Crônicas

Meu velho

velho

Pai, cadê o Senhor, Meu Velho? Estará triste com esse teu filho? Sei que pensa em mim. Sei que fez o seu melhor. O seu melhor não foi o melhor. Sinto dizer isso, mas não foi. Não é pelo seu exemplo, não é na sua vida toda bagunçada que me espelho. Não, Meu Velho. Não busco em ti o conselho que sei que não me dará bem. Depois de algum tempo aprendi que você era só mais um homem, cheio de defeitos, de problemas, de vícios e de assuntos não resolvidos. Sua vida foi grotesca, sim. Uma verdadeira catástrofe de todos os ângulos que se olha. Muitas vezes foi violento, irascivo e tempestuoso. Mas à medida que minha vida avança para a sepultura, um pouco mais lenta que a sua, vejo agora o quanto de você tem em mim. Somos faces de uma mesma moeda. A sua tem mais erros por ter mais tempo. Só isso.

Pai, cadê o Senhor, Meu Velho? Sente a minha falta? Sei que finge que não. Eu também fingi e finjo. Mas sinto ela todos os dias. Sinto falta da sua gargalhada, do seu deboche. Das suas palhaçadas. Sinto falta do seu abraço e dos seus beijos. Sinto falta até do seu mau humor. Sinto falta do Senhor, Meu Pai. Sem um defeito a menos, com nenhum a mais. O Completo Incompleto que é o Senhor que sempre me completou. Sinto falta de quando me carregava nos ombros, de como me jogava no rio e mergulhava junto. Sinto falta de ver o quão ridículo era o Senhor jogando futebol comigo. Sinto falta de como me abraçava por causa de um simples machucado passando a mão em minha cabeça e beijando ela sem parar até que eu parasse de chorar e dormisse. Sinto falta de andar de mãos dadas contigo no meio da rua. Sinto falto de sentar ao seu lado no ônibus e cochilar no seu colo enquanto passava carinhosamente sua mão pelos meus cabelos. Sinto falta de quando ouvia aquelas músicas sertanejas horríveis que me deixavam envergonhado, e que agora ouço com lágrimas nos olhos.

Pai, cadê o Senhor, Meu Velho? Por onde anda o Senhor? Estou triste, meu velho. Triste, meu velho. Queria que estivesse aqui. Sentir o teu abraço. Dói, meu velho. Dói pra caramba. Dói saber que dia menos dia posso saber que o Senhor se foi pra sua eterna morada sem que eu tenha dito o quanto te amo, meu velho. Sem que eu tenha dito, meu velho. Pai, eu te amo! Eu te amarei sempre. Perdoa-me, meu velho. Perdoa esse seu filho todo bagunçado. Não me peça perdão, eu já te perdoei. Hoje, meu velho, eu pensei em nós e chorei. Chorei como uma criança. E não tinha seu peito para apoiar minha cabeça, meu velho. Mesmo com essa idade, gostaria de botar minha cabeça no teu peito, nesse velho peito, pra sentir-me de novo protegido do mal. Pra sentir a segurança de um forte guerreiro que o Senhor sempre foi. Tá doendo aí também né, meu velho? Eu sei que está. Somos ligados pela alma. Dói aí e também dói aqui. Chora aí, meu querido pai, que eu choro aqui. Está chovendo, Pai. Fantasiei aqui que os céus também choram junto conosco. Que Deus te proteja, meu velho. Que Deus permita ver-te outra vez. Que o SENHOR tenha misericórdia de ti e de mim. E nos faça chorar de novo, de alegria. Acredite, meu Pai. Que eu acreditarei aqui.

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