Crônicas · Série

Eventual – Eventual Efetiva

eventual

Eventual – Apresentação

Eventual – Entradas

Eventual – Um eu não eventual

Eventual – O garoto pensa e fala

Eventual – Sugar Daddy


Fui chamada pela diretora naquela semana para ser efetivada. Rosângela não ia mais retornar naquele ano, talvez em nenhum outro. Precisava concluir o último bimestre. Uma mulher de fibra a diretora. Que aprendeu a ficar dura pela dureza da ocupação. Um ser carregado de mau humor. Pensava que autoridade, domínio e controle provêm todos da cara feia. Nem saia da escola. Quero dizer, nem saí da Biblioteca. Passei o dia, entre um aula e outra, planejando, organizando e preparando o que vou dizer e disse repetidas vezes para repetidas salas. Isso é ensinar, repetir até que decorem, até que esqueçam para se lembrar mais tarde de novo. Nesse dia específico, tenho uma aula na sala 13 do aluno 44. A primeira que era a última daquela turma, algo normal em escolas onde faltava a merenda, por que não faltar quase todos os professores?

Eu me dirigi à sala após o sino tocar. Dessa vez não há muito o que me incomodar na sala dos professores. Subi despreocupada e sem pressa. Diferente da outra vez, cheguei e ele estava sentado à espera como outros. Cumprimento a sala e ele em específico.

– Boa noite, Sr. Waldir. Parece que dessa vez conseguiu redescobrir seu horário, não?

– Boa noite, Professora Vivian. Desculpe pelo outro dia, problemas mecânicos no ônibus. Não chego atrasado, ou só às vezes.

– Sei… Desculpo se não se repetir.

Logo entraram também os “atrasados”. Ele prestou muita atenção à aula que preparei sobre literatura nacional. Destaquei Jorge Amado que sempre amei de paixão. Li trechos de Gabriela enquanto explicava fundamentos da teoria da literatura. Pedi leituras para ver como estavam lendo e, para descobrir o nível de intelecção, pedi comentários breves de cada um. Um desastre total e previsível. Uns três ou quatro leram e compreenderam de maneira regular. Disfarcei minha reprovação total. Não soube o que dizer. Deu-me pena ver jovens perto de terminar o ensino médio com tantas deficiências. De tão grandes que, para consertá-las, deveriam voltar ao primário e reaprender o beabá. Fiquei ansiosa pela leitura e ponderações dele. Desejei que não me decepcionasse. O que fiz foi dar uma cópia da obra aos alunos e outra ficou comigo. Lia um trecho e o aluno ou aluna escolhida lia o subsequente. O que selecionei pra ele foi diálogo. Diálogo de Nacib ao entregar um vestido de presente à Gabriela. Pedi que ele usasse a voz de Nacib e parte da do narrador. Ele leu sem erros, mas apressado demais. Solicitei que fosse mais pausado. Leu com alguma dificuldade, com uma voz robótica sem emoção.

– Vim lhe trazer um presente. – Gaguejou Nacib – Ia botar em sua cama. Cheguei agorinha… Ela sorria, era de medo ou era para encorajar? Tudo podia ser, ela parecia uma criança, as coxas e os seios à mostra.

Na última frase, ficou com imensa vergonha. Todos os olhos nele, a mão ficou trêmula. Gostei desses tremores e o que eles anunciavam. Com mais dificuldade, continua:

Como se não visse mal naquilo, como se nada soubesse daquelas coisas, fosse toda inocência. Tirou o embrulho dele.

Eu assumi, nesse momento, com voz de atriz. Diferente da dele, correta mas mecânica.

– Obrigada, moço, Deus lhe pague.

 Desatou o nó, Nacib a percorria com os olhos, ela estendeu sorrindo o vestido sobre o corpo, acariciou-o com a mão:

– Bonito…

Espiou os chinelos baratos, Nacib arfava.

– O moço é tão bom…

Nesse ponto, abandonei a leitura, pedi-lhe que continuasse. Todos os olhos vidrados voltaram-se pra ele. Dessa vez, entrou na história, sentiu a verve e a sensualidade do bom baiano, não tremia mais!

O desejo subia no peito de Nacib, apertava-lhe a garganta. Seus olhos se escureciam, o perfume de cravo o tonteava, ela tomava do vestido para melhor o ver, sua nudez cândida ressurgia.

Retomei após olhar-me como se fosse Nacib e eu Gabriela. Senti um leve calafrio.

– Bonito… Fiquei acordada, esperando pro moço me dizer a comida de amanhã. Ficou tarde vim deitar…

Olhei de volta. Pragmática para os outros, sugestiva para ele.

– Tive muito trabalho – As palavras saíram-lhe a custo.

E saíram mesmo, não somente de Nacib.

– Coitadinho… Não ta cansado? Dobrava o vestido, colocava os chinelos no chão.

– Me dê, penduro no prego.

Sua mão tocou a mão de Gabriela, ela riu:…

Solicitei, antes de ir adiante com a leitura, considerações acerca do que tinha lido até então. Ficou rubro. Eu pus um pouco mais de lenha na fogueira. Provoquei, firme:

– Waldir, não é você que sempre faz piadinhas por aqui. Que estava agora pouco rindo do colega que falava. Mostre, então, o que é uma interpretação. Ou será que tudo o que tem é só zombaria sem conteúdo algum?

Os risinhos costumeiros soaram. Mas eu ordenei silêncio para ouvi-lo. Queria saber em que grau de profundidade sexual sua mentalidade se encontrava.

– Ok, professora. Eu tenho certa dificuldade de falar em público. Penso, mas nem sempre consigo exprimir o que penso. Vou tentar:

– Minha interpretação é a de que Nacib não passa de um cafetão com cara de patrão. Essa é a verdade. Ele comprou o vestido na clara tentativa de comprar o corpo de Gabriela. Todos os homens são assim. Alguns dão flores, presentes, outros dão juras de amor em público, fazem serenatas. O que querem é sexo. As mulheres fingem que não sabem. Vivemos numa sociedade fingida. É isso. O próprio texto diz isso: Sorria de medo ou pra encorajar? Ou seja, fingimento, era pra encorajar sim. E Nacib fingia que não entendia. Até o autor estava fingindo para o leitor. Nacib nem precisava querer comprar. Quando contratou-a, já estava o dito pelo não dito. E Gabriela também gostava de sexo como ninguém. Bastava ele ir lá e fazer sexo com ela, sem nenhum artifício. Mas penso também que o vestido guarda uma segunda intenção. Ele queria que Gabriela fosse só dele. O presente é uma forma de requerer o sexo e, ao mesmo tempo, sua alma. Algo como: darei tudo o que você precisa, porém você abrirá mão de todo esse jeito sensual para ser sensual só na minha cama. Tanto é assim que ela está com os seios e as coxas à mostra, e a roupa é pra tapar, não tapar a visão dela seminua pra ele, mas tapar para os homens e a sociedade. E se exibir. Brasileiro é fingido e exibido. No decorrer do livro vai querer que ela seja uma dama da sociedade. A sua dama. Quer ela uma verdadeira quenga em casa, e na rua uma mulher da alta sociedade que lhe sirva para inflar o ego diante dos seus amigos. Nacib é o autêntico retrato de como nosso povo é uma grande piada.

Pela primeira vez em sala de aula fiquei de boca aberta. Eu não consegui disfarçar. Teve até ameaças de palmas. Ele falou a palavra sexo enquanto me olhava quase como se fora um convite. Procurei disfarçar minha surpresa diante daquele cinismo. E interpretei mal seus tremores, disse isso tremendo e com a voz rouca, todo vermelho, mas foi até o fim. Uma mente  acima da média e da sua idade, certamente. Mas eu precisava continuar.

– Uma reflexão razoável. Bastante crítica. Diria até revoltada. Mas, pelo menos, ao contrário do seu texto da outra aula, tem alguma solidez. Continuemos a leitura…

Não deu. O sino tocou e terminou a aula. No exato momento em que eu iria ser a Gabriela entregando-se nos braços de Nacib. Todos foram saindo. Pressa pra ir embora. Queriam se ver livres do aprendizado, dos livros, de tudo que os levasse à melhoria. O espírito brasileiro neles só gostava da selvageria misturada à coisa alguma. Será que ele estava certo? Sociedade fingida e exibida? Será que todos aqueles alunos estavam fingindo que estudavam, esperando apenas a oportunidade do sino tocar e o ano acabar pra fugir da escola e se exibirem por aí? Provavelmente ele acertou na mosca. Deixei que os outros saíssem aos empurrões. A ele solicitei que esperasse. Somente uma garota deu um risinho leviano. Ela não desgrudou os olhos dele antes mesmo de que começasse a narrar. E era a última saindo. Deveria estar esperando-o. Olhei-a, ameaçadora. Sei que entendeu o recado. Tenho certeza!

Ele veio entregar o livro surrado em mãos. Assim como com Nacib e Gabriela, nossos dedos se tocaram levemente. Aquele simples toque produziu em mim constrangimento. Por causa do dele. Retomei o controle.

– Você tem deficiência de notas com a Rosângela. Quero te ajudar. Mas será necessário que você queira.

– Sim, é verdade, Professora Vivian.

– Pode me chamar de Vivian. No momento, não estamos em aula.

– Ok, Vivian. Eu tive problemas com a Professora Rosângela. Não consegui compreender muito bem suas aulas.

– Você teve problemas com a Prof. Rosângela, tem problemas consigo mesmo e com todos à sua volta. Eu posso te ajudar com a questão das notas. Terá que vir uma hora mais cedo. Até o fim do bimestre e do ano. Fará atividades comigo na Biblioteca. Pretendo, se você não faltar, compensar com isso suas notas ruins.

– Acho que não tenho escolha, tenho?

– Tem. Fazer recuperação nas férias.

– Entendi. Quando começamos, Vivian?

– Mudei de ideia, pode voltar a me chamar de Professora. Pressinto que vai abusar da ausência do formalismo e acabará se desculpando o tempo todo dizendo que esqueceu.

Ele sorriu. Nem desconfiava o que aquele sorriso entre o tímido e o cínico me causou. Mais um brasileiro fingido?

– Sim, Vivian. Prof. Vivian, quero dizer.

– Está melhor assim. Começamos amanhã, a propósito.

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4 comentários em “Eventual – Eventual Efetiva

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