Artigos · Política

Momento político se assemelha a briga de gangues

Se há algo de bom em toda essa troca de acusações, denúncias e delações, premiadas ou não, é a produção cada vez maior da transparência para que o povo brasileiro veja com clareza quem o governa. As tentativas de inocentar as próprias peles estão menos para quem é mais íntegro que para quem é menos aético. Suspeito que fosse possível, com um pouco de tempo, perseverança e boa vontade, que o poder de polícia pudesse prender quase todos os envolvidos na atual crise política, senão todos. Se fosse ingênuo e cego aos acordos e tentativas deles que se proliferam. É tudo realmente vergonhoso demais, triste mesmo.

Triste porque isso se espalha; não fica restrito à Brasília. Chovem denúncias por todo o país de mal uso do dinheiro público. Propinas em licitações das mais variadas. Nepotismo. Corrupção passiva e ativa. Enfim, todos os crimes nomeados e ainda por nomear. E o pior: quando esses crimes começam a ser investigados, a impressão clara que se tem é a junção de detritos formando uma montanha que tenta entrar por debaixo de tapetes, ficando estes com um formato bisonho e desigual. Conclusões apressadas são tomadas e com foco em pessoas que devem menos que outras e por isso mesmo ainda servem melhor de papel higiênico. Os famosos bodes expiatórios, cujo sangue não serve por conta de sua notória impureza. São, na verdade, raposas expiatórias.

Parece haver disputas do tipo: Eu roubei, mas você roubou mais! Quando os danos estão próximos demais, eis que se discutem os que a imprensa chama acordos. O seu nome real é conspiração. Conspiração visando a produção da pizza à brasileira. – Você para de me acusar do que fiz e faço e eu paro de produzir provas do que você fez e faz. É trágica nossa situação. A economia deseja que as turbulências políticas cessem. Para tanto, dá a sensação de que a trégua era simples: o roubo equilibrado. Foi até ventilado que toda a crise foi produzida porque alguém não pagou a propina devida. E ameaçou colocar todos os pingos nos is. Culpado! Inclusive pela economia. Afinal, será que o puritano não percebe que o país pára se os beneficiários não recebem seus benefícios devidos. O motor que faz o país se movimentar é sustentado pelo combustível do roubo e do saque. Sem isso, nada acontece. É o que a situação demonstra ou quer demonstrar. Isto é, se acreditássemos que alguém se negou pagar e ameaçou denunciar pela sua ética. O mais provável é que tenha ofertado valor menor. É a crise, faz diminuir até o lucro do roubo.

Nesse ínterim, a situação, temendo perder o poder, passa a gritar: golpe! Golpistas! E não estão de todo errados, pois conhecem muito bem do assunto. Alguns foram acusados de explodirem até gente a algumas décadas. Sequestravam pessoas e até aviões. Fizeram mestrado e doutorado em Cuba e em outros países absurdamente democráticos. E eles mesmos acabam por dar testemunho favorável à ditadura. Se fosse, realmente, estariam mortos. Ou alguém duvida que se tivesse existido um Saddam brasileiro não teria feito? Os oposicionistas se assustam com esses gritos que ecoam rapidamente pela grande imprensa, que tem horror a golpes dos quais ela não faz parte ou não foi avisada antecipadamente. E os oposicionistas ficam num dilema inquietante: Se tomarmos, o país está quebrado. Se não tomarmos, pode quebrar ainda mais, de maneira irreversível. Se tomarmos, podemos chamar toda a impopularidade dos companheiros e elegermos eles de volta em 2018. Se não tomarmos, podemos ver a impopularidade crescer pela inação e covardia como oposição insignificante que temos sido desde muito. Mas, se tomarmos enfim, os nossos também têm produto para ser acusados dos mais diversos crimes por décadas a fio. Isso se eles não passarem também a inventar outros que não fizemos.

Tais passos de xadrez demonstram o evidente, o elementar: isso é uma briga de gangues, que foram alçadas à condição de monarcas. Qualquer brasileiro que ouse defender um ou outro provavelmente não está buscando o melhor para o país, nem poderia, mas o menos pior. E a rede de impropérios nem pode ser mais disfarçada. Eles se ameaçam abertamente. Dizem exatamente a que tipo de serviço se prestarão se caírem, e os outros, quando se lançarem. E são sinceros quando ameaçam tacar fogo no país. Pobre o povo brasileiro! Os peões. Que foram retirados da tábua com enorme facilidade, e o que restou foi observar como peça descartada do jogo os passos das torres, cavalos, bispos, reis e rainhas. Resignado. Pensando sempre a mesma coisa: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come; enquanto canta com Zé:

“É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber…”

Publicado em: 17/10/2015
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8 comentários em “Momento político se assemelha a briga de gangues

  1. Caramba, é um texto tão brilhante, tão completo – e tão oportuno (embora seja republicação – pra vc ver como não avançamos nada, triste sina a nossa, e não é de hoje) -, que nem sei por onde começar. É um quadro desalentador. Republicar isso é cumprir com seu dever cívico (ainda estou em dívida com o meu; pretendo saldá-lo parcialmente depois de amanhã).
    Vou me ater ao “medinho” da oposição, que podemos atribuir mais diretamente ao PSDB, faz dela praticamente cúmplice da situação que vivemos. Esse “medinho” tem também relação com o fato de que ela, candidamente (mas não vacarezzamente), sempre pauta seus atos pelas ameaças da outra trincheira. Quanto a assumir o ônus do ajuste fiscal, que os populistas não fizeram, de fato, é um dilema. Porque pode estender o tapete – vermelho – para que eles voltem, com aquele estilo messiânico de sempre. Um forte abraço, caro amigo, e parabéns pelo seu incisivo artigo, merecedor de aplausos.

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  2. Amigo o texto é ótimo, porém não vejo o povo como coitadinho muito pelo contrário, a culpa é nossa. Deixarei aqui um pedaço que passou pela censura pois o poema não postarei.

    “(…)E quem diria minha gente na lista entra também presidente,
    Mas ficam furiosos,
    Quando a gente vê e aponta,
    E mandam vir prender,
    Pela raiva ou por conta,
    Todo mundo deve pra alguém,
    É um rodízio de favores,
    Num país de salafrários,
    Onde vivemos com os horrores,
    Não adianta reclamar,
    Passeata nem se tenta,
    Quem elegeu a guerrilheira para ser a presidenta?” (por Cláudio El-Jabel)

    Abraços! 🙂

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    1. Você está certo. E eu também não vejo o povo como coitadinho também, caro amigo. Eu acho que há aí o fator da cumplicidade. Até em atos banais que se assemelham e muito ao comportamento dos políticos. O tal jeitinho nacional, que me é nocivo, sempre visa a “esperteza” do brasileiro em prol da injustiça. Pelo menos é assim que vejo. E quem elege tantos honoráveis bandidos, como nomeado pelo livro do Palmério Dória, é o povo. Às vezes, nem sempre , podendo fazer escolhas melhores. A verdade, seguindo o raciocínio, o país todo com seu povo precisa de uma dedetização, um banho, uma limpeza, um esfregão pra fazer matar a canalhice, a vigarice, a safadeza e passarmos a ser gente que procura cuidar da gente. Abraço, caro amigo. Ótimo fim de semana.

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