Crônicas · Série

Eventual – O garoto pensa e fala

eventual

Eventual – Apresentação

Eventual – Entradas

Eventual – Um eu não eventual


 

Estou confuso. Sou confuso. Nesse ano, tive muitos sonhos. Alguns vão se realizar, outros nunca. Olhando em retrospectiva, vejo que muitos eram pesadelos, desejos egoístas e ilusões. Vou sofrer pressão da esquerda que está se agigantando. Vou pensar que a vida é simples e sei de tudo. Sei de tudo e mais que todo mundo, inclusive meus pais. Não vou ouvir e ver as claras ameaças à vida e ao intelecto. Eu trabalho e estudo, mas por causa das noites boêmias, passo a dormir nada e irritar o patrão pela displicência e preguiça. Vou ser demitido! Vou achar que tenho melhores amigos e que sou imortal. Vou confundir paixão com amor. Vou ver alguém morrer e chorar muito. Vou usar drogas, das leves às pesadas. Exatamente como dizem os contrários à legalização da leve. Vou pensar que Legião Urbana é algo que preste. Vou fazer muito sexo. Vou conhecer Vivian. Vou viver e morrer um dia por vez!

Não é pra menos. Eu vou fazer 17 anos. Tenho um turbilhão de emoções, sensações e planos em minha mente. Às vezes quero ser tudo, quase sempre penso ser tudo. Aqui em casa há expectativas grandes quanto ao meu futuro. Essas coisas acontecem com protagonismo, mas tornam-se todas irrelevantes pela fumaça. O Carlinhos vendeu e eu fumei. Entrei num mundo paralelo. Os sons e a percepção da realidade foram aumentados. Meu corpo era algo fora da mente. Eu separei-me de mim e me vi andando a esmo. O efeito logo dispersou o grupo de três que dividia a pequena tocha. A adrenalina virou medo. Ouvia a polícia há quilômetros e pensava estar ali do meu lado, pronta pra me prender. Persuadiram-me a guardar o que sobrou. Coloquei no sapatênis e saí rápido dali. Qualquer um via que eu estava na noia e era um Noia. Caminhei.

Cheguei ao portão e encostei. Fiquei absorvido pelos transeuntes, as pessoas iam e vinham, entravam e saíam. Tudo em câmera lenta. O contato dos pés no chão e o som das pedrinhas pulando eram incrivelmente perceptíveis. Eu estava ‘muito louco’. Garotas que me davam bola passavam e me olhavam esperando um retorno. Eu as olhava e ria. Passei a tapar a boca, abaixava a cabeça, tentava a custo disfarçar. Ao ir de encontro ao autocontrole, ele gargalhava de volta. Não pude entrar. Tive que esperar passar um pouco a onda pra não dar um vexame. Conhecia bem o rapaz que cuidava do pátio e do portão. Ia pedir a ele pra me deixar entrar, e iria deixar. Tinha medo de maconheiros e suas gangues. Embora eu não fizesse parte de nada. Participava de grupos sempre visando sair deles antes de fazer parte. Parece que isso sempre foi e será assim.

Um pouco recuperado do descontrole, procurei o favor. Nem foi difícil. Havia dois que acabavam de deixar um bar tentando o mesmo. Três problemas para os professores. Dois bêbados e um maconheiro. Dei uma lavada no rosto. Mas isso não ia adiantar nada. A aula era da Rosângela. Coitada. Não ia com a cara dela, mas aquilo foi demais. Eu estava presente, e soquei o garoto. Chutei as costas dele e queria mesmo matá-lo. Fui ameaçado. Estou ameaçado. Que se dane. Essas merdas acontecem todo o dia. O que sei é que haveria um substituto. Ou do sexo oposto. Tanto fazia, as professoras a mim sempre eram assexuadas. Feias e velhas demais. Desejei que não fosse Aílton, ou iria me chamar de maconheiro na frente de todos. Porque ele também era. Quando cheguei à sala, a mesma estava trancada. Ouvi a voz de uma mulher. Respirei fundo e entrei. Não dou a mínima se estou atrasado!

Tomei um susto. Esta era uma visão. Olhei-a nos olhos, no rosto e no resto. Enfim, entendi o conceito de harmonia das aulas de música. Não pude falar nada. Sentei e fiquei olhando seus pés. Ainda bem que o pior do efeito havia passado, ou eu iria beijá-los ali mesmo. Óbvio que fui expulso da sala. Não resisti; tive que olhá-la de novo ao sair. Pra ter certeza de que não havia visto uma miragem. Ao passar, senti seu perfume. Uma mistura irreconhecível, quase inodora. Leve! Diferente do cheiro da fumaça em C. Não era cheiro de garota. Cheiro forte de perfume, de hidratante ou de absorvente mal colocado. Era cheiro de mulher.

Nada de maquiagem carregada, batom fora de tom a colorir dentes e bochechas, esmalte de bichinhos, pulseiras coloridas, calça engolidora de perna, tênis surrado, cabelo vermelho, azul ou roxo, roupas que não combinam, anéis ridículos, cara de boboca virgem com espinhas e jeito de andar imitando mulher de verdade. Não. Ela era mulher sendo mulher. Também era o oposto das professoras com olheiras e cara de psicopatas neuróticas depressivas. Era uma mulher controlada. Na idade perfeita para ser imortalizada.

Finalmente eu ia conviver com um protótipo de verdade. Como minha cunhada. Como minha tia viúva. Ao contrário destas, só torcia que ela me visse homem. Mas depois de tudo? Já comecei todo errado. Maconheiro atrasado expulso da sala por não saber pedir licença e olhar a professora querendo transar com ela, arrancar seus pés e levar pra casa. Ótimo começo. Eu precisava desfazer essa imagem. Se fosse com outra, teria ido embora. Dava um jeito de pular o muro e ia perambular. Fumar o resto e dormir na rua. Claro que não com ela. Eu esperei ansioso lá pra baixo. Depois de lavar meu rosto no banheiro mais cinco vezes. Fiquei a postos para entrar sem 1 minuto de distância do sino.

Mal entrei e, de novo, ferrou tudo. Meu coração disparou de vez. Sentada, com as pernas cruzadas, examinando textos. Seus pés eram lindos. Pequenos pés, dedos finos, desenho das unhas perfeito. Eu não só os beijaria, seria capaz de comê-los. Entendi o canibalismo. As pernas, os braços, os cabelos, sobrancelhas, olhos. Tive vontade de engoli-la viva inteira. Ela não era uma alucinação, mas isso só piorava tudo. De novo me dou mal. De novo repreendido. Que estranho, quando outras professoras faziam isso comigo, eu ficava com muita raiva. Dela sinto mágoa. Procuro fazer a tarefa. Texto. Nisso acho que sou bom. Mas o tempo é pouco. Dou o meu melhor que é tão pouco quanto o tempo. Não resisto de novo. E, com o coração na mão, rompo a barreira que nos separa. Quero deixar claro que não a vejo como professora. Não a vejo como nada além de mulher.

Assim que entrego o texto, me arrependo. Tarde demais. Ela vai fazer um escândalo e me jogar pra fora de novo. Vou ser zombado até à quarta geração. Maldita droga! Maldita cara-de-pau!

Não faz nada disso. Faz pior. Na maior tranquilidade, joga-me contra a parede. Em suas mãos estou, conduzido pra lá e pra cá, um ioiô. Agora já era. Vou me ferrar. O que eu faço desse recado ao fim do texto? Giro a mente enquanto leio devagar. Encontro a solução suada, e me salvo por um triz de um texto sem final ou com um absurdo. Nunca mais brinco com essa mulher. Ela sabe o que faz e o que fez. É fria. Um bloco de gelo. Não é iracunda como as outras, mas é certeira nos alvos. Passo o resto da aula sem coragem de falar. Nem um pio. Estou sempre entre o incômodo e a inexistência. Não consigo estar sem ser notado. Se não sou, passo a não estar. A discussão é coisa que tento não ouvir como se ouvisse. Bando de burros. É o que são. Alguns tenho vontade de socar a cara. Como podem ser tão ignorantes. Tão bestas. Aqueles risos. Aqueles tapas na nuca. Aquelas caras de palhaças e cabaços. Aqueles beliscões de garotas em garotos que se acham engraçados. Como alguém transa com elas e goza? Como eu transei com duas delas? Sinto nojo e desprezo. Idiotas e imbecis. Vejo a classe, a postura, a sensualidade dela. Vejo que está cheia daquela comédia. Que diferença! Que modos! Que mulher!

Nesta noite não durmo. Fico a pensar nela. Imagino ela nua. Sorrindo e me beijando. Tudo bobagem. Jamais conseguiria sair com uma mulher assim. E, se tivesse oportunidade, fugiria. Não sei o que faria. Gosto de sonhar sonhos que desejo nunca se realizarem. Quero alguém pra sonhar não pra ter. Não sei como ter. Não sei o que poderia dar eu a ela que outros tantos deram melhor. Um garoto é o que sou. Com garotas é diferente, faço-as de idiotas, se bem que já são. Uma transou comigo sob a promessa de pedir ela em namoro no dia seguinte. Esse dia seguinte nunca chegou, e eu quase fui assassinado por irmãos, primos, sei lá o quê. Mas com mulher não. Tenho medo de mulher de verdade. Elas dobram e não quebram. Usam e abusam dos jogos, sempre saem ilesas sem olhar pra trás e sorrindo pra frente. Tenho medo de mulher de verdade. Talvez tenha sempre!

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18 comentários em “Eventual – O garoto pensa e fala

    1. 😀 proferiu não só um decente como um sempre estimulante. Eu agradeço muitíssimo suas leituras e comentários e postagens pra lá de vibrantes. Muito obrigado. Você aqui é unanimidade. Forte abraço, boa noite, querida amiga.

      Curtido por 2 pessoas

  1. Ótimo texto, Waldir. Adorei a descrição dos sentimentos. A parte do pé incrível, que ocorrência, levar o pé para casa. Um texto muito maduro e bem escrito. Grande abraço amigo. Ah! Estou por aqui trabalhando muito nos meus projetos… estudando, escrevendo e desenhando. Por isso desapareci um pouco… mas sempre dou uma passadinha pelo teu espaço. Fica na paz. 😉

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  2. Meu caro, o conto é sensacional do início ao fim! Mas, como sempre, gosto de dizer o que mais me chamou a atenção. E dessa vez, meu caro, foi a descrição que vc fez da mulher. Eu diria que foi uma descrição espetacular! Não foi um retrato, foi um verdadeiro raio-X, atravessou roupa, pele, tudo. Atravessou as paredes, o tempo, as distâncias e chegou aqui na web, impresso na chapa do WP, para sorte de seus leitores. Bravíssimo! Um forte abraço e um ótimo fim de semana pra vc.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Waldyr, seu conto ficou muito bom, mas muito bom mesmo.Ah…você é um talento! Está cada dia se superando na arte dos contos.Eu já estou ficando chata e repetitiva, eu sei…toda vez que venho fico procurando as palavras para comentar, mas dane-se eu ser chata e repetitiva porque eu gosto de ser chata e repetitiva quando se trata de seus textos.Ficou maravilhoso! Não apenas por este texto, mas me impressiona a facilidade com que você leva o leitor a entrar na estória, e a leitura tem um tom agradavel.Acho sinceramente que deveria trabalhar num livro de contos e outro de literatura.Você tem todas as ferramentas: criatividade, talento e um português irretocável.Meu destaque no texto vai para a frase “tenho medo de mulher de verdade” .Quantas janelinhas se abrem aqui viu..hahaha…concordo que daria uma tese.Todo “homem de verdade” tem medo de “mulher de verdade”?Eita! Que são ?essas ilusões na minha cabeça agora…..ssr…Viajei. Deixa pra lá…..hahahaha…Adorei.bju

    Curtido por 1 pessoa

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