Crônicas · Série

Eventual – Apresentação

eventual

Meu olhar nas bordas amadeiradas que da cativação e persuasão da compra. O que me desperta brilho e traz a fragrância e sabor da novidade, possuo! Todas aquelas manchas negras desiguais, minha vida até ali. Os dedos deslizantes esmaltados no roxo escuro, sinto o contato gélido da folha selada à madeira cuidadosamente, sem falhas. Eu! Tão lustrada que impossibilitava deslizá-los sem repercutir o som dos arrepios pela estridência. Parei. Parei-os. Da madeira para a figura refletida que parece eu. Aquela sou eu, e é como se fosse outra. Os fios pretos correm menores, pouco abaixo das orelhas. Bagunçados dos puxões do homem que não era mais homem; obrigado aos artifícios da pífia virilidade. Esta inexiste como o homem. Eu me submetia aos caprichos daquele velho porque ele se submetia aos meus.

Sempre gostei da observação minha. Nua. Minha pele leite não pasteurizado me fazia admirar a justaposição quando raios solares injetavam espíritos lucíferos onde só havia morbidez e langor. Naquele dia, a combinação de luzes no contraste havia criado a formatação perfeita. Do cuidado e da ponderação vem o ato no reflexivo, ou teria feito fotos magníficas de mim mesma. Memória confiável só a minha. Meus olhos castanhos encararam meus olhos castanhos com curiosidade provocativa. São lancinantes, os quatro. Desci os verdadeiros e os refletidos ao nariz que, mesmo com 34 anos de idade, continuava importante e imponente. Encaixado nos mínimos detalhes para soar perfeito à simetria do rosto fino, europeu demais para uma civilização miscigenada demais. Esta, não me merece. Ele deixa-me pretensiosa. A boca despretensiosa era uma confissão, o sangue que chovia nos canos carnais não era latino. Ao lábio superior pela enésima vez com seu n manuscrito espaçado preguiçoso, quase sem curvatura. Quase uma curva perfeita. Do inferior, uma linha esticada para baixo com duas pontas insinuantes mas vagas.

Um sorriso cínico nasceu da lembrança, da causa e do efeito. Surpreendente para outras e aos espaços de corpos inteiros, penetrava mas perfurava. Do queixo, a magreza e na metade da protuberância que de um lado está caindo e do outro vai subindo para finalizar o desenho da face. Se o que a vida é são altos e baixos, meu rosto todo era denúncia e grito. Mas meus altos eram mais altos e meus baixos ninguém via. Gosto do que vejo. Gosto do que sou. Talvez por isso me contemple. Minha auto-estima está toda ali. Mas meu poder vai abaixo.

Uma maçã partida em duas. Tamanho médio do das brasileiras antes dos géis. Não me importo com isso, a lei da gravidade não há de me envergonhar. Do tamanho p para o g nos bicos. O clima frio e a nudez os eriça, fazendo-os ficarem apontados para eles mesmos, desejantes e pedintes do aperto e do beijo. Estão em estado de alerta à toa. Não há nada acontecendo ou por acontecer. Esse marrom quase chegado ao escuro não gosto. Não gosto e tampouco desgosto. Irrelevante. Há uma terrível mancha formada pelo velho, abaixo do esquerdo. Irrita-me mas não abala. Apesar de me levar para a imagem grotesca daquela pele flácida, e das unhas, e dos pelos, e do cheiro e de tudo. Desvio minha mente e os dois para o umbigo que é a parte mais atraente. Muito bem cuidado. Um pingo certo naquela descida íngreme nem positiva ou negativa: neutra.

Finalmente chego nela e passo um bom tempo a observar de lado, de frente, e de lado. O corte triangular é proposital para dar a aparência de pirâmide de ponta-cabeça. Não acho que alguém vá achar um dia incoerência ou contradição no fato de o topo estar mais ao chão, porque a leitura deve ser de baixo pra cima. O falso topo é o verdadeiro. O pelo ralo preferi ao nenhum. Eles coadjuvam para que não fique ainda mais nua do que costumo ficar. Noto o início da curva dos outros lábios ainda mais desejados que os de cima; e a almofada exterior, e o corte certeiro que produz a linha tênue da divisão que une e multiplica. Mas vou ao par também neutro como o umbigo. Os joelhos não parecem joelhos pela ausência de rezas, mas peças decorativas para o que ia bem ficar melhor. Ao fim, os produtos da minha perpétua admiração. Nunca os tapo senão com correias do enfeite. Seria um desatino. Mas minto. Não é pelo desatino, é pela vaidade constante e inerente.

O telefone me assusta e fujo da absorção narcisa. Ele quase pula do criado mudo próximo à cama desforrada. Agarro-o, toco para atender. É da escola. Devo ir substituir alguém que não quer ir por qualquer motivo que leva à invenção de outro. Devo estar lá em algumas horas, e estarei. E estou. Eventual!

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