Crônicas · Série

Eventual – Dona Casmurra

eventual

Eventual – Apresentação

Eventual – Entradas

Eventual – Um eu não eventual

Eventual – O garoto pensa e fala

Eventual – Sugar Daddy

Eventual – Eventual Efetiva


 

Desde muito cedo vivo com um livro na mão e muitos outros na cabeça. Amo ler. É tudo o que sei sobre viver. Entrar nas histórias dos personagens, sentir o que eles sentem. Beijar como beijam; fazer amor como fazem. Ah, se eu pudesse entrar de vez! Viver naqueles mundos, falar aquelas falas. Ser uma princesa, uma heroína, uma rainha ou até uma adúltera. Seria maravilhoso. Seria único! E eu poderia sair de vez desse tédio que é a minha vida.

Mas nem tudo são flores. Há alguns livros que odeio, odeio! Queria queima-los em praça pública. Um deles é Dom Casmurro. Que porcaria! Eu não tive a resposta. Nunca tive e ninguém teve. Se Machado fosse vivo, eu o mataria. Onde já se viu… Deixar o leitor sem compreender. Imaginando pelos séculos dos séculos sem jamais saber se era ou não imaginação? Eu gosto de saber de tudo. Tudo. E gosto de falar depois pra alguém sobre tudo o que eu soube. Não pra prejudicar… Mas em favor da verdade.

Aqui mesmo na Biblioteca da escola, eu sempre sei de tudo. E devo falar pra diretora sobre o que acontece. O que pegam e destroem. Eu tenho ciúmes dos livros. E se voltam de algum jeito violados, fico possessa. Quase grudei no pescoço de um aluno esses dias. Entregou Dom Quixote Capa Dura totalmente borrado de café. Um tal de Waldir. A sorte dele é que era bonitinho e educado. Prontificou-se a comprar outro. E conversou comigo sobre a obra. Geralmente, os alunos nunca me enxergam. Nem conversam comigo. Falei que eu sou baixinha? Tenho os dentes tortos? Sou intransigente? Bocuda? Que não tenho delicadeza? Que não sou muito feminina? Acho que é por isso. Mas ele conversou comigo. Sorriu. Até perguntou meu nome. Ah, que fofo! Depois disso, eu até esqueci o livro. Eu mesma iria repor pra ele. Queria até presentear ele com um.

Mas nem tudo são flores. Tenho convivido com a Professora Vivian. Antipática. Pisa alto. Chega aqui e sente-se dona. Uma déspota. Olha-me sempre com descaso. Nem me cumprimenta. Pede-me livros e mais livros e quer tudo rápido. Eu sei onde estão, mas por causa da arrogância dela, finjo procurar. Demoro, só pra devolver a raiva. Mas ela já percebeu. É inteligente demais. E me xinga. Ordena, ameaça. Tenho que lhe dar. Ah, se eu pudesse me vingar!

Só que ela é do tipo que parece conseguir tudo o que quer. Por isso desisto. Ela é tão bonita. Aqueles cabelos curtos. Aquelas roupas todas combinando. Aqueles pezinhos tão bem cuidados. Ah, que inveja! Ah, se eu pudesse me vingar! Mas tenho medo de perder o emprego. Gosto tanto daqui, desse meu mundo especial e espacial. Ainda mais agora que o Waldir vem fazer aulas avulsas com ela. Ah… Todos os dias ele está aqui. Eu gosto de vê-lo. Não com ela. Às vezes, parecem tão íntimos. Acho que estou pensando bobagens. Ela é tudo, mas isso não. Não teria coragem pra tanto. Ou teria? Não. Ele tampouco deve fazer o estilo dela, ele faz o meu! Tão garoto, tão novo, tão fofo! Mesmo assim é estranho como ficam próximos. Como ela olha enquanto o Waldir escreve. Como sorri pra ele! Será?

Por esses dias, minhas suspeitas aumentaram. Tive que ir ao banheiro. Coisas de mulher. Quando voltei, pareceu-me que a mão dela estava sobre a dele. Ou era a dele sobre a dela? Ai que ódio de não ter agora certeza. Foi tão rápido. Não sei ao certo. Passei a observar melhor para não perder nada. Disfarçando o máximo. Ela sempre chegava antes. E a cada dia vinha mais linda. Dias atrás, estava deslumbrante. Até eu me espantei. Geralmente, não gosto de ficar olhando mulheres. Me dão asco. Mas ela estava linda, linda. Ah, que inveja! Até pensei que ela ia cancelar a aula dele e ir a alguma festa. Que nada! Esperou, fez algumas anotações. E quando ele apontou na porta, ela se levantou. A troca de olhares foi denunciadora. Mas eu não podia simplesmente fazer nada. Porque nada havia de concreto. Ah, que ódio!

Nesse dia, eles se sentaram colados um ao outro. Ele escrevia e ela colocou a mão sobre o queixo com o cotovelo sobre a mesa e olhava. Olhava ele escrevendo e olhava em seu rosto. Quase hipnotizada. Ele não percebeu. Ou fingia que não. Estava absorto na tarefa. Concentrado. Eu deixei cair uma caneta no chão para ver as pernas dos dois. As dela estavam encostadas nas dele. Mais um pouco e estaria em cima das dele. Ah, que ódio! Ah, que ódio.

Eles falavam um com o outro. Sorriam um para o outro. Eu queria saber o que estavam falando e do que estavam rindo. Mas a distância impedia. Impedia! Eu tinha que ir lá perto e fingir arrumar algum livro pra ouvir algo. Eu fui, Pelas laterais, primeiro numa prateleira bem longe, depois noutra e noutra… Até que cheguei perto. Passei a ouvir. Mas algumas palavras se perdiam no ar. De tão baixo que eles falavam. O que estavam escondendo? Eu ouvia coisas como: você quer, eu consigo. Linda. Escreva, escreva. Estacionamento, depois…

Eu não conseguia juntar o quebra-cabeças. Fiquei furiosa. Será que estava ficando surda. O que ela quis dizer com estacionamento, depois…  Eu não sabia se o estacionamento se juntava com o depois, ou se o depois veio bem depois. Tocou o sino inútil. Eles saíram. Eu pensei em segui-los. O que imaginei foi que iam se encontrar no estacionamento. Ou será que estavam comentando o fato de alguém ter furado o pneu do carro dela no estacionamento dias atrás? Ah, que ódio!

Eu precisava saber. Precisava. Só que não podia sair dali e deixar sem ninguém cuidando. E bem na hora que eu pensei em sair, chegou um aluno pra consultar um livro. Despedi-o rápido. Inventei que não havia aquele livro. Ele me incomodava dizendo que havia visto ele no dia anterior. Convenci-o de que era alucinação. Irritei-o e mandei sumir. Assim que ele saiu, eu saí também. Em disparada. Cheguei ao pátio, e pelas grades olhei o estacionamento. O carro dela não estava mais lá. E o Auxiliar do Pátio acabava de fechar o portão do estacionamento. Saí correndo até ele. Pedi que me dissesse se ela havia saído sozinha. Ele garantiu que sim. Mas eu desconfiei. Fui até à rua. Vi o carro dela se afastando. Isso teria acontecido se ela não tivesse parado por ali para, por exemplo, alguém subir? Ou será que ela dirigia tão devagar? Ah, que ódio. Olhei em volta, fui até a esquina e olhava todos os alunos que por ali estavam, tentando ver se o encontrava. Não o achei. Havia muita gente. E agora eu não consegui saber. Estou possessa! Possessa! Ah, que ódio!

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Um comentário em “Eventual – Dona Casmurra

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