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Provocações – Descriminalização da Maconha

Esse texto faz parte da réplica ao texto primeiro produzido pela amiga Mayara K, do blog Devaneadora de Ideias. A explicação sobre esses debates encontra-se nesse link – Provocações – para efeito de clareza. Sugiro aos queridos leitores, também para efeito de clareza, a leitura do texto da escritora antes pra melhor compreensão deste como réplica. Agradeço a leitura e o carinho. Esperando ter produzido contra-argumentação que vá de encontro ao pensamento dos contrários à descriminalização do uso da maconha. 



Quase Toda a argumentação que clama pela descriminalização do uso da maconha é falácia, desonestidade intelectual e sofisma. Sempre se parte de meias verdades para convencer não inquirir. No texto “Descriminalização do uso da maconha”, a defensora demonstra isso logo no primeiro parágrafo, vejamos:

“Evidentemente pode-se observar que os métodos de repressão e marginalização dos usuários não estão sendo eficazes…”

Oras, claro está que tal frase é, no mínimo, indecente. Apelando não para discussão, mas para viciar completamente a proposição de um debate honesto. Explicando melhor, tem-se que os métodos são categorizados previamente de “repressão e marginalização”. Independente de ser favorável ou não à descriminalização, o que se vê é a tentativa de trazer para o debate os que sejam contrários em absoluta desvantagem.

Onde estão os fatores a provar que os métodos são de repressão e marginalização? Isso é opinião e não dados comprobatórios. Vê-se que o objetivo aqui é intimidar o processo da contra-argumentação. Disso se pode dizer novamente: é, no mínimo, indecência!

Partamos então para a verdade. Não há método de repressão. Há método de investigação. Não há método de marginalização, há método de autuação. Fumar maconha, por enquanto, é crime. Crimes precisam ser investigados pelas autoridades competentes. E se comprovados, precisam ser punidos na forma da lei. Ninguém está reprimindo ou marginalizando, simplesmente se está fazendo cumprir a lei, da qual somos todos obrigados. Dito isso, passemos para o vício seguinte, o da comparação. Extraio para tanto outro trecho do texto da escritora.

“Muitos países, inclusive de primeiro mundo, estão aos poucos vencendo as barreiras no que refere-se ao uso do THC (TetraHidroCannabinol) – princípio ativo da maconha – por possuir propriedades terapêuticas comprovadas por estudos.”

Aqui temos a clássica apelação aos outros países e à questão terapêutica. Nunca se usa nesse tipo de argumentação exemplos ruins. Se os há, a articulista irá mascará-los ou ocultá-los. Vai-se sempre apelar aos bons, aos países “de primeiro mundo”. Esse tipo de indução é abjeta por deixar de considerar que não somos “de primeiro mundo”, e que cada país tem identidade e prioridade próprias. Logo, no Brasil, há uma série de problemas urgentes que precisam ser resolvidos antes de discutir o fumar livremente um “baseado”. O uso de eufemismo é visível ao dizer que “aos poucos vencendo as barreiras no que refere-se ao uso..”.

O que deveria ser dito para o proveito da realidade é: tais países estão considerando que não é crime o que antes era. Estão suplantando leis. Estão destruindo a noção do certo e do errado. É isso a descriminalização. Mas a articulista procura infiltrar palavras para atenuar os sentidos, fazendo o leitor desavisado crer que usar drogas era direito certo: alguém é que impôs “barreiras” ao exercício universal garantido por lei também universal de se ficar completamente maconhado.

No mesmo parágrafo, há o clássico argumento de “todos fazem e farão de qualquer jeito”. Vejam abaixo:

O fato é que as pessoas querem usar ou necessitam do uso da maconha. E vão usar; seja crime, ou não.

Quando se lida com esse tipo de charlatanismo, o risco é enorme de fazer concordar até o cidadão contrário à descriminalização da maconha. Porque há uma meia verdade nele da qual é impossível discordar. Sim, as pessoas usarão a maconha entre outras drogas, sendo crime ou não. O erro está em fazer pensar que por causa disso devemos deixar de considerar crime. Para ficar mais claro, vamos aos exemplos.

Certas pessoas jamais deixarão de roubar. Certas pessoas jamais deixarão de matar. Disso se depreenderá que é melhor descriminalizar todos os tipos de crimes, e cada qual faça o que bem entender, porque é inútil criminalizar e punir comportamentos impossíveis de extinguir, correto? Dirá alguém não ser a mesma coisa. Eu digo ser a mesma coisa, sim. É a defesa de um crime partindo do pressuposto de que, não podendo evitar sua prática, melhor então é liberá-lo como se crime não fosse. Isso é de uma desonestidade tão grande que deveria ser presa por apologia ao crime a pessoa que se usa de tão sórdida tentativa.

No parágrafo seguinte, vai-se para o levantamento de questões que requerem amplo estudo. Todas colocadas de maneira superficial, para não dizer impostora. Fazendo com que os contrários precisem cair de cabeça por dias e dias em pesquisas sobre os mais diversos assuntos, enquanto a articulista não moveu uma palha, apenas joga tudo na cara sem qualquer consideração e comprovação. Vejamos:

“…gerando consequentemente situações de violência como já havia citado, além de corrupções, altos gastos governamentais e inibição por parte dos usuários na questão da saúde, afinal como vão pedir ajudar ou justificar o uso de uma droga ilícita..”

Observa-se o uso de três assuntos ligados ao uso da maconha complexos, todos eles tratados de maneira duvidosa. Situações de violência, corrupção, altos gastos governamentais deixariam de existir com a descriminalização? Eles existem por causa da criminalização? É isso? Onde estão os dados a comprovar que em países onde foi descriminalizado o uso da maconha houve diminuição da violência, corrupção e dos altos gastos governamentais? Não estão em lugar algum e, ainda que existam, certamente são produzidos por institutos suspeitos ligados ao ativismo. A articulista vai tentar dizer que pode provar, vejamos:

A experiência internacional dos países como EUA, Canadá, Austrália, Uruguai, dentre outros, comprovam que a legalização funciona. Ao todo são 20 países que descriminalizaram o uso da maconha. No Chile, por exemplo, que foi o primeiro país da América Latina a cultivar plantas da maconha para uso medicinal, teve como resultado mais de 200 mil pessoas beneficiadas; pacientes com os problemas oncológicos, epilepsia refratária, dores crônicas, tiveram um retorno positivo com o uso.

A defensora diz apenas que a experiência dos países com relação à descriminalização funciona. Mas não apresenta um único dado pra comprovar isso. Pior, há países como, por exemplo, o Uruguai que não faz sequer meia década que descriminalizou o uso. Como dizer que funciona? Funciona de qual modo, e como em tão pouco tempo para análise e coleta de dados? Ela não diz, parte para outro campo diverso para disfarçar a ausência de dados. Vai falar do Chile e do benefício da maconha para uso medicinal.

Isso é muito do que se usa na argumentação de fraude pela descriminalização. Fala-se de algo diverso do assunto como se fizesse parte. O que é que tem a ver o uso medicinal com o uso recreativo? Nada. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Estamos falando de doentes, maioria terminais, que precisam de algum tipo de apoio. Oras, quem é que quer ver alguém sofrendo? Ninguém a não ser psicopatas. Por mim, daria direito aos doentes terminais inclusive de usar heroína pra aliviar a dor. E continuaria sem nenhuma contradição permanecendo contrário à descriminalização da maconha e de todas as drogas.

Os ativistas se usam desse tipo de argumento para apelar ao emocional. Misturando completamente os dados e aplicações para proveito não de fazer pensar mas de convencer. Sempre fizeram isso. São, como disse, falácias levianas, produtos de logro.  Visam fugir da real discussão e disfarçar a incoerência. É sintomático. Dentro disso, também cabe o uso de importantes jornalistas, pensadores, políticos de renome ou coisa parecida para dar ênfase a como são boçais os contrários à descriminalização. Vejamos o uso da reportagem da revista The Economist:

Para finalizar, no mês passado, a revista britânica The Economist (uma das mais respeitadas do mundo) desenvolveu uma reportagem defendendo a legalização com a argumentação de que a mesma priva o crime organizado de sua grande fonte de recursos e, ao mesmo tempo, protege e torna os consumidores em cidadãos honestos;

Já que se usa de “uma das mais respeitadas revistas do mundo”, eu uso um dos mais respeitados profissionais de psiquiatria de nosso país. O psiquiatra Valentim Gentil Filho, professor da USP, esclareceu no programa Roda Viva, TV Cultura, que o consumo da maconha por adolescentes, apenas uma vez por semana, aumenta a chance de esquizofrenia em 310%. Esse tipo de dado seriíssimo não é ventilado pela grande imprensa. A maior parte das pessoas jamais fica sabendo dos riscos alarmantes que o consumo da maconha pode causar. Essa é só a ponta do Iceberg. Pois a maior parte dos viciados em drogas pesadas começa pela maconha. Ela é a porta de entrada pra todas as outras drogas. A afirmação de que vai tirar o poderio dos traficantes é errônea. Vai-se é fortalecer o tráfico. Traficantes adoram maconheiros, pois são os futuros consumidores das drogas mais caras como a cocaína, heroína e, por fim, o crack. A não ser que os defensores da descriminalização também defendam descriminalizar o uso de todas as drogas, é isso que querem?

Toda essa desinformação e ocultação por parte do ativismo, quando da defesa, traz enorme prejuízo ao debate. Outro exemplo de desonestidade é o do discurso de que a guerra às drogas fracassou. Mais uma mentira vergonhosa.

De que guerra estamos falando? É público e notório que a vigilância das nossas fronteiras inexiste. As autoridades policiais, por falta de logística, mal conseguem cuidar das apreensões ínfimas internas. Nunca houve guerra às drogas, ao tráfico. O que se vê, não raras vezes, é a absoluta conivência do poder público, pra não inferir participação… O combate às drogas precisa começar pelo controle ostensivo e efetivo das fronteiras. Quem não sabe disso? Esse é o ponto urgente. E jamais foi tratado com seriedade e profundidade que merece. É inútil apreender quantias, ainda que grandes, dentro do território enquanto jorra por todos os lados outras toneladas jamais apreendidas pela falta de fiscalização e controle das fronteiras. O Brasil é um país de proporções continentais. Para haver de fato o que se tem por guerra às drogas, seriam necessários investimentos gigantescos no controle e fiscalização do que entra e sai do país. Dos que entram e saem do país.

A título de exemplificação maior, há trânsito constante de aviões carregados de drogas que pousam em inúmeras pistas clandestinas de fazendas nos rincões do país. Não há qualquer fiscalização, vez ou outra, as autoridades conseguem localizar e inutilizá-los. Mas são atos esporádicos. Poucos para dar conta da demanda altíssima. Além disso, há milhares de “laranjas” carregando drogas dos mais diversos países e para os mais diversos países sem serem descobertos porque não há ou houve guerra às drogas. Isto é, o que chamam de fracasso eu chamo de inexistência. Como se espera vencer tal praga desistindo antes de tentar? Todas as autoridades políticas dos mais altos postos da república sabem exatamente por quais países a droga entra no Brasil. Inclusive o cidadão leigo. Estamos cansados de ver quem são os grandes produtores da América Latina.

Pra efeito de clareza, cito dois: Colômbia e Bolívia. Na Bolívia, o consumo da coca, por exemplo, é tão popular que motoristas de ônibus mascam a planta enquanto dirigem. Isso colhi de relatos de amigos que lá foram estudar. A verdade está na nossa cara, nua e crua, sem que se precise quase nenhum esforço ou uma única investigação para elucidar os produtores e países que se beneficiam da desgraça das pessoas pelo uso.

Falando do uso propriamente, a desintoxicação nunca foi levada a sério. Tratam-na sempre como algo penoso, dolorido, custoso e ponto final. Já em 2010, o candidato à presidência José Serra acusava o governo de então de não executar no mesmo ano nem 20% do orçamento antidroga. O governo dá pouca ou quase nenhuma assistência às clínicas de reabilitação. Não dá voto. Em uma reportagem recente do Correio Braziliense, foi feita a denúncia de que as clínicas de reabilitação do DF ficaram sem receber verbas do governo por três meses. O Portal Antidrogas também denunciou que o número de clínicas para recuperação de dependentes de crack são insuficientes . Com tantos problemas graves, falar de descriminalização de droga, seja maconha ou qualquer outra, é o cúmulo do absurdo.

Por incrível que possa parecer para alguns, são as igrejas as maiores responsáveis por salvar das drogas milhares e milhares todos os anos. Sem a Igreja Católica e projetos Maravilhosos como: “Fazenda Esperança”, além das Igrejas Protestantes com dezenas de projetos de reabilitação, provavelmente teríamos tido um colapso no país sem precedentes e até no mundo. Os casos em que se vê a mão das igrejas na recuperação de dependentes químicos é algo que deveria ser noticiado pela grande imprensa diariamente, inclusive para motivar as pessoas a ajudar. No entanto, preferem noticiar casos isolados, inclusive de países que nem são o Brasil, de pedofilia praticada por padres e enriquecimento ilícito de pastores… Cínicos e vagabundos é o que são. Inimigos das Igrejas, da sociedade e perseguidores das pessoas e instituições de bem.

Pra finalizar, recorro à conclusão absolutista da defensora, que diz:

“A descriminalização do uso da maconha já venceu.”

Você pode estar certa. A descriminalização do uso da maconha vai, mais cedo ou mais tarde, ocorrer pela força de financiados ativistas e políticos canalhas. Mas uma coisa é certa: eu, você e todo o resto não vencemos nada com isso, inclusive o tráfico, que será mais fortalecido. Se essa vitória se concretizar, tudo o que nos resta é gritar: perdemos! E que derrota…

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12 comentários em “Provocações – Descriminalização da Maconha

  1. Na boa, dois textos fenomenais… Para um neutro que lê ambos deixaria um conflito intenso de ideologia tamanha a eloquência de quem escreveu ambos. Parabéns ao blog Devaneadora de Ideias pela elucidação dos prós e parabéns ao blog WLD exilado pela réplica implacável.
    Elogio: Já estão prontos para serem colunistas do Carta Capital.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Obrigado, Felipe. Fico lisonjeado pelas suas palavras e concordo inteiramente com a parte da querida blogueira amiga. Sobre o implacável, desconfio que o fiz por não haver no modelo a treplica, rsrs. Acho que você foi irônico sobre a Carta Capital. Se não foi, respeito sua admiração pela revista mas, com respeito, declino dessa prontidão, hehe. Forte abraço, caro amigo.

      Curtido por 2 pessoas

  2. Palmas, palmas e mais palmas!
    Sua contra-argumentação ficou clara e muito bem fundamentada, Waldir. Concordo plenamente contigo, em especial quando diz que o uso medicinal não tem nada haver com o uso recreativo. Quem é a favor da descriminalização usa disso para induzir as pessoas ganhando-as pelo lado emocional. Perfeita sua leitura e visão de tal situação. Sim: se eles vencerem, no final das contas, estaremos todos perdendo.
    Meus parabéns por essa construção incrível. E, uma vez mais, muito obrigada pelo convite. Serei eternamente grata. Forte abraço, amigo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado eu por aceitar e ainda fazer o mais difícil. Fico extremamente grato por possibilitar esse exercício que a tempos vislumbro sem ter como fazer. Superou completamente minhas expectativas. Ansioso pelos próximos e, ao mesmo tempo, temeroso. Porque sua argumentação é dificílima de trabalhar contrariamente. Forte abraço, amiga. Off: Acho que não há como fazer um post defendendo o controle de spam do WP, né? Impossível, certamente!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Fiquei super feliz com o retorno positivo também, é muito gratificante. Que isso! Você tira de letra 😉
        obs: Só para constar eu fui a primeira a comentar, mas meu comentário foi pra caixa de spam!!! O Wp quis me sacanear, só pode! lkkkk. Sim amigo, impossível defendê-lo hahaha.
        Abração Wal! Novamente: Meus parabéns!

        Curtido por 1 pessoa

  3. Já comentei lá no blog da Mayara e agora venho aqui deixar minha opinião sobre esses textos. Adorei a parceria de vocês dois, e como era de se esperar os textos foram ótimos, com argumentos fortes e precisos. Quase a Mayara me convence a ser a favor da legalização, mas o seu texto reforçou ainda mais a minha opinião sobre o assunto. Muito bom, gente! Continuem! Vou ler todas essas provocações, vocês são demais!
    Abraço! ❤

    Curtido por 2 pessoas

    1. Muito obrigado, querida Joy. 😀 suas palavras representam muito. Um impulso gigantesco. Além do fato de criar ainda mais desejo em abordar temáticas semelhantes com seriedade. Abraço. Excelente noite.

      Curtido por 2 pessoas

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