Crônicas

Sigmund Freud, o cheiro de cocô e o Brasil.

“O fator social, que cuida da posterior transformação do erotismo anal, mostra-se no fato de que, não obstante todos os progressos evolutivos do ser humano, dificilmente ele acha repulsivo o cheiro de suas próprias fezes, apenas o daquelas outras pessoas. Quem é sujo, isto é, quem não esconde os próprios excrementos, ofende o outro, não demonstra respeito por ele, o que também é configurado pelos mais fortes e mais usuais xingamentos…”

Digníssimo gênio, Sigmund Freud. Gostaria de dizer que seu “Mal estar” me foi de grande utilidade de limpeza para as necessidades comuns. Mas não tive coragem para tanto, pela clara rudeza do tipo de papel. Poderia eu me machucar seriamente. E isso seria um grande pecado. Já que ficaria impossibilitado de fazer algumas tarefas cotidianas como sentar-me para ler suas peripécias, por exemplo.

Preciso lhe comunicar que sua análise não vislumbrava o que se dá atualmente em minha pátria. Talvez você ainda não tenha sido avisado aí. Esse aí de maneira nenhuma quer significar inferno e diabo. Mas é aí, tão somente. Em algum lugar que desconheço. Ela, a análise, está com problemas vários. Primeiro, uma ressalva: creio que o “dificilmente” foi colocado por você ter sido alvo da esfoura em algum momento de sua vida. Ou em toda ela. Na sua biografia isso não está claro. Sobre o resto, você erra totalmente.

Há aqui uma verdadeira população cheirando as fezes alheias e achando normal. Pior, cheiram, procuram limpar e defender com “sólidos” argumentos os indivíduos que defecam em todos os lugares nos quais se assentam. Não há um único local em que não tenham obrado. E, em todos esses lugares onde se produziu essa quantidade industrial de detritos odiosos, há admiradores deles. Cheiradores fanáticos desses dejetos. Não xingam, pelo contrário, carregam folhetos com a foto dos meliantes e querem mesmo que todos cheirem e sintam o forte odor que emana dos traseiros de seus ícones como se perfume fosse. O que você diria disso? Certamente lhe fugiu algo tão profundamente bostífero, creio que devo ter deixado você estupefato.

Deve estar pensando, mas em público dessa maneira é ofensa. Deveriam se revoltar e xingar em massa. Como você diz, pelos mais fortes e mais usuais xingamentos. Alguns fazem isso, não nego. Talvez seja até a maioria. Mas isso é muito incerto e hipotético quanto aos reais objetivos. Pois a grande dúvida que se tem é se esses clamores não são para troca do cheiro de bosta pelo de merda. Como resolveremos tão grande dilema? Não há como. Vou tentar explicar a razão, acrescentando algo que você parece não ter percebido.

Ocorre que em alguns locais do mundo, diante de uma imensidão de cagadores, o cheiro de bosta torna-se parte da cultura. Parte da vida em comunidade e do ambiente. Ao irmos evoluindo progressivamente, vamos nos habituando a esse cheiro putrefato. Crescemos em meio a vários cagões públicos e notórios. Torna-se normal. O cheiro inodoro do ar ou agradável das flores não mais se deseja. O natural é o cheiro de bosta. E esta, quanto mais podre, mais nos conquista. Entendeu? Será possível que precisarei explicar duas vezes, Freud? Você não levou em consideração que em certas comunidades o cheiro de bosta se tornaria perfume pela rotina? Francamente, eu já o chamei de burro, agora não sei mais do que lhe chamar. Forte abraço, aí. Fique bem! Não se revolte, é a vida. Todos erramos, até você, grande gênio.

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14 comentários em “Sigmund Freud, o cheiro de cocô e o Brasil.

  1. Rarará! Genial e engraçadíssimo! Lá naquela parte, eles poderiam ter “pastosos argumentos”, se fossem fruto duma dieta rica em fibras. Mas como engolem as desculpas mais esfarrapadas com farinha, que tem efeito constipante, vc tem toda razão: eles têm “sólidos argumentos”, rs. Um forte abraço e muito obrigado pelas gargalhadas, meu caro amigo.

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    1. kkkk. Laércio, resta-nos rir. Aliás, perfeitas observações, principalmente a respeito da constipação. Que podem também produzir fedorentos gazes. aff. Deixo isso pra lá. Pois o pensamento também pode levar a se sentir cheiros. E, próximo do horário de almoço, isso não vai ser algo respeitoso. Vou acabar sendo xingando pelos mais fortes e usuais xingamentos, com razão. Forte abraço, amigo. Ótima tarde.

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    2. Laércio, você se supera a cada comentário que leio, essa da farinha matou, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, muito boa. gora já sei quando um político principalmente vier com “argumentos sólidos” ( coloquei entre aspas, pois não acredito que eles tenham) saberei que comem farinha. 😉

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  2. Crítica satírica e inteligente!
    No entanto, há duas considerações importantes a se fazer. A primeira delas, aproveitando Freud, é simples: cheira mal aquilo que hoje não foi devidamente escondido, pois, se oculto permanecesse, dificilmente irritaria, como raramente irritou, certos narizes. Nisso, a hipocrisia ainda impera – e somente “em público dessa maneira é ofensa”.
    A segunda: hábitos de higiene no Brasil colonial eram inexistentes, e a sensibilidade olfativa dos colonos estava longe daquela já existente na Europa. Do fim do século XVII ao XIX, o “cheiro”, e a percepção a ele, sofreram mudanças consideráveis. O que antes era aceitável, pouco a pouco tomou ares de puro repúdio. Nisso, fica a esperança proporcionada pela própria história (do Brasil, pelo menos), de que determinados cheiros não devem (tampouco deverão) ser aceitos.

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    1. Obrigado, Gustavo. As duas considerações vêm a acrescentar. No entanto, eu diria que a ocultação de odores é uma grande problemática para exemplificação prática. A meu ver, poderíamos até dizer isso de um outro sentido: o da visão. Contudo, concordo em um ponto. Poderia haver aí o uso de algum expediente da hipocrisia odorífera, proveniente, por exemplo, do uso de aromatizadores (jeitinho brasileiro), que melhoram o odor sem retirar o que causa o mau cheiro. Na segunda, o fator historiográfico do desenvolvimento do olfato nacional que você bem relata é de fato interessante, mas talvez aja aí um vício, contaminado pelo otimismo e esperança, que nosso “faro” foi ficando mais apurado e exigente. Diante dos acontecimentos históricos do século passado, e das multidões contrárias e a favor de algo nesse nosso século, poderíamos dizer que estamos a piorar, mas talvez aja aí outro vício, o do pessimismo. Interessante é que numa sátira dessa, possamos sair com tantas utilidades pela reflexão. Isso me deu até a ideia de algum dia contar a história do Brasil e até do mundo tendo como metodologia principal a evolução e a regressão pelo olfato aguçado ou não dos líderes e das massas. Será que isso seria único na história? Em todo o caso, compartilho da sua esperança. Quem sabe agora o cheiro produzido por tanto tempo de diarreia das mais horripilantes e tenebrosas se torne eternamente inaceitável? Abraço, amigo. Ótima tarde e noite.

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      1. Mas que idéia brilhante!!! Isso me lembrou que existe um livro intitulado “Aroma: a história cultural dos odores”, que fala sobre como evoluiu nosso olfato. Se não me falha a memória, esse livro diz que a história do Ocidente é a história da desodorização dos corpos. Estou citando de memória, pode haver falha aí, favor não levar ao pé da letra. Mas vá em frente, seria uma excelente pesquisa! Um forte abraço, meu caro amigo.

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