Crônicas · Série

Eventual – Entradas

eventual

Na algazarra da entrada, diversos aprendizes de algo misturado ao nada aguardam fumando, conversando, rindo e jogando tempo fora. Tempo que vão precisar, mas não vão lembrar de como o perderam. Na sala dos professores, tomo um gole de café com o conhecido professor de filosofia. Conhecido por ser um completo idiota. Suas aulas movidas a piadas, palhaçadas, à ridicularização de si mesmo para que os alunos não se sentissem igualmente ridículos. Sempre achei a filosofia inútil. As pessoas aprendem a pensar em como pensar e esquecem de pensar. Usam o rebuscado do palavreado, a imitação de deuses imbecis e loucos, nada mais que um arroto de arrogância pra inflar egos dispensáveis.

– Pois é, Vivian. Parece que dessa vez vamos nos ver mais. Rosângela está com uma puta depressão. Não volta tão cedo…

– Desde que não me agridam como fizeram com ela, fico quanto tempo for necessário.

– Sabe, Vivian, o rapaz que deu-lhe um soco foi transferido. Coitado, arrependeu-se. Chegou mesmo a tentar pedir desculpas pessoalmente, mas ela não quis saber de vê-lo.

– Concordo totalmente com ela. Se é comigo, não só não gostaria de vê-lo, como iria gostar se ninguém mais.

– São só crianças problemáticas, Vivian. Todas elas cheias de conflitos domésticos. Precisam de carinho e compreensão. A Rosângela era muito dura. Não digo que teve o que mereceu, e não digo que não era previsível o que teria.

O sino tocou me livrando do constrangimento de ter que expor opiniões drásticas, violentas e assassinas. Recolhi meus pertences, a ficha da chamada de Rosângela e me dirigi à sala 7. Não tinha nada preparado. O incidente com Rosângela havia ocorrido no noturno, mal tiveram tempo de avisar e eu de me preparar. Isso não seria problema. Todos os alunos adoravam professores eventuais e sua conhecida aula de nada. Quando adentrei a sala, senti um friozinho. Típico da falta de costume. Assim que todos entraram, fiz o que era paga pra fazer. Levei-os à sala de vídeo e rodei documentário sobre faraós.

Diversifiquei durante o dia. Redações. Leitura de poemas em voz alta. Círculo Sociológico. E mesmo partidas de xadrez e damas. Estas últimas promovidas na única aula do vespertino. Teria ainda duas no noturno. Nesse dia, o único fato a ser destacado até ali foi uma briga entre garotas por causa de um espinhento que se ria enquanto as duas arrancavam seus cabelos. Ambas separadas por mim. Ambas suspensas pela diretoria. Levadas posteriormente pelo Conselho às suas casas para notificar e conversar com os pais. Conversas que resultariam em coisa nenhuma. O que alguns adolescentes e crianças precisavam era de disciplina militar. Ao menos pensar isso eu podia. Já falar…

Cheguei em casa às 16:30 aproximadamente. Almocei na escola. Teria cerca de duas horas para tomar um banho e descansar antes das aulas do noturno. Estas eram das mais fáceis. Todos chegavam cansados dos seus respectivos empregos e tudo o que queriam era alguma socialização para irem embora e dormir. Pensava fornecer discussões sobre política, objetivos profissionais ou outros assuntos correlatos que pudessem causar alguma divergência para que não se entregassem ao sono. As discussões políticas eram sempre a receita certa, com muito cuidado, é claro, ou poderiam explodir brigas feias e inseparáveis.

As aulas são no piso superior, sala 13. Muitos professores aguardam soar o sino para irem aos currais. Alguns desprezíveis doutrinadores. A verdade é que não simpatizo com a maioria e a maioria comigo. Dou-me por satisfeita com a insatisfação mútua. Mas decido subir antes para evitar ter que olhar suas caras rancorosas e cansadas. Isso é sempre um risco. Correr o pátio antes do sino tocar. Alguns alunos ficarão olhando-me dos pés à cabeça enquanto vou. É a posse o que eles desejam. A carne, a penetração, a luxúria: o sexo. Dominar quem os domina. Nada mais.

Algumas alunas observarão para imitar as roupas, o penteado e o jeito de andar. Outras terão inveja e cochichos vão surgir sobre a saia curta, a sandália que é vulgar, que meus braços nus são magros demais. Comentários provenientes das desprezadas, feias e aprendizes de ressentidas.

Na escada, um aluno, conhecido pela panaquice incontrolável,  e que se acha num grupelho horroroso, decide mostrar para outros que é corajoso e me interpela:

– Boa noite, professora Vivian. Quero uma aula sua hoje, mas só pra mim!

Paro e olho implacável até que ele se enrubesça. Sempre se enrubescem ao tentar sustentar o olhar de uma criatura visceral feminina. Em poucos segundos, ele não mais sustenta o olhar, o riso sai da cara, o sangue sai dos lábios e tudo o que resta são os risos dos amigos pela sua humilhação e cara cadavérica resultante. Pobre garoto. Vai crescer traumatizado com mulheres. Se houver muitas assim no seu caminho, poderá se transformar misógino.

Finalmente estou na sala. Não demora muito e o som do sino também chega. Aos poucos, vão entrando um a um. Sonolentos. Sempre aguardo seis, sete minutos para os atrasados. Gosto deles por trazerem junto com o atraso a oportunidade perfeita de mostrar autoridade. De lançar o mesmo olhar em resposta à pergunta “Posso entrar, Professora” que lancei ao garoto nas escadarias. Mas dessa vez subestimo alguém. Um alguém moreno claro, jaqueta preta, calça Jeans clara e sapato de couro preto, quase uma bota rockeira. Sorumbático. Cínico. Desleixado. Cabelos penteados despenteados. Forte cheiro de maconha. Senta-se, quinze minutos depois do horário previamente determinado. Olha pra mim com seus olhos verdes acastanhados e avermelhados em volta pelo efeito. Está ali como se nada tivesse feito, como se nada tivesse acontecido, e como se eu fosse apenas uma estátua com movimentos automáticos que tivesse botão pause e play. O sorriso tosco nos lábios não me irrita. Nada nele me irrita, surpreende.

O silêncio reina. Todos esperam algo meu. Esse algo demora a vir porque gostei do que vi. Gostei do olhar. Gostei do modo, dos cabelos, da boca, do nariz e do olhar atravessado. Sinto de leve algo como excitação. Mas devo um soco.

– Parece que seu relógio está quebrado. Saia, conserte e volte na segunda aula.

Dirijo-me à porta semi-aberta como eu estou semi-nua. Quero vê-lo levantar-se e olhar de novo pra mim. Ele faz isso, mas agora, diferente da primeira vez, está mais tímido. Mesmo assim ousa e me encara. Tem a coragem de olhar meus pés de soslaio e sai. Respiro e inquiro a sala.

– Quem é esse sujeitinho?

– Problemático, diz uma garota. Outros dizem: calado, instável, drogado, enfim, ele é um adolescente.

– Tem nome esse tudo isso?

– Waldir. Dizem duas garotas ao mesmo tempo.

– Mas gosta de ser chamado WLD. Todas as consoantes do seu nome exceto o r que diz não gostar e não combinar – Diz outro que parece ser seu amigo. Uns se riem dessa teatralidade com vogais e erres.

Waldir. Aquele que governa. Sei disso por ter um irmão com o mesmo nome. Talvez nem ele mesmo saiba o que significa seu nome. Dou pouca importância a significados de nomes, mas esse me dá uma sensação de leitura perfeita. Exceto por uma ausência, o quer após o que.

Sangue ainda corre nas veias. O que há de mais nesse pobre garoto periférico. Respiro e continuo a requerer texto sobre as privatizações. Concentrem-se! – digo. Quero com eles levantar discussões na segunda aula. Pego a ficha enquanto escrevem. Número 44. Waldir, com dáblio. É o único com esse nome. Só pode ser ele. Faltas poucas. E pouca a informação para meu grande interesse. Quero saber mais.

Bate o sino da segunda aula. Bate junto uma ansiedade que disfarço não haver enquanto finjo olhar os textos à minha mesa depositados. Ele entra e se senta no mesmo lugar. Do mesmo jeito. De novo hipnotizado nos meus pés. Até que sobe disfarçando pelas pernas e me olha franco no rosto. Sei que me olha. Levanto os meus do texto e olho até que ele desvie os seus para a carteira. Rapazinho desafiador! Novamente os alunos me esperam. Alguns já olham a cena com curiosidade. Burburinhos vão surgir, certamente. Preciso colocar ele logo nos eixos antes que perca o controle. Debochada, digo:

– Senhor Waldir, O senhor perdeu a primeira aula sabe-se lá por qual motivo, agora nem mesmo interessa. Terá cinco minutos para fazer o que seus amigos fizeram em 30. Quero a mesma qualidade que deles extraiu-se na sua redação com o tema do lousa. Por que me olha? Olhe seu caderno e faça já! Ele obedece enquanto outros riem. Fico com um pouco de pena. Dessa vez o deixei na lona de vez. Tratamento padrão e padronizante, é do que ele precisa. Mas por que não estou como das outras vezes, indiferente? Dispenso as divagações e peço para formarem o círculo que vai até mim. Espero um ou dois minutos até que ele me entrega a folha. Leio rapidamente:

Não ligo que vendam o que nunca existiu. Não ligo que vendam o que nosso nunca foi. Poderiam aproveitar a oportunidade e vender logo o país todo aos Estados Unidos. Eles sabem melhor como fazer uma nação, uma democracia. As pessoas dizem que temos algo, que temos um patrimônio. Se fosse nosso, não deveríamos pagar para ter. A privatização é um bom mal que precisa ser concretizado. Todas as empresas públicas poderiam ser privatizadas. Estradas, ferrovias, Correios, Petrobrás, tudo tudo deve ser privatizado. Sem isso, nada aqui funcionará. Na verdade, nada funciona, e o que ainda nos serve, vai parar de servir tão logo roubem até as portas e cadeados. Eu só gostaria de chegar atrasado e poder ficar dentro da sala, olhando pra você e, principalmente, para os seus pés!

Muito corajoso esse garotinho, com as letras. Quero ver se é com a voz também.

– Senhor Waldir. Acho que o senhor poderia ler aqui na frente o que escreveu. Seus amigos devem estar curiosos para descobrir sua capacidade de raciocínio rápido, não?

Consigo ver o sangue aquecendo suas bochechas, ele se contrai. Está sendo muito exposto. Mas é porque se expõe! Deve ter pensado conseguir o que eu consegui agora. Com um esforço heroico se levanta. Pega a folha estendida em sua direção, encosta-se na lousa e cruza as pernas. A postura desapareceu. A voz está trêmula como as mãos que seguram a folha. Ele lê em meio a deboches. Mas muda o teor do fim. Realmente tem raciocínio rápido, ainda que sob pressão. “…Vai parar de servir tão logo roubem até as portas e cadeados. Eu só gostaria de pedir desculpas pelo atraso. Não se repetirá mais.”

Eu respondo que dessa vez as desculpas serão aceitas, e o parabenizo pelo texto. Razoável pelo pouco tempo. Mas tem fraquíssima argumentação. Inicio assim a discussão e cada um fala suas bobagens. É de dar dó tanta desinformação. Não sabem direito nem mesmo o que é público e privado. A maioria prefere a parte de cima do muro, não percebem o quanto ele é escorregadio, seres que vivem nos meios vão ser despedaçados por todas as forças contrárias. A discussão se torna tediosa. Deixo ela seguir seu curso mecânico dos atropelos e babaquices. De vez em quando lanço alguma isca para eles continuarem até que acabe, e assim vou podendo olhar para ele, enquanto observa seus colegas falando. Tem um ar de tédio total. Suas unhas estão destruídas pelos dentes. Outras vezes, percebo que olha pra mim de esguelha. Desconfiado. Com medo de mais constrangimentos. Esses olhares produzem em mim a nudez total. Sinto dele o desejo. A ânsia e o resto. Geralmente detesto. Geralmente se detesta muita coisa. A aula termina. E começa algo em mim.

Anúncios

15 comentários em “Eventual – Entradas

    1. 😀 😀 😀 😀 Sorrisão… Brigado, amiga. Vindo de você, acredite, já estou satisfeito. Sei o quanto é exigente com escritos, né? 😦 Esse demorou sair, viu. Estava há umas três semanas brigando com a apresentação. Acho que agora vai, rsrs. Tomara. Beijo, ótimo fim de semana. 🙂

      Curtido por 2 pessoas

  1. Caramba, é o tipo de texto que provoca no leitor uma voracidade por mais leitura. Fui lendo cada vez mais rapidamente, ansioso para ver até onde iria. Sen-sa-cio-nal! PS: gostei especialmente do texto do aluno. Tem que ter coragem de escrever isso, ainda mais considerando a ideologia dominante nas salas de aula, o que significa colocar o pescoço a prêmio, com o risco de reprovação por motivos políticos. Afinal, todos sabemos que é exatamente assim que a banda toca: o que importa, para alguns professores, não é se o aluno aprendeu a matéria, mas se assimilou a cartilha do partido. (Desculpe a digressão, mas com esse gancho que vc deixou no conto, não há como resistir, rs.)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigado, querido Laércio. Bem isso mesmo no seu P.S., amigo. Concordo com cada frase. É a formação de idiotas úteis e também inúteis. O currículo viciado e o ensino do raciocinar de maneira rasa. Se é que dá pra chamar ensino de raciocínio. Tudo com viés mentiroso, fraudulento e viciado. Isso nas escolas. A faculdade costuma ser bem pior. Pois lá ainda resta a canetada para aprovação, diferentemente dos colégios fundamental e médio. Falam de dinheiro. O problema nas escolas, penso eu, nunca foi dinheiro. Mas verdadeira educação, só uma revolução, amigo. Contudo, pelo que vemos, isso nunca acontecerá. Abraço, amigo. Ótima noite.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Exatamente! Perfeito o seu diagnóstico. Aliás, se pensarmos bem, essa movimentação toda que ocorreu em SP, com ocupação de escolas etc., vc percebeu o viés da coisa, né? A intransigência da turma indica que a questão escolar foi mero pretexto. Estamos assistindo à formação de uma verdadeira tropa. Que um dia votará. Adivinha em quem? Pois é. Meu caro amigo, os horizontes são sombrios. Um forte abraço e um ótimo dia pra vc.

        Curtido por 1 pessoa

        1. Enviesado totalmente. Eu acompanhei meio que de longe. Sem muita paciência, por estar claro o objetivo. Após o Gov. voltar atrás, continuaram. Batendo os pezinhos e exigindo. “Nós queremos, queremos e pronto. Não vamos discutir.” Todo esse extremismo estudantil vem de longe. Há muito que se opera dentro de escolas e universidades um monstro chamado burrice e com apelido de ideologia. Enquanto isso, ninguém estuda, só enche o saco. E também ninguém ensina, porque os engajados só pensam em doutrinar. Diante de tantas aberrações, a expressão horizontes sombrios cai precisa, sem maior necessidade de explanações. Off: Prezado, vi você o mico e o muco na Quinta Autoral da cara Juliana. Sabe do meu carinho, fiquei feliz e curti lá. Mereces cada elogio e reconhecimento. Aliás, merece muito mais, seu trabalho é esplêndido, não só com o Mico e o Muco. Eles são só um indício do que tens aí. A sua capacidade de articulação textual é absurda. E seu conhecimento é vasto demais para que possa ser desembaralhado em poucos meses. Destaco minha admiração pela enésima vez. E se não dou elogio lá, é porque deixo a oportunidade para os que ainda não te conheciam. Somente por isso. Forte abraço, ótimo dia, caro amigo. E se não nos falarmos mais nesse dia, ótimo final de semana.

          Curtido por 1 pessoa

          1. Exatamente, foi isso mesmo. A intransigência deles, mesmo depois do recuo do governo, deixa cair a máscara: era puro pretexto. Provavelmente, havia uma “ordem superior” a seguir: bater bumbo para dividir os holofotes da imprensa. Não dá para levar a sério. E vc tem razão, há uma espécie de acordo, pelo qual o recrutamento ostensivo de militância faz pose de “educação”. Há até argumentos nesse sentido: é preciso “conscientizar”, criar um pensamento “crítico” etc. É um jargão muito próprio, que oculta e tenta justificar o fato de que a matéria de verdade (considerada “alienada”) deixa de ser ministrada em favor da lavagem cerebral ideológica. E esse exército vc sabe como votará. Só nos resta recitar Dante: “abandonai toda esperança”. Não à toa, ele diz isso na entrada do inferno. Para Dante, que não poderia imaginar o que vivemos, citemos Compadre Washington: “sabe de nada, inocente”.
            Caríssimo, muito obrigado pelas suas sempre gentis palavras! O que a Juliana e o Lucas fazem, de divulgação dos trabalhos alheios, é de uma generosidade que, eles sim, merecem os nossos elogios.
            Um forte abraço, meu caro amigo, e um ótimo fim de semana!

            Curtido por 1 pessoa

  2. Eu não teria coragem de encarnar um personagem diferente de mim a esse ponto… quanto à filosofia, uma coisa é ler um bom livro dessa matéria… mas já vi que ensinal nas escolas uma filosofia que não tem nada a ver com filosofia, geografia sem geografia.,… abraços.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Miguel. Pois eu reconheço que não foi fácil, primeiro tomar essa decisão de fazer esse exercício. Que quase produziu um colapso nervoso. rs. Quanto à diferença entre a filosofia e o ensino de filosofia, você está absolutamente certo. Inclusive nos outros exemplos. Daqui uns tempos estarão ensinando inglês enquanto dizem ser português. Complicado. Aproveitando o exemplo: nada mais é o que é. Abraço, amigo. Imenso prazer receber sua visita ilustre. Tenha uma excelente semana, amigo.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s