Resenha

Letra acordada em Terra Sonâmbula

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Título: Terra Sonâmbula
Autor: Mia Couto
Ano de Publicação: 1992

Há incontável número de livros dentro do mundo, de nós e fora de tudo. Terra Sonâmbula, Mia Couto, é um deles. Contado no contexto histórico moçambicano, poético o é sem deixar de ser prosa. A história, ainda que nebulosa no meio de sonâmbulos, precisa ser contada pelos livros. Pode ser também cantada. Aqui opta-se por contar cantando. A forma importa menos que o conteúdo, mas em Couto rivaliza bem. Porque o autor transforma a linguagem num veículo que transporta o português por uma estrada moçambicana da oralidade com o desejo de imprimi-la, pelo realismo mágico e o uso criativo dos neologismos.

Mia Couto nasceu em Beira, Moçambique, aos 5 de Junho de 1955. Biólogo de formação, é escritor de alma. Hoje, é uma das principais vozes da nossa língua que não conhece pátria na literatura. Poeta, teve seu primeiro livro de poesias publicado em 1983, Raiz de Orvalho. Os títulos dizem muito sobre sua obra. Terra Sonâmbula, Raiz de Orvalho, Vozes Anoitecidas entre outros denunciam esse pé no realismo e outro na poesia. Uma folha não na árvore, mas ao vento, que cai algumas vezes ao chão para levantar voo de novo e de novo.

Como partícula humana de Moçambique, e como partícula literária do mundo, nasceu no lugar certo e na hora certa para ser construído pelo tempo e os eventos como escritor que vê além e o aprisiona nas páginas. E Moçambique nasce e renasce em meio a um turbilhão de acontecimentos, assim como o escritor e todos os moçambicanos engolidos pela tempestade chamada guerra. De certa forma, Mia é um Moçambique e não apenas moçambicano. Vai sendo feito escritor juntamente com Moçambique sendo forjado como país. E ambos se apoderam de uma característica em comum, a construção tendo como base de apoio a desconstrução. Do país e das almas.

O prenome é apelido adotado. Dizem as biografias hipertextuais e, nisso todas concordam, que a paixão pelos gatos é co-responsável por dar nome ao pseudônimo. Também o irmão menor e a dificuldade de pronunciar o Emílio de Antônio Emílio Leite Couto. Mais um duplo nesse ser dual. Poeta e romancista, escritor e biólogo, vivendo na fronteira do real e do mágico.

Iniciou a medicina e abandonou ao terceiro ano para ser jornalista. Aventurou-se na direção de uma revista, Tempo. Era já a década de 80, em que estrearia com suas Raízes de Orvalho poéticas. Sai da direção da Revista Tempo a tempo para os estudos de Biologia. E essa terminará com a formação.

Em todo esse percurso, Moçambique também é um homem abandonando e retomando, construindo e destruindo-se. É que, por incrível que possa parecer, Moçambique é uma espécie de neocolônia dos portugueses, em pleno século XX. Isso até 25 de Junho de 1975, ano em que os anais dão o selo da Independência de Moçambique. Não sem muita briga e morte. Independência é morte.

Evidentemente, a terra está banhada de sangue e permeada de conflitos causados pelos que sobram. Quase sempre, todos os países conquistam sua independência ao custo de depois ter que se usar de séculos para de fato ter independência.  Nem é preciso ir a fundo no que se passou em Moçambique após o comemorado 25 de Junho de 1975 para descobrir que a independência, se aconteceu, foi bem depois. Principalmente no que se refere à independência financeira.

Terra Sonâmbula nasceu em 1992, e é nessa obra com título bastante sugestivo – que se assemelharia em parte a expressão “Gigante Adormecido”, a qual tanto conhecemos – 17 anos após a independência oficializada, que a essência desse período será romanceada, com vários pés na poesia carregando um corpo meio prosaico. O país é um adolescente independente, mas a escrita é amadurecida. O título não poderia ser mais feliz, já que o sonâmbulo nem acorda e nem dorme, vive vagueando sem saber ao certo o que está a fazer. Uma imagem fácil num livro difícil.

A escrita de Mia desenha no primeiro parágrafo aquilo que pretende com a obra. O título nos diz que a terra é sonâmbula, o primeiro capítulo que a estrada está morta; e a primeira frase é de confirmação e causa: “Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada”. Dito assim, com letras acordadas, com … cores que se pegam à boca. É porque aqui, diz o narrador, o céu se tornara impossível, e os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem de morte.

Os viventes no livro são um velho e um “miúdo” seguindo pela estrada, a que fora morta pela guerra. O velho é Tuahir, descrito como alguém que parece ter perdido toda a substância; o miúdo, Muidinga, saído do campo de refugiados, ou melhor, tirado de lá pelo velho Tuahir, que se apieda do pequeno após todos os outros o haverem abandonado. Tema este recorrente na obra: abandono. Inclusive o da razão. É nesse cenário de devastação e sofrimento que a história será contada, com a ajuda das letras achadas numa mala abandonada.

Porque nessa estrada morta o Velho Tuahir propõe parada. Diante de um machimbombo (ônibus) incendiado. Com restos de corpos carbonizados, ao que o miúdo Muidinga discorda: “Mas aqui? Num machimbombo todo incendiado?” Tendo, provavelmente, um provérbio moçambicano como resposta da boca de Tuahir: “O que já está queimado não volta a arder.” E perambulam até enterrar os mortos sob o argumento convincente do miúdo de “estar farto de viver entre os mortos.”

Cavam uma única vala para poupar esforço e, no regresso, encontram outro corpo. Este não estava queimado, foi à bala que se tornou cadáver. Próximo dele há uma mala que, após enterrá-lo, levam para o ônibus e a abrem. Dentro: roupas, comida e cadernos escolares gatafunhados. São as letras que os acompanharão até o fim: os cadernos de Kindzu. Transformando o livro em um livro que tem um livro dentro de si. Enquanto a história de Moçambique, de Muidinga e Tuahir, ganha outra personagem sofrível, Kindzu. É que O livro é um manual de desgraça. Se toda desgraça fosse pouca, o autor assegura que ela seja mais que toda. Ou seria Moçambique e não o Couto? O Certo é que pelos cadernos de Kindzu nascerão morrendo outros personagens, outras histórias que se entrelaçarão ao passado esquecido por Muidinga.

De certa forma, é a receita para prender o leitor até o fim pela manutenção e crescimento constante da curiosidade. Por causa do modelo de ir e vir, sempre deixando algo pra contar depois. Histórias paralelas que, na verdade, só estão separadas pelo espaço-tempo. A de Kindzu, com flashbacks, como uma explicação até a estrada morta. É ali, em meio àquele lugar morto que Tuahir e Muidinga vão ganhando vida, como se as histórias presentes no caderno de Kindzu fossem um novo caminho, vivo, em meio à estrada morta pela guerra. Talvez haja aí um elogio ao poder da literatura.

Muidinga não se lembra de nada, não sabe quem é, não sabe nem se é, e busca pelos pais que não sabe quem são. Sempre se convive com essas metáforas a Moçambique. Chega a cansar a insistência, como se o leitor também fosse um sonâmbulo que precisasse ser estapeado várias vezes pra acordar.  Pode ser…

O miúdo encontra nos cadernos uma fagulha de esperança para a solidão daquela selva incendiada. Protege-os quando Tuahir manda tirar da mala esses cadernos para fazer uma fogueira. Tira a capa somente, preservando o conteúdo. O irônico nisso é que ele não sabe se sabe ler. Até que se descobre leitor, sendo invadido por uma grande alegria. Tuahir percebe e pede que leia em voz alta pra ele “dormecer”. Mas o velho dorme coisa nenhuma.

Assim começa a leitura do primeiro caderno de Kindzu, intitulado “O tempo em que o mundo tinha a nossa idade.” E se apresenta, sabendo que algum dia alguém havia de ler seus escritos, ou com esse desejo. “Sou chamado Kindzu. É o nome que se dá às palmeirinhas miudinhas.” E assim, Kindzu conta sua história, enquanto Mia conta a de Tuahir e Muidinga lendo a de Kindzu nos ínterins do caos.

Kindzu narra os fatos pouco antes, dentro do momento da independência do país e dentro da sua fuga-expulsão do lar. Está ainda na casa dos pais ao nascimento do primeiro caderno, com a mãe grávida do filho que se chamará Vinticinco de Junho, em homenagem ao dia da Independência, dada pelo pai de ambos, Taímo. Este filho, após uma visão amaldiçoada de prenúncio do pai, será forçado a viver no galinheiro, fantasiado com penas feitas pela mãe, como um galináceo. Para fugir da morte anunciada, será preciso virar bicho.  É, certamente, um cenário pitoresco montado pelo escritor para dar vazão ao que a independência está significando.

Vinticinco de Junho apelidado Junhito, certo dia, desaparece. O Pai enlouquece com a ajuda da bebida e morre. Kindzu é um ser perdido em si mesmo. Seu mundo desaba junto com o desaparecimento do irmão e morte do pai. Ele tinha num comerciante indiano, Surendra Valá, uma espécie de apoio emocional. Era o único que o ouvia e o tratava como gente. Mas a desgraça não dá trégua na vida de Kindzu. Surendra Valá passa a ser vítima, seu comércio é incendiado e ele vai-se embora. Kindzu fica desolado. Sem pai, sem o irmão, sem o amigo e com uma mãe que diz: “Tive tantos filhos, tantíssimos. Todos foram, ficaste só tu, Kindzu. Logo tu, o pior.” Não resta mais nada a ele a não ser sair, a questão é: para onde e para quê? Sua história é a típica do desgraçado: uma imensa capacidade de perder amigos, parentes e amores e ganhar mortes, violência e solidão em troca. Até o momento em que a desgraça é tão grande que nem a solidão se importa mais.

Isso é o que está sendo traçado no primeiro caderno de Kindzu. Mas ele sai. Com o intuito de se tornar um naparama: “vingador das tristezas da minha gente”. É o ideal que faltava para não se matar. As alternâncias da leitura se darão sempre com a de um dos cadernos dele e o que se passa entre o velho Tuahir e Muidinga na estrada. A vida de Kindzu está em movimento nas folhas dos cadernos e ajudam a movimentar as de Tuahir e Muidinga, perdidos no meio do nada. E pelas andanças de Kindzu em conjunto com Muidinga e Tuahir vivendo no machimbombo, Mia Couto conta o Moçambique. Com os caracteres folclóricos, supersticiosos, crenças bisonhas, preconceitos e racismo, com a corrupção, luta pelo poder e violência de um povo mergulhado no sangue, mas com o sonho de ser um país, mesmo ensanguentado.

O desfecho é psicodélico. Tocar nele seria adiantar fins, prejudicado a leitura dos meios. Fui obrigado a retornar umas duas vezes para lidar com tamanha alucinação. Alguns podem achar sensacional. Eu me reservo no direito de achar o que não procurava, tão somente. O mérito está na costura bem-feita. No iniciar já sabendo como terminar. Em outras palavras, que poderão ser melhor compreendidas com a leitura da obra, é como se Mia Couto tivesse iniciado terminando e terminado iniciando. Não está, certamente, em desacordo com o Moçambique real. Que termina um longo conflito pela independência de 1964 até 1974 para, depois de Estado Independente, iniciar-se mergulhando numa outra guerra, a civil, até a década de 90, com mais de um milhão de mortos pelos conflitos e pela fome.

Terra Sonâmbula foi considerado um dos melhores livros africanos do século XX na Feira do Livro do Zimbábue. Também foi adaptado para a telona em 2007. Atualmente, é literatura obrigatória para o vestibular Unicamp. Embora o gênero se enquadre no realismo mágico – o autor tem lá sua cota de influência em Guimarães Rosa – e não ser adaptado para o português do Brasil, não encontrei grandes dificuldades de compreensão. Se a obra é boa, se tem importância?

Pois se eu, um pobre leitor dos cafundós do Brasil, escrevi tudo isso no ano de 2016, 24 anos depois do lançamento, com curiosidade sobre a história de Moçambique, que só sabia existir por olhar o mapa em busca de nomes esquisitos, é óbvio que tem importância e mérito. Ainda que o dito aqui fosse só de crítica negativa (não gostei de alguns neologismos). O certo é que a terra pode até ser ainda sonâmbula, mas a letra mostrou-se bem acordada. Disposta e capaz de, aos poucos, ir acordando a terra.

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