você pensou? Acha que tudo é assim sem conseqüências? Quantas mortes você acha que aconteceram desde que o mundo existe por causa de uma trepada? Hein, animal? Eu tive que mandar dois agentes para evitar que te esfolassem. Fiz isso não porque tenho apreço por você, mas pela informação que conseguiu acerca do Ábaco. Mas de que adiantou? Só poupou sua vida inútil por alguns dias ou semanas. Agora terei que trocar de agente. Gastos, gastos. É isso que você me dá. Aí não tem puta, canalha? Filho da mãe. Você é mesmo um bosta.

Pros diabos com P. É ele o responsável por toda essa merda. Mandou, ordenou e decretou: seduza essa mulher, é por ela que você terá acesso ao cofre e ao documento que precisamos. Oras, o que você acha que é seduzir? Pensa que seduzir é dar selinho. Uma mulher casada? Você é que é um bosta. E apesar de ser meu superior, não me ameace. Sei muito bem onde mora. Sei onde seus filhos estudam. E sei onde sua patroa vai. Aliás, devo avisar que você é corno. Ta dando pra todo mundo. Mas isso agora pouco importa. E a culpa não foi minha por ter descoberto. Você prometeu que o cara ia chegar às dez. Mas não, chegou às nove e cinqüenta e cinco. Eu tava gozando, caramba. Se fosse dez, ele não tinha descoberto.

Eu acho que já devem ter percebido que ele acha um monte de coisa. E agora? Vejam, não é questão de que quero atingir ninguém, mas de puro e simples vício de achar. Também não é sobre achar coisas, dinheiro, achar pessoas desaparecidas. Nada disso. É achar no sentido de supor. Por exemplo, eu agora estou achando que todo mundo acha que eu acho. Só que, no momento, eu não estou achando absolutamente nada além disso. Já achei. Ah se já achei. Eu achei que havia um complô mundial contra a minha pessoa. Sim, um megacomplô. Daqueles, vamos matá-lo, vamos matá-lo. Aí eu me escondi no meio do mato, peguei minha metralhadora e passei a atirar a esmo. Sumam-se daqui assassinos! Sumam-se canalhas!

Mas como iriam sumir se ninguém havia aparecido? Aí eu comecei a achar outra coisa. Achei que todos estavam achando que eu era louco. E passei a xingar todo mundo que eu achava que achava que eu era louco. Achei que alguns entenderam. Porém o fato é que ninguém dava a mínima, ninguém nem sabia do que é que eu estava falando. Ou seja, eu achei que os outros achavam o que na verdade ninguém nunca achou. Eu fiquei revoltado.

Fiquei revoltado por agora achar que estavam realmente achando que eu era doente mental. E dessa vez eu peguei pesado. Ataquei até a sombra. Tipo um Rambo. Ta, ta, ta, ta, ta. Joguei granadas, fiz trincheiras, pulava no meio do barro, saía correndo e distribuía tiros até nos gafanhotos. Achei que havia uma multidão correndo atrás de mim, e eu corri pra caramba. Fui lá do outro lado do morro, pulei de um precipício e caí num rio. Ninguém viu nada. Ninguém soube de nada. Aí eu comecei a achar que não deveria ficar achando muito não. Porque quem acha demais está procurando e acaba achando mesmo.

Eu achei finalmente algo que me surpreendeu. Eu acho que gosto de achar que outras pessoas acham alguma coisa sobre mim pra que eu me sinta importante. Tipo um ator, um cantor, um poeta, escritor. E achei que posso ser um megalomaníaco total. Só que, de repente, eu achei também que se eu parar de achar não vou conseguir achar. Vou ficar assim. E acho que achei nisso um dilema. Ou eu paro de achar ou eu vou ficar louco mesmo. Mas se eu parar de achar, vou ter que parar de achar. Vou ficar só na resenha. Só que depois de chegar à essa conclusão, eu acho que subestimo todas as pessoas. E que me acho pra dedéu. Essa é toda a verdade, eu acho. Ou melhor, eu achava, porque agora estou achando que não acho mais. E, se porventura ainda assim eu me achar, nem por isso poderei dizer que me encontrei.

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