Artigos · Opinião

Paixão Nacional

Sempre admirei mulheres normais, naturais, saudáveis. O establishment parece ser contrário a isso e gosta das magérrimas, para lhes cair melhor os tecidos. Não sei a causa disso, dizem vestir melhor, como se a pessoa tivesse que caber na roupa e não o contrário. No oposto, estão os brasileiros em maioria e sua adoração pelos exageros. Quanto mais gigantes forem as bundas femininas, tanto mais se abrem os olhos babosos masculinos.

Esse fenômeno das bundas arrobadas não faz parte da natureza das brasileiras, no geral. É claro que é conhecido nas brasileiras formas avantajadas nesse litoral do corpo. Mas nem é regra e não chega aos absurdos propostos pelo que deseja o olhar exacerbado dos espectadores nativos.

Encontrar as razões para tal volúpia deve ser trabalhoso. Até por ser característica nacional. Lá nos “States”, o fenômeno é o dos seios. Filosoficamente, não seria absurdo supor que o brasileiro gosta de observar o que é traseiro, esgueirado, sem que o observado possa notar. Pode ser uma das características do jeitinho nacional, aqui se rouba de tudo, até imagens das transeuntes poupanças. Dessa forma, poderia ser suposta a hipótese de ser essa observação parte de uma natureza traiçoeira. Da tocaia. A bunda e a carteira.

Uma hipótese não menos sucinta faria imaginarmos que é a cegueira a produzir tal efeito. Incapacitados que estão de ver a beleza nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, sempre precisarão de grandiosos efeitos, ainda que não se possa suster o peso ou ver a totalidade das dimensões, quiçá achar utilidade nesses gigantescos do orgulho nacional. Que, na vida prática, só farão aumentar o tamanho das privadas e dos assentos dos transportes públicos. Seria outra característica nacional, a de desejar e objetivar sempre o inútil. Estudando o assunto a fundo, a conclusão pode ser risível, aumento de trânsito. Até mesmo aumento dos valores dos bilhetes e dos assentos dos veículos.

Fisiológica e socialmente, temos a utilidade da evacuação e do sentar-se. Inspirado no exemplo, é compreensível que os americanos admirem um atributo feminino digno de elogio. Afinal, os seios vêm sustentando a humanidade há milênios, desde os seus mais infantes passos. Enquanto que não é compreensível nesse ponto de vista a admiração tupiniquim de um atributo que serve para a mais ignominiosa tarefa corporal. Além de dar ao preguiçoso a sua adorada tarefa, sentar e não fazer nada. Isso pode querer dizer algo.

Curiosamente, o termo “bundão” é tido como um elogio e também xingamento em nosso Brasil. Isso faz menos sentido ainda, no que concerne à crítica, já que o bundão elogiado é tido como a oitava maravilha nacional, enquanto o xingado é desprezível. O sujeito bundão é aquele, pelo menos que eu saiba, pouco corajoso, fofoqueiro, mentiroso e deveras preguiçoso. Pior que isso, não sei se há. Como disse, é curioso que se use uma palavra para dar o ar mais imerso de admiração entre amigos e, ao mesmo tempo, ser a expressão que designa o cidadão mais detestável.

“Artisticamente”, há uma imensa vantagem em ter uma lua atrás de si em território tupiniquim. O sucesso é medido na exibição desenfreada desse atributo feminino. Há concursos para determinar qual o melhor bumbum. Concursos que chegam a fazer sucesso internacional. Raramente se sabe quem é a candidata senão pela bunda. E há especialistas nessa área para determinar finalistas e ganhadoras. Não vale trapacear, tem que ter nascido com um grandão ao natural, com características louváveis, como: solidez, maciez, brilho, graça entre outras. E isso tem motivado as acadêmias a inventarem tantos exercícios para aumentar e solidificar traseiros que é impossível contar.

Às outras mulheres que não tiveram o privilégio de nascer com essa grandiosidade no país sobra o bullying. É comum ver críticas fortes, tais como: tábua de passar entre outras depreciações. São acusadas injustamente de não terem uma bundona, como se fossem aleijadas. Ainda que a mulher seja lindíssima, se não tiver um bundão nas condições exigidas pelo paradigma, terá que dar um jeito de simular com sua roupa ou recorrer aos sacos de gel, nas clínicas que colocam silicone. Ou, então, passar a ser vista como alguém com defeito.

Particularmente, acho horrível tudo isso. E não sei se a mulher que reflete gosta de tê-lo, se o tem em exagero. Ainda assim, o exagerado natural sempre ganha do artificial. No artificial, guardadas as proporções da simetria corporal, vejo falta de combinação. Como alguém vestido de terno e gravata calçando havaianas. Sou admirador dos equilíbrios, qualquer coisa que fuja a essa regra me decepciona. Se é pra ser grande, que seja no todo. Mesma coisa para o que é diminuído. Talvez essa seja a compreensão final sobre a mente admiradora de melanciosos derrières. Isto é, no Brasil, admite-se sempre o que é desigual, desproporcional e feio. Pensando ser maravilhoso, útil e ideal. É o país dos adoradores das bundas grandes e dos cérebros minúsculos.

Publicado em: 03/09/2015
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8 comentários em “Paixão Nacional

  1. ssr…por falar em bunda, cheguei……kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…….então… acho as mulheres brasileiríssimas lindas, em especial as morenas como eu. Sssr e embora eu seja uma dessas frequentadoras de academia para vestir a calça GG e travar a barriga, acho feio estilo paniquetes ou fisiculturistas. Concordo com você que o equlíbrio é que é bacana. Não adianta ser “Raimunda” né, “feia de cara e boa de bunda”. Sinceramente eu acho aquelas mulheres altas e magras de passarelas perfeitas fisicamente falando, embora saiba que muitas fazem verdadeiros sacrifícios para isso…. eu vejo muito homem falando que não gosta de “osso” e preferem as mais cheinhas, o que duvido. Homem que é homem gosta de mulher e ponto. Entendo que cada mulher tem seu valor independente do padrão estipulado da sociedade, no entanto quando você encontrar uma mulher que não tenha vaidade alguma ou não se incomoda com o seio caído, a celulite e a estria, que não se depila ou faz as unhas, pode saber que tem algo de muito errado com a autoestima dela. bju

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    1. Boa noite ou já boa madrugada, Abá. Os padrões impostos não fazem muito sentido. Que eu lembre, quando da construção desse texto, tentava fazer um paralelo nessa fixação pelo bumbum. Não acho que tenha conseguido. Provavelmente foi algo incorporado ao imaginário masculino nacional por fatores até agora desconhecidos. Amplificado pela música nacional pornô como o axé, pagode etc. A Bunda é mais uma identidade nacional, tão valorizada como o futebol e o Carnaval. O cu é simbolo nacional. Embora cu e bunda estejam anatomicamente em locais distintos, o cu está na bunda. Assim como o Brasil está na merda. Combinação perfeita.

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  2. Meu caro, isso é um verdadeiro – e abundante – ensaio antropológico! Pelo menos, assim vejo as suas especulações – brilhantes! – sobre a origem/motivação da, digamos, “pigiafilia” nacional. Ah, se o Roberto Damatta lesse seu artigo…
    Acho que foi sem querer (ou não foi?), mas o trecho “Estudando o assunto a fundo” me fez dar gargalhadas aqui, bem alto (o pessoal já foi embora mesmo).

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      1. Meu caro, pergunto a sério: vc já pensou em estudar antropologia? Esse seu texto é digno de um verdadeiro antropólogo!
        Muita gente torce o nariz para a antropologia, pensando só naqueles estudos de Lévi-Strauss sobre índios etc. e tal. Tudo bem, aquilo é chato (é interessante só para os “iniciados”). Mas antropologia também tem estudos muito interessantes e empolgantes para nós leigos, que versam sobre o nosso dia-a-dia urbano. O Roberto Damatta vai por essa linha. São dele, p.ex., os estudos sobre o “jeitinho” e sobre o “vc sabe com quem está falando”. O antropólogo verifica esses fenômenos na sociedade, observa a existência de um padrão e os destaca dos demais, dedicando-lhes a atenção devida. Pois é justamente o que vc fez aqui, ao especular sobre as causas da nossa “paixão nacional”. O Damatta ficaria contente, vai por mim. (Ou não, se ficasse com inveja, rsrs.)

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        1. Caro Laércio, fico lisonjeado e feliz. E grato pelo direcionamento. Dia desses, estava formatando uma ideia sobre a clientela brasileira e a máxima: O cliente sempre tem razão. E pensei o cliente tem razão coisa nenhuma. O cliente tem é desejo de ser um membro da realeza do século XVIII. Infelizmente, por diversos motivos, não pude ir adiante. Daqueles textos que você mencionou, os que nunca terminamos. Em suma, nunca pensei. Mas agora passo a pensar melhor, pois sei que a “dica” é pra que o alvo seja de fato atingido sem direito à defesa. Abraço, amigo.

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