Crônicas · Série

Eventual – Um eu não eventual

eventual

Pela ordem da desordem:

Eventual – Apresentação  >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>    Eventual – Entradas


Eu não me sinto bem quando não quero sentir nada. Não sentir é como não pensar, impossível. Só não sei o que vem antes. Às vezes, acredito que é a capacidade de raciocinar que me leva à sensação. Outras vezes, penso ou sinto o inverso. Menosprezo a dúvida, sempre que chego no intransponível e no irrespondível, procuro a desistência que me é mais favorável à perda de tempo. Não acredito em Deus! Mas estou certa de que o diabo existe.

Há algum tempo não sei o que é um orgasmo. Eu já disse, ele não é um homem, é um velho. Deprimente. Estou com ele pelo mesmo motivo que você está nesse emprego, nesse casamento, nesse namoro ou nessa solidão: falta de coisa melhor. Arnaldo é carinhoso, é educado e sabe cozinhar como ninguém. Ah, também é rico. Nos conhecemos a mais de três anos. Eu vinha de um relacionamento problemático. Ele vinha de dezenas. É óbvio que eu percebi que ele tinha dinheiro, bens. É óbvio que ele sentiu que eu percebera. Finge que eu vi algo mais nele. Nem o ego de um velho que se vê e se sabe velho está livre de ser acariciado por si mesmo.

O apartamento em que vivo é dele. O carro que dirijo é presente dele. Sou uma eventual, não uma idiota. Formei-me a poucos anos. Tudo o que fazia antes era o que mulheres como eu, que tentam ser mais que um corpo, fazem. Trabalham e estudam. Trabalhei anos como secretária, anos como vendedora, meses para o Censo do IBGE, meses como operadora de caixa de pizzaria, meses em estágios e em outras funções tão insignificantes como as citadas anteriormente. Cursos iniciados, cursos trancados. Cursos terminados, cursos incompletos. Algo das Letras concluído. Algo do direito e da psicologia inconcluso. Eis o tudo e o nada. Nem roupas eu tinha com esse tudo-nada. Hoje tenho! Devo agradecer a ele? Nunca! Ele deve agradecer sempre. O que ele está tendo não tem preço. Tomara que ele saiba disso! Eu sei que sabe. Sei também que hoje estará em casa, preparando algo pra mim.

– Oi, Vi, li sua mensagem. Queria fazer uma surpresa. Espaguete com champignon e camarão. Mas me atrapalhei um pouco para me achar nesta cozinha. Você parece mudar isso toda a semana. Espero que não se importe, mas seu jantar à luz de velas vai demorar um pouco.

– Que surpresa, Naldo! E eu pensando em pedir uma pizza. Esqueci que tenho o melhor cozinheiro da região pra me alimentar.

Fui dar-lhe um abraço que a cortesia ordenava. Aquele avental estava engraçado. Transpirava. Como eu sentia asco disso nele. Sempre transpirando, arfando, tossindo, morrendo! Fui lavar-me para tirar de mim o nojo.

– Vou tomar um banho, Naldo. Espero que ao sair, esse jantar esteja pronto. O cheiro está uma maravilha. E a fome também.

– Ah, vai estar, Vi. Se seu banho durar como de costume, é provável que esteja pronto e também frio.

– Brinca mesmo, Naldo. Ainda vou te fazer ter um dia de aulas com aquele bando de animaizinhos e vamos ver se você não vai sentar no chão duro do banheiro e chorar por horas.

– Deus me livre de sala de aula. Prefiro a morte. Disse a você que pode deixar essa profissão. Na empresa tem sempre vaga para o que você quiser.

– Conversamos sobre isso. Aliás, eu disse que era assunto encerrado. Deixe-me tomar meu banho, antes que me irrite.

Ele se calou. Não gostava de discutir para ter a razão.

Pode parecer contraditório, mas eu mantenho parte do meu orgulho com minha profissão. Com meus problemas, gosto deles e das soluções que descubro sozinha pra eles. Aceitar a proposta de Arnaldo era assumir o fracasso. Jamais aceitaria. Dissessem o que quisessem de mim, menos que eu não fosse capaz de viver sem um homem. Consigo e muito bem. Eles é que não conseguem viver sem mulher. Nunca souberam e me parece que nunca saberão. Se a religião estivesse certa, a mulher foi feita pra completar o incompleto homem, ninguém precisou ser criado para completar a mulher.

A água cai morna no meu rosto frio e o aquece. Evito molhar o cabelo. Hoje não. Enquanto isso, penso naquele garoto. Penso nele pensando em mim. Como faria. Como me tocaria ao me ver assim: molhada, descalça e nua! Era tudo o que ele queria! Era tudo o que eu gostaria?! Minha mente vai investigar o que leva à atração, o desejo e a paixão. Donde vêm? Eu dei aulas para turmas em que havia garotos lindos. Mais bonitos que ele. Talvez mais inteligentes. Como explicar essas preferências que surgem aparentemente do nada. Não era a primeira vez, e tudo parecia indicar que não seria a última. Isso, pelo menos comigo, imagino saber. O fogo no olhar. Os homens sentem atração por qualquer coisa. Pelo rosto, seios, bumbum ou nem isso. Necessidade sexual incontrolável! Sexo pelo sexo. Algumas mulheres modernas também. Eu não! Definitivamente, muita coisa vem antes do sexo. O principal, o olhar.

Aquele garoto me olhou como um animal a presa. Depois como um súdito olha a rainha: inatingível. Mal sabe ele que ao me dar por causa perdida, eu o tive por material de estudo.

O jantar estava maravilhoso. O vinho melhor ainda. Arnaldo sabia mesmo como cozinhar. Uma pena não mais poder transar como cozinhava. Poderia até gostar mais dele. Não. Nem assim eu iria gostar. O seu problema era generalizado. Mulheres como eu não se dão às preliminares como garotinhas púberes. E há algumas beirando os trinta que estão na puberdade. Quanto a mim, se sinto, sinto. Se não, não. Quando quero, sou prática. Não há preparação, nenhuma preliminar. Penetre-me e pronto. Sem me importar com o resultado no outro. Mas ai dele se não se importar com o meu e não estiver pronto. Talvez eu até gostasse das preliminares, se vissem da pessoa certa. Da errada, nem a noite toda. Dele só queria os espasmos rápidos e o abandono. É claro que eu fingia. Mas não era a única. Ele também fingia se importar com meu prazer. Ou com o que ele achava que eu sentia. Tudo o que ele queria era a carne nova de novo, ainda fresca tocando e sendo tocada pela sua pré-mumificada. A fonte da juventude sem a bestialidade da fantasia. Ter o novo quando se é velho.

E ele tinha. Em dias marcados na semana. É assim que funciona um relacionamento monótono, rotineiro: não eventual. Marca-se os dias para transar. Nos outros, mesmo quando nos víssemos, nem sexo nem nada. Conversa à toa. Quem nos visse pensaria que éramos pai e filha. Não deixava de ser. Quando ele tinha minha idade, eu não sabia falar mãe. Considerando as estatísticas, dava pra ser avô.

Hoje é dia marcado. Ele e eu sabemos o que isso significa. Ele fica mais carinhoso. Quer me convencer de que não está ali pelo sexo. Eu aceito todo esse teatro, sei muito bem atuar. Desejo convencê-lo do sucesso de sua conquista para ter de mim o que espera. Mas nessa noite o garoto não me sai da cabeça. Deito e não estou mais ali, faço com que seja rápido. Tudo acontece enquanto eu deixo de acontecer e de ser. Em quatro ou cinco minutos ele estará exausto. Mal consegue uma, o que velho faz é meia. Duas mereceria um troféu. Dessa vez me comprometo a acabar logo com aquilo. Não me importo que ele pense que estou excitadíssima. Doida por ele. O que me importa é fazê-lo ter os seus segundos de prazer sem o esforço habitual e ridículo.

Previamente lubrificada. Sem soco na parede dura. Sem corpo morto em cima do vivo enojado. Não tenho qualquer outro interesse senão facilitar a captação e recepção. Sou um reservatório agora. A água precisa subir, encher e descer. Antes de amanhecer, sairá. Acho que não gosta ver-se pelado com a luz do dia numa cama jovem. Ser da escuridão. Gosto disso nele. Se ele se abrisse, confessaria que tampouco eu gostaria de vê-lo ao meu lado pela manhã. Que o que ele pensa fazer pra si, faz a mim.


Letras do próximo:

“Entrei num mundo paralelo. Os sons e a percepção da realidade foram aumentados. Meu corpo era algo fora da mente. Eu separei-me de mim e me vi andar a esmo.”

“Ela sabe o que faz e o que fez. É fria. Um bloco de gelo.”

Anúncios

12 comentários em “Eventual – Um eu não eventual

  1. Falta muito para sair a continuação? hihi
    Waldir L. seu talento é nato! Não há ninguém como você. Te admiro demais como escritor, “babo” em suas produções. Tomara que quando eu crescer (rs), tenha um pouquito dessa sua desenvoltura e precisão de escrita. Sem exageros, meus parabéns.

    Curtido por 4 pessoas

    1. Rsrs, acho que não. Vai depender muito da questão tempo, querida amiga. Muito obrigado pelo comentário absolutamente animador e carinhoso. Mas, parafraseando um amigo, é bondade sua. Porém, é feio não saber receber um elogio. E eu agradeço por ele, por ser sincero e responsável por me estimular a continuar escrevendo por aqui. Guardarei com carinho essas palavras, sabendo da responsabilidade que elas me dão. Obrigado mesmo. Ótima semana, cara amiga! 😀

      Curtido por 3 pessoas

    1. Muito obrigado, caro amigo. Você, assim como meus amigos Mayara e Alex, tem a capacidade de me levar à despreocupação. Desde já, sinto-me satisfeito. Sua opinião e ponderação me importa em grau elevadíssimo. Ótima tarde, Prof. e amigo Laércio.

      Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s