Crônicas

Provocações – Elogio da mentira

Primeiro texto de um projeto em conjunto com a querida Mayara K., do Blog Devaneadora de Ideias. Este é o terceiro tema da sequência, Mentira. O primeiro foi sobre Descriminalização do uso da Maconha e o segundo sobre o Casamento Gay. Em ambos os casos repliquei contrariamente. Essa é a primeira vez que construo a defesa primeira. Relembro e aviso os que ainda não conhecem sobre essa proposta que, não necessariamente, os pensamentos expressos nesses textos representam a opinião do autor. Trata-se, antes de qualquer coisa, de um exercício da reflexão. Agradeço a leitura e os convido para leitura da réplica, o que será possível acompanhando nos próximos dias o blog da amiga já citada.


Houve um que fez o elogio da loucura, outro, da vaidade, por que não eu da mentira? Afinal, também sou um homem virtuoso como estes eram. Portador de um cérebro pensante. Talvez, reconheço, mais inculto. Nem por isso menos esforçado. Sem modéstia alguma, que é a qualidade dos verdadeiros fracos, o meu caso é muito mais difícil. Porque o elogiador da loucura era com grande probabilidade um louco, enquanto o segundo era, certamente, vaidoso. E eu? pobre de mim, terei em minha reta a difícil tarefa de elogiar a mentira sem jamais ter mentido uma única vez desde que ao mundo vim.

Ah, quão bela e graciosa é essa pérola da criação humana. Uma pena que muitos a tem por mal absoluto. Uma vilã, sendo que heroína é. Miserável raça humana que não valoriza sua mãe. Passa a ser o grande ideal da humanidade evitá-la a todo o custo, quase sempre sem perceber a ela estar correndo. Saem por aí a gritar raivosos contra ela, usando-se dos mais vis verbetes. Gritos suspeitosíssimos dos que já se beneficiaram dela. Faz parte da massa. Porquanto a voz do povo é a voz da mentira. Daí tanta revolta mentirosa.

A mentira é uma virtude. É ela a responsável por sabermos o que é a verdade. Se tudo verdade fosse, esta não existiria, mas somente o tudo. Filosoficamente, tudo o que é todo nada é. Ao passo que nunca daríamos com o valor em si se o valor não acha contrário. Valores são construídos na existência do que se lhes opõe. Não ser tudo é ser algo. Não é valor o que não encontra oposição, e esta em si mesma tem seu valor garantido por ser o motor barulhento que faz surgir as virtudes universais. Sabemos o que é o bem pelo desenvolvimento incrível do mal. Do belo pelo do feio. Da luz pelas trevas. Todas essas concepções: bom, belo, luz entre outras só podemos explicar pelos seus opostos. Mas há algo a se pensar em específico sobre a mentira, isto é, seria o exato oposto da verdade?

Evidentemente, a mentira parece ser o antônimo da verdade. Quanto a isso, não há como se argumentar contrariamente. Pode-se, contudo, argumentar que não é somente o oposto da verdade. A mentira é também um meio de se chegar à verdade. E nisso está sua virtude principal. Ela carrega em seu fim último ser descoberta. É o mecanismo que movimenta a engrenagem para a verdade. Esta se usa da mentira para que ela mesma venha à tona como virtude grandiosa. Não seria sem a primeira. A verdade é cínica e ingrata. Todo o valor dela está diretamente ligado ao tamanho do dano que o uso da mentira causou. A democracia jamais terá o mesmo valor para quem nasceu nela contra aquele que passou a vida sob forte ditadura. Ou seja, o valor da expressão democracia só tem grandiosidade por causa da existência e experimentação patente do comunismo, nazismo e fascismo. O mesmo ocorre para com a verdade. Esta deve toda a sua grandiosidade virtuosa à mentira.

A mentira é a responsável direta pelo nosso desenvolvimento como humanidade. De tanto o ser humano mentir, criou-se o Teatro. E não paramos mais. Vendemos e produzimos mentiras em escala industrial todos os dias. Seja pelo entretenimento barato, seja pela arte a mais erudita como, por exemplo, a literatura. Imagine a literatura sem a mentira. Tal descalabro teria levado a literatura à extinção em seus primeiros dias. Não há como viver sem a mentira nas histórias literárias, sem as invenções sabidamente mentirosas. Também não há teatro sem atores, que nada mais são que mentirosos profissionais. Perfeccionistas do fingimento. Não há peça sem um criador de mentiras. Não há filmes sem as mentiras produzidas por Hollywood. Sem os efeitos especiais que deveriam ser chamados efeitos genuinamente mentirosos ao cubo. Hollywood é o universo do descaramento. A indústria-chefe de todas as mentiras mundiais na contemporaneidade juntamente com a política brasileira. Não há diversão, arte, estudo, religião, governo, casamentos, famílias, absolutamente nada sem a mentira. Não há imprensa sem as mentiras diárias ou semanais dos jornais e revistas. Não há religião sem todas as mentiras de seus textos sagrados, lendas e mitos (A religião é o ópio do povo). Ou seja, quem é que viveria num mundo sem mentira? Quem ousaria? Ou melhor, como haveria o mundo sem tanta mentira? Todo ele é construído pela e sob mentira.

Falando especificamente sobre a religião cristã, sabemos que ela é boa para que alguns indivíduos não cometam crimes, por causa do medo gerado nos seus adeptos mediante a ameaça do inferno. Essa mentira de que Deus existe é claramente benéfica à humanidade, pois sem ela, alguns iriam acabar cometendo muitos crimes por não temer a lei humana, principalmente no Brasil, por conta da impunidade generalizada. A mentira infernal serve como freio. Aos que pensam que Deus existe, não devemos ficar discutindo como muitos amigos nossos ateus fazem. O ideal é sempre mentir e dizer acreditar também. A proposição filosófica “Deus teria como criar uma pedra tão pesada que não poderia ser carregada por ele mesmo?” demonstrou que o Deus dos cristãos não existe. Pois se ele não pode, não é Onipotente, se pode, também não é Onipotente. Sabemos que o Deus cristão é tido como Onipotente, logo, Ele não existe. E não existe mesmo. Mas pra que incomodar as pessoas? O melhor é mentir, dizer acreditar, pois nem todos podem ser ateus.

A mentira é boa para convivência. Seria insuportável convivermos numa sociedade viciada na verdade; em que todos os indivíduos seus participantes somente se usassem da mesma para fazer trafegar as relações. Há tantos exemplos que daria pra escrever um livro somente sobre isso. Cito alguns. O primeiro, os simples cumprimentos bom dia, boa tarde e boa noite. Em suma, qualquer que dê esses cumprimentos, não está comprometido com a verdade, mas com a convivência. Pouco se liga para se as pessoas a quem demos tal cumprimento morram no minuto seguinte, contanto que não sejamos nós, estará ótimo. Se fôssemos todos dizer a verdade, haveria grande chance de começarmos o dia mandando os transeuntes àquele lugar. Assim também é com as relações amorosas. Quantos não são os homens e mulheres fazendo amor com seus parceiros enquanto pensam em outros e outras? Imagine se a verdade aparecesse com sua conhecida indelicadeza, quantos não seriam os divórcios? Isto é, haveria ainda mais do que há.

Os elogios à beleza têm o mesmo intento. Usar-se da mentira para não desagradar e entristecer as pessoas, culminando em rompimentos de grandes amizades. Há tipos, obviamente, muito feios. Creio até que sejam a maioria. Tanto do gênero masculino, feminino e outros que inventarem. Isso é um fato. Dizer a verdade a tais pessoas iria se constituir em falta de educação e perigo real e imediato à nossa segurança. Chegar-se a elas com a verdade e dizer: fulano, você é horroroso, fulana, você é muito feia. Se fosse você, eu me matava. Isso seria deselegante e perigoso. Alguém pode dizer que é possível manter-se neutro. Mas e se a cruza perguntar a você, sou lindo? O que você dirá? Não sei? Ficará calado? Não dizer não é mentir, mas omitir, dirá alguém. Ocorre que não existe omissão, existe a covardia; outra grande virtude, que vem da ordem para amar a si mesmo. Os cidadãos que ficam em cima do muro são os maiores mentirosos. Existe a verdade e a mentira. Sempre que há ausência da verdade, há aí a mentira. A verdade não tem muro. O muro é todo construído sob a mentira. Logo, a omissão ferramenta é dela e, quem dela se usa, também está interessado no bem comum.

Deve-se ater ao fato que há também pessoas com diversos problemas psicológicos; traumas e complexos. Bipolaridade e síndrome de mimimi. Não se pode por causa do amor à verdade usar-se do mesmo para destruir a vida delas. Devemos, então, mentir muito pra garantir que alguns indivíduos não entrem, por exemplo, na amargura e no desespero, e sejam alistadas por grupos terroristas como o Estado Islâmico. Temos por obrigação trazê-las para o nosso meio de convivência, buscando a harmonia produzida pela mentira. Com o uso ininterrupto de milhares e até milhões delas. Inclusive aquelas de que não são loucos, burros e feios quando claramente são.

Culpabilizar a mentira é injustiça. Culpam-na pelas desgraças provocadas exclusivamente pelo próprio gênero humano. A mentira não tem culpa de nada, culpados são os que se usam dela pra causar danos ou ter proveito sob o prejuízo alheio. Ela em si é tão somente um veículo como em outro sentido o carro. Pelo que foi demonstrado nos exemplos anteriores, a mentira pode ser usada para o bem comum da convivência. É a matéria principal da verdade como virtude. Pode agir como estimulante e até freio pra maus comportamentos. Enfim, como todo o meio de transporte, é seu uso inapropriado o único responsável pelo dano causado.

Além disso, acredita na mentira o incapacitado que desconhece os sinais desse uso maléfico. Em suma, a pessoa que não descobriu os valores virtuosos da verdade pelo excesso de mentiras ditas. Se tais pessoas fossem especializadas na mentira, não reclamariam o dano a si pelos que fazem mau uso da mesma. Antes seriam capazes de melhor e maior identificação do verdadeiro mal: o mentiroso e o idiota que acredita nele. Isso também nos mostra que o principal problema não é a mentira, mas o uso dela para intentos nocivos, a maldade como objetivo último. A crença cega das pessoas em outras leva à existência do enganado. É a fé em exagero que deve ser responsabilizada.

Sobre esse último aspecto, é necessária uma ponderação conclusiva. Acreditar na mentira é o que de fato danifica. O crer é o dano. O prejuízo não é oriundo da mentira mas da fé do imbecilizado pela falta de experiência de que ela é a verdade. Logo, é a verdade que deve ser culpada juntamente com a crença. São essas que causam o dano, o prejuízo. A verdade não é clara o suficiente como verdade,por isso a mentira faz uso dela. O contrário é impossível. A mentira não pode ser ameaçada pela verdade, pois esta não sabe dissimular, fingir e enganar. É toda mumificada. Cheia de burocracia. A mentira é desenvolta, uma dançarina. E é incapaz de fazer mal, tanto que se ocorrer o inverso, alguém tomar a verdade pela mentira, esse alguém jamais será prejudicado.

E ainda que se pretenda a defesa, sob a evidente utilização de sofisma, de que é justamente a qualidade de engano da mentira que produz o produto maléfico, eu digo que não, pelo simples e evidente fato de que o único culpado é a fé do próprio que tomou pra si a mentira como se verdade fosse. O sofrimento deste não é resultado da mentira, mas da sua própria crendice inerente. E a cumplicidade do outro mentiroso sagaz que lançou a armadilha do mau uso de fazer a mentira parecer uma verdade por motivos outros que não o simples mentir para melhor convivência e/ou diversão. Todo o problema está no homem. Esse sim é quem merece a pecha de culpado em todos os sentidos. Responsável por fazer todos odiarem a tão maravilhosa e inescrupulosa mentira. Vide os políticos que acabaram com todas as virtudes dela. Até isso conseguiram destruir em nosso país. O homem aprendeu a maltratar a mentira pela verdade da mentira.

Isso se dá porque veem a verdade mentirosa e não a verdadeira mentira. Ela é a que não causa rupturas, malefícios e estresses, antes tem poder curativo e recreativo. Promove o bem comum nas relações e faz a vida ser menos penosa. A verdadeira mentira nunca faz mal a ninguém, pelo contrário, enquanto ela está dentro do seu universo do engano, faz com que todos se sintam bem e felizes. A desgraça ocorre precisamente quando a verdade mostra sua fuça odiosa. É a verdade a responsável pelos males creditados à mentira. Como se fosse uma espada penetrando nosso coração, e o que é pior, sem ser pelas costas. Quando não se espera o golpe é muito melhor. A falsidade é menos dolorida. Falar e fazer mal às pessoas é sempre aconselhável quando as pessoas não estão presentes. Traição, engano, furto, calúnia e difamação são produtos da mentira que não causam qualquer desconforto, a não ser quando a verdade aparece. Sem a verdade, todos seriam felizes, ninguém jamais sofreria. O problema não é e nunca foi o engano, mas o descobrir-se ele. Se não fossem tantas descobertas e intromissões da verdade, teríamos mais sorrisos, abraços, amor e até a paz.

Por isso precisamos urgentemente resgatar os valores da mentira. Contando verdades sobre ela. E se você acha que é fácil defender a mentira e fazer um elogio a ela usando a verdade para tanto, não passas de um analfabeto funcional. Pois defendi a mentira com várias outras mentiras, algumas meias-verdades e até invenções, porque ela pode se usar da verdade pra ser uma mentira de respeito. Que é parenta da teoria da relatividade. Eis sua última qualidade frente à verdade que só pode ser una. A mentira pode ser multíplice, diversa. Mintamos! Só assim um dia conseguiremos reconhecer a verdade, pelo amor e prática constante da mentira.

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7 comentários em “Provocações – Elogio da mentira

  1. Um texto brilhante e perfeito para a data! Tirando alguns excessos, confesso que vc me convenceu… (mentira? rsrsrsrs) Um forte abraço e meus sinceros parabéns! (verdade!)

    Curtido por 2 pessoas

  2. Fiquei pasma com esse texto, confesso, ainda estou. Contra-argumentar-te não será missão fácil, tentei fugir dessa posição por um tempo, porém dessa vez teve jeito não heheh (não é mentira não ein!) Incrível como sem planejarmos, veio bem a calhar a data… ^^
    E você ein Waldir, me saiu um belo mentiroso! hahhaha Osso duro de roer. Vamos trabalhar então! 😉 E, Meus parabéns!!!!!!!!!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigado, Mayara. Tenho plena convicção de que você fará ótima contra-argumentação, explodindo tanta mentira, he-he. Desejo apenas que esse “belo mentiroso” não seja prática mas observação, kkkkkkkkkk. Forte abraço, amiga, ótimo fim de semana. 😀

      Curtido por 1 pessoa

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