Crônicas · Série

Eventual – Sugar Daddy

eventual

Eventual – Apresentação

Eventual – Entradas

Eventual – Um eu não eventual

Eventual – O garoto pensa e fala


O envelhecimento é uma grande piada. À medida que envelheço, todos os anseios juvenis de outrora vão voltando. É como se eu subisse uma colina e, atingido o topo, desse uma boa olhada no horizonte, mas logo descesse, encontrando na descida os mesmos acidentes que da subida. Mas agora, enquanto rolo abaixo, consigo reparar no todo. Monto o quebra-cabeça desta pequena comédia que é a minha existência. Inútil, enquanto me serviria muito eu não pude ver. Quando não adianta mais nada vejo tudo. E próximo estou da planície, do fim. Comecei aos berros, sabendo nada. Vou da mesma maneira, talvez sabendo menos ainda. Esta é a vida. Chega-se nela chorando. No meu caso, disseram-me que foi necessário apanhar. Não deixa de ser ironia, ou se chora voluntariamente ou se é posto a chorar involuntariamente. Aguardo a última surra pra dar o último berro.

A sabedoria popular diz isso há séculos e eu não ouvia. A velhice é o retorno à infância. É exatamente isso envelhecer. Volta-se à criancice. Frequentemente, perde-se a memória e a linguagem. Também é comum não conseguir mais andar. Chora-se por qualquer coisa. Faz-se birra por um doce. Vê-se fantasma e bicho-papão. Livra-se das necessidades com ajuda de fraldas. Em muitos casos, perde-se completamente a vergonha na cara. E sempre há a necessidade de algum “adulto” por perto para que não se ponha fogo na casa.

A equivalência pode ser infinita. Envelhecer nada mais é que preparar-se para entrar de volta à barriga da mãe assim como da primeira vez. Muda-se o nome da barriguda. Não é mulher mas terra. Em suma, se alguém quer saber meu aforismo sobre a vida, é este: uma estrada cheia de bosta em que vamos desviando até chegar ao fim. De vez em quando, na noite escura, pisamos em todas. E vamos limpar o pé no mato, mas o cheiro de merda não nos abandona nunca. Ao fim, dá-se um mergulho no abismo do qual não temos a menor ideia se há ou não fundo. Se vamos flutuar ou nos esbagaçar de vez.

Estou na fase da senil adolescência. Se tivesse dezessete, retiraria o senil e deixaria adolescência. Sem prejuízo das ações e reações idênticas. As duas fases resultam na intensa vontade, isto para os homens, de transar. Na minha época dizia-se trepar, foder. Mas hoje tudo é tão politicamente correto, e as pessoas gostam tanto de contos de fadas e das ilusões românticas, que o melhor mesmo seria dizer brincar de casinha. Pois então, gosto de brincar de casinha com mulheres mais novinhas. Tudo o que quero é sexo. Igual o rapazola de dezessete. É claro que no meu caso é feio de se imaginar. Mas o que eu posso fazer? Também tenho necessidades. Como, durmo, falo, ando e quero transar. Ainda que sofra pra conseguir ter um orgasmo, o sofrimento vale a pena. Não sou tão impotente. Isso não quer dizer que eu seja um garotão cheio do ímpeto característico do gênero masculino. É óbvio que estou decrépito. Ainda assim, sou um exemplar raro na minha posição. E que eu saiba, não é crime velho fazer sexo e gozar quando consegue. Ou é?

Os jovens não gostam de me ver por representar eles no futuro. Sou a morte do novo em plena vida. Por isso olham com desdém. A não ser quando é pra pedir emprego ou dinheiro, no caso dos filhos e netos. Nem posso imaginar o que velhos pobres passam na unha da juventude. Não sou como a maioria dos velhos a dar conselhos. Eu quero mais é que se foda. Enquanto isso, vou só dizendo. A velhice chega, é inevitável. Desejo que chegue pra todos sem muitas doenças e com bastante dinheiro. Tenho três filhos, alguns netos (não me interessa quantos nem nomes), duas ex-mulheres (inimigas mortais), dezenas de amantes, filhos ilegítimos ainda em processo de legitimação, e não tenho pais vivos. Sou herdeiro da fortuna do meu pai. Só na capital, 35 imóveis. Nem sei onde ficam. Provavelmente morei como inquilino em um deles sem saber.

O pai dirigia um Fiat Uno. Não era vaidoso. Ou talvez eu esteja enganado. Era medo de ser roubado. Disfarçava sua fortuna. Mentia dizendo que não era vaidoso. Por ser muito magro, debochavam dizendo que sua magreza fazia o Uno parecer mais magro que outros. Isso pra mim não tinha graça, porque era verdadeiro demais pra se rir. Lutou para construir-me essa herança – fui filho único (ainda bem) – morreu quando decidiu gozar dela. Este exemplo me serviu, eu gozo tudo desde então. Mas não tenha de mim a impressão errada, eu trabalho, e muito. O patrimônio que foi dado já tripliquei.

Sou proprietário de empresas no plural. De fazendas, também no plural. Entupidas com cabeças de gado e grãos de soja. Tudo conquistado reinvestindo a fortuna, sem perder mas ganhando muito. Sem deixar de gastar e usar de tudo o que é meu.

Envelheci sim. E não achei de todo ruim. O que eu consigo velho, muitos jovens não conseguem. Um exemplo? Eu comprei uma noite com uma farmacêutica noiva por cinco mil reais. Lindíssima. Jovem nenhum conseguiria isso, mesmo rico. É porque acham desprezível pagar e se matam pra conseguir de graça. Querem a conquista pra se convencer de que podem. Total perda de tempo. Eu conquisto tudo comprando e nem por isso deixo de me convencer que posso. Não há nada que não esteja à venda. Basta descobrir o preço. Outro exemplo? Vendedora de calçados. Mil reais. Você deve estar pensando, as duas ganham quase a mesma coisa, qual a diferença? Simples. A primeira era noiva, a segunda, casada. A primeira não tinha filhos, a segunda, três. A primeira era linda, a segunda, nem tanto. A profissão da primeira é respeitável, a da segunda, absolutamente comum. Quatro motivos, quatro mil a mais.

Mas há outros exemplos mais ‘didáticos’. Universitárias. Comprei algumas por vários semestres. Valores? Mensalidades em dia. Nada mais. Uma era estudante de medicina. Linda e dedicada aos estudos. Não nos finais de semana. Nestes ela era dedicada aos homens. O sábado era meu, o domingo era dele.  Na Inglaterra, chamam homens como eu de “sugar daddy”. Aqui com certeza não me chamam assim. Estaria mais pra velho safado. Se bem que a intenção na Inglaterra deve ser a mesma. Mas não consigo entender isso no Brasil. Todo mundo pelado e transando na rua no carnaval. O resto do ano passam sendo puritanos no mais alto nível de julgamento moralizante. Só no julgamento, na prática transam com vizinhos e até com cachorros e galinhas. Esse é o Brasil, terra do carnaval e da putaria, mas do juízo moral implacável.

Você pode pensar, como bom brasileiro, que o que faço é imoral. Não sei o que significa essa palavra. Sei que, pelo conhecimento econômico que adquiri, tudo está dentro da lei da oferta e procura. Não se compra nada que não esteja à venda. Não fui eu quem inventou essa lei. Uso-a porque posso, se não pudesse, seria usado. Em eu existindo ou não, a diferença para o que ocorre seria nenhuma. Eu resolvi o problema da futura médica. Sua família e namorado não poderiam pagar pra realizar seu sonho. Eu paguei. Ela deu o que eu queria e fiquei satisfeito. Em situações normais, jamais sairia com ela. Uma lindeza daquela nem olharia pra mim na rua se não fosse ‘sugar daddy’. No fim, todos ganhamos e isso é tudo. O jovem pode até rir, não me importo. Gargalho dele também. Ser corno de um velho deve dar boa chacota.

A diferença prática entre eu e o jovem é esta: posso ter o mesmo que ele, mas devo pagar mais. Em todo o caso, pagar menos leva tempo, trabalho e, mesmo assim, sempre haverá algum desequilíbrio. Dinheiro ou tempo. Eu prefiro logo gastar o dinheiro e ganhar o tempo. Sem historinha de apaixonado, amo ou outras mentiras semelhantes. Todos os homens só querem sexo, só querem a mulher pelada. O desenvolvimento até isso é puro fingimento. Casamento é uma maneira de procurar não ficar sozinho. Ter alguém com quem dividir despesas e responsabilidades. Quem ainda acredita nessa história de amor? Até posso acreditar que alguém ame deuses e seus pais. Homens e mulheres transam, fazem filhos, brigam e se separam ou brigam e ficam juntos quando veem que a separação é prejuízo maior. Eu me encontrei “amando” duas, separadamente. Casei. Bobagens. Hoje não faria mais isso. Tudo o que havia era uma atração física e intelectual mais prolongada. O que me levou ao engano de dizer: amo. Amo coisa nenhuma. Em quatro ou cinco anos o que eu havia “amado” estava detestando. Quanto tempo perdido!

Os jovens têm muito tempo a perder, eu não. Por isso gasto dinheiro. A verdade é que com mulher sempre haverá gastos. Nenhuma mulher quer sustentar homem. Mesmo as mais progressistas e modernas. Essas são as mais avarentas e cheias de ódio: “consegui com meu esforço, eu fiz isso, eu fiz aquilo, você que pague o seu, homens não prestam pra nada”. Como disse, umas avarentas e rancorosas. Mal sabem elas que toda essa liberdade que têm fomos nós que demos. Se quiséssemos, nunca teriam tido liberdade alguma. Se olhassem mais a Oriente, veriam isso com clareza. Lá não quiseram dar, e não houve uma que não tivesse lutado para ter. Por que não tiveram? Porque os homens não quiseram dar. Aqui lhes foi dado facilmente, mas temos que aturar a ingratidão constante. Um descalabro e grande injustiça. Felizmente, eu lido com as que sabem sobre a realidade. Caso da atual.

Vivian. Da mesma faculdade de Adriane, a que ajudei a se tornar médica. Graças a mim e a outros amigos que indiquei depois de cansar. Essa é uma professora eventual. Tem uma natureza mórbida. É estranha. Esquisita. Orgulhosa. É uma mulher, enfim. Inteligente, e de mim conseguiu mais que as outras. Méritos dela. Depois que a conheci, não procurei mais ninguém. Tenho lá meus dias em que ela me dá o que quero. Sinto-me vivo. Gosto dela. Não a amo. Você já sabe o que penso do amor: ilusão proveniente dos românticos. Quero agora a rotina definitiva. Faço caminhadas regulares, trabalhos regulares, viagens regulares e sexo regular. Isso ela me proporciona. Nem me custa tão caro. Uma ninharia comparada com o que recebo em troca. Sem cobranças, sem sugar-me o tempo e o emocional, sem telefonemas no meio do dia e da noite. É o tipo de casamento que sempre quis. Não importa se o comprei. Trabalhei pra isso e acho que mereço. Quero morrer como Davi, com uma ninfeta nua pra me aquecer quando sinto frio. Hoje está frio.

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5 comentários em “Eventual – Sugar Daddy

  1. Fantástico!! Isso que você está fazendo (MUITO BEM), é difícil pra caramba. Realmente tu “vive” o personagem. Se eu estivesse visitando seu blog pela primeira vez e me deparasse com esse texto, não teria dúvida que o você é o próprio “Sugar Daddy” HAHHAH
    Sem mais, incrível amigo!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigado, querida Mayara. Não sabe o quanto isso é gratificante. Porque é exata expressão das minhas tentativas. Dói muito o cabeção pra fazer isso. Embora eu reconheça várias limitações, um comentário assim me estimula e me ajuda muito. Agora sobre essa primeira visita ao blog, puts, tomara que não. kkkkkk. Tudo o que não gostaria de ser era um sugar daddy. rs. Abraço, ótima noite. Obrigado mesmo. 🙂 😀

      Curtido por 1 pessoa

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