Artigos · Opinião · Religião

Ateu não mata em nome do ateísmo? (Republicação)

Recentemente, por curiosidade, estava lendo um artigo de um ateu dos ativistas sobre a religião em si. É vulgar e já sei disso há algum tempo, que vários são os ateus propensos a ter uma visão da religião cristã como igual as outras. É a partir dessa concepção errônea – afinal, difícil é achar um lugar aos ateus sem ser numa sociedade majoritariamente cristã, que surgem diversos preconceitos e até, porque não dizer, injustiças. Os clichês foram vários nesse texto. No entanto, percebi também ódio, que pode ter sido produzido por algum trauma proveniente do que achou ser cristianismo, e não era nada senão intolerância.

Seguiram-se discussões acerca da religião e seus males práticos e teóricos. Como praticamente todos os seus leitores eram também ateus, a zombaria, o escárnio e a vanglória prevaleceram de ponta a ponta. Coisas comuns que todos os cristãos já conhecem, vociferadas com fúria e soberba. “Os cristãos buscam apoio em seres imaginários. Os cristãos têm medo da morte e por isso se invalidam em templos. Os cristãos são os responsáveis, junto com outros religiosos, por milhões e milhões de mortos nos mais variados conflitos. Os cristãos são em maioria burros, ignorantes e gostam de fantasias. Os cristãos são atrasados e atrapalham o desenvolvimento da ciência e afins.”

Por trás de todos esses preconceitos, daqueles que desprezam o alheio somente por não terem conseguido atingir o mesmo nível de consciência transcendente, estava o ar característico da superioridade, da empáfia, da jactância desproporcional, as mesmas características desprezíveis que acusam transbordantes nos cristãos. Agindo como se os ateus não precisassem de apoio; como se o que chamam ser racional os tivesse milagrosamente despido-os da necessidade de obter socorro. Como se não tivessem medo da morte, seja sua ou daqueles que ama. Como se ateus históricos não tivessem sido responsáveis por milhões e milhões de mortes, intrigas e genocídios que fizeram parecer as guerras religiosas coisas de criança. Como se apenas a condição de ateu desse ao ser a inteligência, e a incapacidade de ter respostas a perguntas milenares simplesmente tivesse evaporado por conta de seu ateísmo. E como se o ateísmo tivesse realmente alguma vez contribuído para desenvolver algo de bom para a sociedade, algo que nunca foi visto na história da humanidade. Ou que fosse digno de nota.

Mas a infantilidade do pensamento que ainda não tinha chamado minha atenção completamente nesses textos ateus, ao menos não como deveria, é sobre a prática de crimes. E no clichê que acompanha o pensamento ateu, inclusive na mente dos considerados estudiosos e intelectuais ateus, de que nenhum ateu matou em nome do ateísmo. E que isso por si só faria o ateísmo ser superior a todas as religiões existentes. Tal pensamento demonstra o nível não só da desonestidade intelectual e infantilidade grotesca que ronda o ateísmo militante, mas também a incapacidade característica no ateísmo de identificar correlações entre atos e o que os leva a existirem, primordialmente. Ao que parece, isso é irreversível. Praticamente uma doença sem cura.

O que deliberadamente no ateísmo não se quer enxergar é que matar em nome de Deus ou deuses não é nada diferente ou maior em números do que apenas matar sem nomenclatura. Há aí o assassino e a vítima, inocente ou não. Para alguns assassinos contemporâneos que mataram em “nome de Deus”, não acreditando em Deus (se é que alguma vez acreditaram), matariam em nome de si mesmos, certamente. Ou se fossem contabilizadas as pessoas que apenas foram assassinadas, sem qualquer menção de prováveis transcendências, teríamos um número infinitamente superior ao de todas as guerras e conflitos religiosos desde que o mundo é mundo, isso considerando alguns meses do século passado. Que, diga-se de passagem, foi o século mais ateu da história da humanidade, no sentido de que foi na própria visão do ateísmo o século do “racionalismo e do científico sem precedentes”. E o que diz exatamente o ateu condicionado ao pensamento de que a religião é o mal maior? Que nenhum ateu mata em nome do ateísmo.

Mas há um enorme equívoco nesse tipo de raciocínio. Pois, como diz o próprio ateu, ateísmo é apenas a condição de não acreditar em Deus ou deuses. Como poderia alguém matar em nome daquilo que não tem nome? Esse pensamento é vicioso, deveras ridículo, pois tenta esconder um princípio elementar. Que, obviamente, não há ninguém que possa matar em nome do ateísmo, já que o ateísmo não é um nome, um ser, mas uma ideia e de negação, isto é a ausência da ideia alheia tida como certa. Isso desvia o ateu escorregadio e o religioso estupidificado pela retórica ateísta com sucesso do verdadeiro questionamento, que é: Quantas foram as pessoas que mataram outras porque não acreditavam em Deus? Afinal, se o ateísmo tivesse um nome, seria este: não crer em Deus. Isso seria honesto e equipararia o ateísmo ao teísmo em matéria de responsabilidades perante a sociedade com relação aos seus crimes, que não são poucos. E a expressão costumeira “matar em nome de Deus” não encontra paralelo na premissa ateísta de matar em nome do ateísmo, mas em “matar por ausência da fé em Deus”. Dados esses fatos reais e acredito inquestionáveis, parte-se para a comparação. Difícil será achar algum ateu que aceite o debate mediante essas prerrogativas. Fugirá, certamente. Tendo em vista o tamanho do problema que encontrou.

Tal é o problema que, se eu também usasse de um pouco de desonestidade, poderia atribuir todos os assassinatos e injustiças da história do mundo a ausência de fé em Deus, prioritariamente. E o que seria ainda pior para o ateísmo, não sendo desonesto, eu poderia inferir corretamente que milhões de assassinatos deixaram de acontecer porque simplesmente as pessoas não eram ateias, ou deixaram de ser depois de um arrependimento por haverem matado quando eram ateias, e que continuariam a matar não fosse a conversão. E ainda há vários outros questionamentos que desencadeariam diversas outras investigações necessárias. Afinal, que é mais fácil: ser adúltero e ateu ou adúltero e cristão? Ser sonegador e ateu ou sonegador e cristão? Ser assassino e ateu ou assassino e cristão? A qual desses seria mais difícil ou fácil cometer um crime, ao ateu ou ao cristão? Por incrível que possa parecer, alguns ateus responderam esses questionamentos contra si mesmos. Vejamos.

Ainda que não se acredite em Deus, ainda que se ache a religião cristã algo estúpido e atrasado, vários foram os ateus que afirmaram que para certas pessoas a religião cristã é boa por colocar um freio no comportamento maligno ou antissocial de alguns mediante a ameaça do inferno. Quando o ateu diz isso, parece esquecer-se que está falando contra seu próprio grupo, isto é, que se alguns homens que são religiosos não o fossem, se fossem ateus, teriam maior probabilidade de matar, roubar, estuprar etc. Em suma: se muitos religiosos fossem ateus, fariam maldades por estarem livres da ameaça do inferno. Não fazem porque são religiosos e têm medo do inferno, da ira de Deus. Ao mesmo tempo em que o ateu defende que a religião é um mal e que precisa ser erradicada, sem perceber, considera o ateísmo em massa algo muito pior, pois não teria absolutamente nada no ateísmo que pudesse frear a psicopatia humana. Por que, então, luta contra é uma boa questão.

Eu, “como um ser retrógrado para o ateísmo”, fico imaginando o quão contraditório é em tudo o ateísmo. O quão desonesto consegue ser quando fala sobre o cristianismo. Ao formular o paralelo inexistente, que nenhum ateu mata em nome do ateísmo, esqueceu-se, de propósito ou não, que o ateu não pode matar em nome do ateísmo, mas que alguém pode muito bem matar por não crer em Deus, e esse por si só ser um motivo e motivação: o ateísmo dentro de si. E que para a média da ignorância humana, é muito difícil alguém desferir um golpe de machado na cabeça do seu semelhante crendo no Deus dos cristãos e, principalmente, no inferno eterno, mas não se pode dizer o mesmo se Deus e o inferno desaparecerem de sua mente, ainda que seja por cinco ou seis segundos. E quem diz isso são centenas de ateus, não eu.

Mas posso sublinhar tal pensamento. Pois eu mesmo, infelizmente, conheci diversos irmãos da fé que de maneira constante se expressaram de maneira perigosa quando supunham a ausência da fé em Deus. Alguns diziam: se não fosse cristão, encheria esse sujeito de porrada. Ou: sairia com todas essas mulheres, mesmo sendo casado. O que, trocando as palavras sem trocar o sentido, equivaleria dizer: se eu fosse ateu, espancaria pessoas e adulteraria de montão. Levando-me a crer que apesar da ruim religião de muitas pessoas, ela ainda se configura para as mesmas pessoas problemáticas opção mais ordeira que o melhor tipo de ateísmo. Por isso mesmo, sinceramente, eu acho difícil, pra não dizer impossível, para qualquer ateu provar que existe diferença entre matar ou fazer o mal em nome do ateísmo e matar por não acreditar em Deus e no inferno. Enquanto não consegue isso, ficará sempre apontando o dedo ao religioso, como já notou o popular: apontando o resto contra si.

Publicado em: 26/09/2015
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s