Artigos · Recanto das Letras

Novo ateísmo e o menosprezo à Antiguidade. (Republicação)

Todos nós somos construções inacabadas, edifícios a terminar apoiados sobre uma base. E, se hoje estamos próximos do teto, o que não se pode garantir, não podemos desprezar o alicerce como se fosse insignificante. Ele é o que faz ser possível olhar para cima. Esta é a nossa própria história. Passado, presente e futuro são, respectivamente, a base, a parede indo ao topo, sendo levantada e firmada na base, e o topo desconhecido, incerto, tateado em sonho. De forma categórica: o futuro e o presente não existem até se transformarem em passado. Há uma cola que não se pode soltar nem desgrudar entre o presente e o passado. Aliás, que é o presente senão a criação de passados?!

Entre uma analogia e outra, vejo a tristeza que é a orfandade comparada com quem tem uma genealogia totalmente definida. Ausente de história, de ancestralidade, privado da observação de si mesmo no outro, no seu anterior que era ele próprio antes dele mesmo. Um desconhecido para si próprio. A construção de tal trajetória vem do zero, do mais absoluto zero, ainda assim com construções de passados, e não há como não se enternecer com tão dura realidade. Mas esse foi privado não por opção, escolha própria de não conhecer e valorizar ou sentir ojeriza de seu passado. Mas por causa dos destruidores de presentes, passados e futuros, que têm ojeriza pela própria história de si mesmos.

Não se trata de ter vergonha ou não do pretérito. Não existe passado vergonhoso no sentido absoluto. Podem até existir atos vergonhosos localizados no passado, mas em suma: existe passado. Qualificar o que passou é tarefa de pouco ou nenhum proveito, e ainda que ele seja horrível e catastrófico serve para criar desejos idealizados à construção de passados melhores. É de passados ruins que se constroem passados melhores. E isso vale para tudo, desde religião até ciência. Da infância à velhice. Não se pode preferir o primeiro passo ao primeiro tombo, pois o primeiro tombo foi útil como tentativa para criar o primeiro passo.

Mas parte de nossa humanidade é assim, infelizmente. Despreza sempre a multidão de tentativas, como se a tentativa que deu certo não fosse somente mais uma, resultado de quem não desistiu e buscou motivação justamente nos anteriores que tentaram. O que seria dos que conseguiram sem os que tentaram? Um imenso nada. Não teria nem com o que tentar pela primeira vez. Todas as frustrações de um determinam menor perda de tempo do outro. E é daí que surge a possibilidade da conquista em uma época. Não ir por caminho onde há o brejo. Os espinhos. A morte. O erro. Descobrimos esses percalços e passamos a evitá-los por causa dos que fracassaram.

É no fracasso e na repetição de fracassos que está a receita do acerto. Para cada receita certa há milhares de receitas erradas. Lembro de uma professora sábia do primário que sempre repetia: é aqui o lugar de errar. Não poderia estar mais certa. A fase mais importante da vida é a época em que se pode errar livremente. E é essa época que todos os adultos irão chamar de passado. É o processo de aprendizado. E tudo isso é parte de nós entranhada, indissociável do nosso ser. Que é o hoje senão o resultado de todos os ontem? Mas, estranhamente, surgem grupos neos e pós que vituperam, escarnecem e menosprezam o passado. Como se eles não fossem o resultado do próprio pretérito que tanto abominam.

Se existe ideal, qualquer que seja, é porque foi desenvolvido em algum momento por outros, e modelado, e aperfeiçoado. Ainda que se chegue num presente onde se acredita ter atingido o mais absoluto grau de desenvolvimento, ele ainda pode ser considerado uma porcaria daqui cem anos comparativamente com um passado de quinhentos, quando alguém lúcido observará que esse presente era resultado não dele mesmo, mas de todo o seu antecedente. Somos, provavelmente, os piores criadores de passados da história da humanidade. Justamente por não valorizarmos o que nos foi dado por herança. Um homem que despreza seu passado não merece ter futuro.

Vejamos nossos gênios musicais. Onde estão? As músicas que consigo ouvir e os hinos que consigo cantar têm pelo menos três décadas. A maioria dos livros que leio, e realmente o prazer máximo do que se pode ter em leitura, têm, (apesar de essa ser uma arte que ainda surpreende mais que outras) no mínimo, cem anos. Vejamos nossos gênios cientistas, onde estão? Todos os que agora existem são cientistas, nenhum pode ser chamado de gênio, trabalham em bases lançadas por homens que nem mesmo tinham caneta, mas pena. E se a aperfeiçoam, não se pode ser tão elogioso, como se fossem o ápice, são resultados, meros resultados de homens geniais.

Os que tentaram, os que usaram as tentativas e insucessos e chegaram a criar, não podem ser menos importantes do que meros mantenedores da criação. Isso é ser contemporâneo. Isso é aceitar ser contemporâneo: ver que é impossível superar os antecessores e viver no mundo criado por eles, menosprezando-os. É assumir sem querer que chegamos no ápice. No ápice deles. Mas esse ápice sequer foi tocado por nós. Somos observadores estupefatos e aproveitadores natos. Apenas a garrafa do vinho. O seu preço não está nela, ela não vale praticamente nada. É o velho vinho dentro dela que tem valor. Se há um nome perfeito para nós, certamente é embalagem. Meros depósitos da criatividade do passado e de homens passados e que, constantemente, ensoberbecem-se diante deles, enquanto deveríamos estar rindo de nós mesmos.

Porém, vemos hoje pessoas que olham o passado por cima. A Bíblia por cima. Usando termos como: ultrapassada, manual de história primitiva. Ou, como viviam os nômades. Ignorando não só o aspecto religioso da Bíblia, mas o de conhecimento histórico, de construção da ordem, da ciência bíblica, do valor da literatura hebraica e grega que, ricas, mesmo em sua pobreza. Mas não é só isso. É nossa própria noção de direito e dever. São várias constituições que denunciam sua fonte de inspiração. A nossa já pretende existir sob a proteção de Deus, antes mesmo do Artigo I. Mas isso é o mínimo do máximo, há muito mais. Seriam necessários muitos livros somente para tratar disso.

E observando até fatos recentes, não consigo entender alguém que desdenha do computador ocupando três andares do prédio. Mas se maravilha com o computador na sua mão agora. Transitando por todas as partes. Minúsculo. Era pra acontecer o inverso. O grande, o grandioso, o gigantesco está no computador que ocupa três andares, não nesse que cabe no bolso. Esse é o embrulho do outro. Nada pode ser mais sugestivo que isso. A enormidade do computador antigo, a enormidade do pensamento dos antigos criadores do computador antigo, comparada com esse computador de bolso, pequenino, assim como o tamanho dos pensamentos e dos sonhos dessa geração minúscula. De tão minúsculos que cabem no bolso. O outro, pelo contrário, precisava de três andares para sustentá-lo.

Eis o que se pode esperar dessa geração com toda a sua empáfia, soberba e presunção: a infertilidade mental e a cessação do processo de melhora. Vamos voltar às cavernas, àquelas em que nunca estivemos a não ser na metodologia de idiotas que desconsideram catástrofes, buscando a verruga que não criou o olho sem o olho. Desejo que esse retorno seja pelo menos rápido. No processo de desaprender e menosprezar, pelo menos não precisaremos sofrer lentamente.

Publicado em: 07/05/2015
Peço desculpas pelo sumiço, mas não tenho tido tempo de ter tempo.
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11 comentários em “Novo ateísmo e o menosprezo à Antiguidade. (Republicação)

  1. Caríssimo amigo, excelente seu texto, como sempre!
    Posso comentar alguns trechos? Sei que vc escreveu com um viés à religião, mas encontrei no seu texto boa argumentação também para fora dela:
    1) “É no fracasso e na repetição de fracassos que está a receita do acerto.” – pois é justamente esse um princípio do xadrez: nós aprendemos mais com nossas derrotas, que nos abrem os olhos, que com nossas vitórias, em que nos acomodamos. O interessante é que esse raciocínio lembra Santo Agostinho: prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me bajulam, porque me corrompem.
    2) “Somos, provavelmente, os piores criadores de passados da história da humanidade…” – isso me lembrou o Pedro Malan, quando disse que no Brasil até o passado é imprevisível. Voltarei a ele no ponto 3.
    3) “… Justamente por não valorizarmos o que nos foi dado por herança. Um homem que despreza seu passado não merece ter futuro.” – concordo contigo e vejo aí dois problemas, um pior que o outro:
    a) desvalorizamos nossa herança européia porque é eurocêntrica; veja o que estão tentando fazer com o currículo escolar de história;
    b) como se isso não bastasse, ainda reescrevem o passado, retocando-o conforme conveniências ideológicas (e aqui volta Malan). Tiranetes e idiotas viram heróis, ao sabor dos ventos.
    4) “A enormidade do computador antigo, a enormidade do pensamento dos antigos criadores do computador antigo, comparada com esse computador de bolso, pequenino, assim como o tamanho dos pensamentos e dos sonhos dessa geração minúscula. De tão minúsculos que cabem no bolso. O outro, pelo contrário, precisava de três andares para sustentá-lo.” – bravíssimo! Nunca tinha me ocorrido, mas vc tem toda razão. Quando vejo aquelas fotos de computadores imensos… com rolo de fita magnética…
    5) “Eis o que se pode esperar dessa geração com toda a sua empáfia, soberba e presunção: a infertilidade mental e a cessação do processo de melhora. Vamos voltar às cavernas” – bravíssimo, mais uma vez! Se pensarmos nas burradas que fizemos desde a adolescência, a maioria foi fruto da soberba típica da imaturidade. O problema, como vc bem colocou, é quando essa soberba da ignorância acaba por guiar o mundo. E não é que eles têm as rédeas do mundo nas mãos: é que o mundo resolve bajulá-los, por “n” motivos, a começar pelo comercial e político: são um mercado (consumidor e eleitoral) dócil e facilmente manipulável. Daí que tudo precisa ser moldado à sua imagem e semelhança. É, como vc diz, o rumo à caverna. Lembrei-me, aliás, de um produtor musical – acho que já citei pra vc – que disse que, quanto mais avançam tecnologicamente os aparelhos de som, mais regridem tecnicamente as músicas que eles tocam, de tal sorte que rumamos para uma ultra hiper mega altíssima fidelidade para tocar o grito mais gutural possível. Ecoando do fundo da caverna mental em que estamos nos enfiando. A tecnologia nos conduz à barbárie? Não é culpa dela, é nossa.
    Um forte abraço, meu caro amigo, uma ótima tarde pra vc e parabéns pelo precioso artigo com que nos brindou.

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    1. Olá, querido Laércio. Evidente que não só pode como se deseja, sempre! Você está certo, escrevi com viés à religião, forte, aliás. Porém, é-me produtiva ao extremo a ampliação do alcance do texto mediante sua exposição.
      1) Tenho admiração por Agostinho. Uma mente brilhante e, biograficamente, humano. Certamente uma das maiores mentes que pertenceu à Igreja. Dr. em absoluto. E sua citação traz muito bem a profundidade. Se aplicada, melhor ainda para nós.
      2 e 3) Perfeitas suas colocações. Há uma desconstrução de nosso passado em favor de ideologias sórdidas. Bem, ainda que não fossem, que fosse só em favor de uma mentira oportuna, não se pode intentar destruir o que nos construiu, mal ou bem. A história se constrói sozinha. Ao se mover nela, buscando moldá-la, caberá apenas a ela mesma moldar tais inescrupulosos pelo que são.
      4) Usei aí o exemplo desses servidores, mas poderíamos usar o dos carros sem prejuízo da conclusão. Não sei quanto a você, mas me parecem muito mais resistentes, mais bonitos, quando bem cuidados e/ou reformados os antigos. Talvez haja nisso um quê de saudosismo, o que seria ridículo, já que alguns carros que admiro são mais velhos que eu.
      5) G.K. Chesterton, e agora não me lembro se em Ortodoxia ou em Homem Eterno, trata da caverna, com seu humor habitual, zomba desse homem da caverna a que chegamos sabe-se lá por que tipo de indução. Desenhos e ossos. A rigor, eu seria um excelente homem das cavernas se descobrissem meus cadernos de desenho daqui a uns 2 mil anos, ou se eu visitasse uma com um giz… E aproveito seu comentário, corroborando todo ele, para acrescentar um aparente absurdo: de estarmos indo às cavernas, mas sem jamais termos participado dela. Indo pelo desejo utópico de ser o que nunca fomos, acreditando seriamente termos sido para sermos de novo.
      Termino, por ora, concordando contigo, caro amigo. A tecnologia não tem culpa, mas essa de uns anos pra cá, é produzida por bárbaros. Ela é a própria barbárie a meu ver. Como no seu texto, é a execução final do processo em que nós nos tornamos bonecos para que os bonecos tornem-se nós. A primeira é possível e tem progredido, a segunda é impossível, ainda mais depois de conquistada a primeira.
      Forte abraço, amigo. Ótima tarde e noite.

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      1. Ô, meu caro amigo, muito obrigado!…
        Concordo inteiramente com os carros. Tanto que, como eu já disse para a Juliana, meu sonho de consumo é uma Kombi 75, rsrs…
        Quanto à caverna, eu li no seu artigo a menção que vc fez a isso, que vc retomou agora, que é o “retorno” ao que não foi.
        Quanto à tecnologia da barbárie, concordo integralmente. E o que vc diz me faz refletir novamente sobre o assunto.
        É sabido que as indústrias da moda, do tabaco e da “cultura de massa” (música, cinema etc.) têm um foco preferencial na adolescência e juventude. Porque são livros com muitas páginas em branco. Ainda estão sendo escritos. Portanto, atrair sua atenção é mais fácil e proveitoso (durante mais anos consumirão esses produtos). Mas, para atraí-los, é necessário adequar-se ao seu gosto. E ninguém nasce culto. Cultura se adquire com o tempo. Ou seja, se o foco da indústria é se adequar ao gosto da imaturidade, será necessário se adaptar a formas mais primitivas, p.ex., o grito (no caminho inverso da educação, que deveria ministrar as formas mais complexas, p.ex., o contraponto). Talvez isso explique a decrescente complexidade das manifestações da “cultura de massa”. Isso sem contar os macetes para que esses produtos culturais obtenham grande e imediato sucesso: são todos eles macetes de simplificação extrema do produto, porque a complexidade fica encalhada nas prateleiras. Mas a coisa vai além. Em alemão, “cultura” e “civilização” são expressas por uma só palavra: “Kultur”. Vale dizer, um decréscimo cultural pode ser compreendido também como um decréscimo civilizacional. Sendo que o oposto da civilização é a barbárie – ou seja, rumo à caverna, mesmo. Meu caro amigo, seu excelente artigo, como sempre, dá muito pano pra manga… Um forte abraço e um ótimo dia pra vc.

        Curtido por 1 pessoa

        1. Perfeita amplitude, caro amigo. No que se refere à questão da persuasão à juventude, Permita-me uma fagulha da discordância. Você não acha que no caso exemplificado, da página em branco, caberia aí não o adequar-se ao gosto, mas mesmo criar o gosto para que se adequem e conduzir como manada? E se nosso anseio não contém a história ampla, mas somente está direcionado para algumas décadas atrás, não fizeram o mesmo conosco? Não sei se nascemos tolhidos ou se definhamos ao longo do tempo no aspecto cultural e na própria amplitude da palavra cultura pelo desprezo à antiguidade. Talvez seja ela mesma, a cultura, a culpada por nos levar a não dar valor ao passado, haja vista tantos movimentos culturais do século passado que possuíam por objetivo romper com a história em favor de uma pretensa modernidade, e tudo o que conseguiram foi aleijar a civilização ocidental de seus paradigmas de séculos, em favor de uma cultura específica, antediluviana e sodomizada. Daria pra chamar isso que vivemos hoje de cultura, a desvalorização do passado, tendo em vista a exagerada projeção de futuro da aceitação e convivência harmoniosa sem prejuízo do seu amplo significado? Se não, então a cultura passará a poder ser qualificada. Mas a meu ver isso não pode ocorrer, cultura é cultura, boa ou ruim não poderia ser parâmetro. Nenhum povo, creio eu, por mais bárbaro que seja, deixa de ter sua cultura… A cultura da barbárie seria apropriada se também não existisse como qualificação dada por outra cultura que sente-se superior. No quê exatamente não sei. Aí é caso de opinião. Pois a meu ver, considerando toda a nossa história, nunca houve mais barbárie que em nossa civilização. Nossa cultura é de violência extrema. Seria ainda maior não fosse o cristianismo. O meu incômodo com relação ao que demonstro no artigo é mais com relação à questão religiosa, ao desprezo à Bíblia. Pois vejo o cristianismo determinando o fundamento da construção da civilização ocidental e até oriental, teria vencido não fosse a apropriação indébita do império e sua posterior cisão ortodoxo-católica. Mas aí é muito mais pano pra manga, como você diz, pela conjuntura de fatores até bem pouco explorados. O que quero dizer, enfim, é que meu artigo contém uma deficiência que vejo claramente quando não acentuo que o passado desvalorizado é justamente o que deveria ser mais valorizado, o religioso e moral não hipócrita e de uso imperial-monárquico expansionista. Porque em si, o passado sem o cristianismo, seria tal qual o presente de hoje. Mas o cristianismo jamais foi o norte total de nossa civilização a não ser como nomenclatura amparada no fingimento de agir contra ele mesmo dizendo ser ele. E nem sei se pretendeu algum dia ser. Talvez por isso a Reforma, querendo ir às reais origens e intenções primeiras. Contudo, o que de bom houve cá nesses lados nossos é, em minha modesta opinião, a construção de todo o resto pelas beiradas da Bíblia e da influência de Jesus Cristo na arquitetura social, ainda que com fingimento, a mensagem de alguma forma chegou, cheia de deficiências, mas chegou. Excluídas estas em favor do laicismo, irmão gêmeo do ateísmo e do materialismo, tudo desmorona e/ou desmoronará logo. Como já se vê. Forte abraço, caro amigo, ótima tarde.

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