Crônicas · Microconto

Microconto Prostituta – Quarta-Feira Criativa

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O meu dessa semana segue abaixo, antes, agradeço a visita.

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Prostituta

Minhas horas são dinheiro. Dinheiro gasto em minutos; para consegui-lo de novo, preciso gastar-me por mais algumas horas. Eu sou um ser que geme. Na cama, no sofá, no chão, na pista e dentro de mim. De dor! Queria poder sair. Mas na escala da pirâmide social, isso é insignificante, eu estou lá em baixo. E, se sair, saio pra mais baixo ainda. Sou uma mulher triste que procura gemer de prazer enquanto disfarço o gemido de tristeza. Mesmo assim, prefiro ser estuprada com consentimento que ser escravizada e estuprada sem. Mulher pobre sem família e sem base, ou vira puta ou escrava do sistema. É assim que funciona. Algumas vão casar com alguém que as sustente. Outras vão trabalhar pra sobreviver por uma ninharia. Igualdade de gênero? Conversa fiada. Desigualou de vez! Depois de trabalhar o dia todo, chegar em casa e ainda ter que fazer de tudo. Enquanto o marido gasta o dele e o seu comigo. Ou um namorado espera pra ter de graça o que eu vendo caro. Ai delas se não derem fácil, ficam sozinhas! Outras casam enquanto eu é que dou. Frescas; deveriam me agradecer, já que detestam dar e estão muito cansadas pra isso. Se sonho casar? Eu caso por algumas horas com todos os que me sustentam. Caso e separo, caso e faço separar. Pouco me importa. Prefiro receber por ser penetrada que, sendo penetrada todos os dias, ter a paga da ingratidão. Sim, sou uma prostituta. Sim, vendo meu corpo. E você que me julga, já não vendeu a alma?

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12 comentários em “Microconto Prostituta – Quarta-Feira Criativa

  1. Bravíssimo! Um texto forte, como poucos. Interessante que, de modo geral, terminam com uma “moral da história” as fábulas. Só que, na minha opinião, são raras as fábulas feitas não a partir de um enredo, como as de Esopo e La Fontaine, mas a partir de um fluxo de consciência. Será, conceitualmente, uma fábula? Não sei. E, a bem dizer, não importa. Até porque o mais impressionante é como vc conseguiu construir esse belo retrato psicológico com base nos dados do Palhão. Aliás, não só um retrato psicológico, mas social e sobretudo ético. E ético não só da protagonista, mas também do leitor. Parabéns, meu caro.

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    1. Muito obrigado, querido amigo. Eu tinha uma ideia de ser mais cru. Mas procurei eufemismos pela audiência (não minha, pois esta que se cuide só, já que nunca prometi contos de fadas) mas lá do projeto, ainda assim, acho que ficou forte. No entanto, é-me impossível tratar do assunto sem ser violento, mesmo tentando diminuir o sangue que corre. Fico grato pela sua consideração sempre oportuna e baseada. Forte abraço, Laércio. Ótima tarde e noite.

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      1. Ah, sim, muito bem observado. Também tomei esse cuidado, quando participei. E não pude deixar de rir aqui com essa de ninguém há de esperar contos de fadas aqui, rsrs. De fato, quando me lembro daquele seu conto de Natal, rsrs… e da advertência que vc fez antes – eu diria que foi providencial, rsrs. Um forte abraço.

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        1. Rsrs. Sabe caro amigo, nem sei se já comentei contigo. Andei no início fazendo testes com palavreado de todo o tipo para ver se não era censurado. Em caso positivo, iria abandonar o barco obviamente. Não sei se o site é hospedado nos EUA. Mas muito provavelmente. Me espanta o modo como eles lidam com a liberdade de expressão, isto é, talvez seja desinformado, mas creio que por lá dificilmente falam em censura. Vide Donald Trump. Se falasse aqui o que diz lá, creio que perderia sua candidatura em dias. Abraço amigo.

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          1. É verdade. Só que me contaram aqui que o Facebook, embora também hospedado nos EUA, tem censura. Aliás, me contaram exemplos bem ridículos. Ou seja, o minotauro lá está bem atuante. Um forte abraço, caro amigo.

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  2. Ambos, prostituta e palhaço, sobrevivem do mesmo fado e se abraçam na fantasia do fingimento ao cliente. Seu ganho monetário é fabricar felicidade como flor, do esterco da sua própria infelicidade. Belo casal seria numa troca de reais alianças, um prostituta e um palhaço, que singular ironia, brotar deles mentiras pagas, da essência de uma união de verdade.
    Certa vez, eu buscava felicidade de mentira num lugar de mentiras, mas que cuja realidade pelo simples fato de existir, era real. E a prostituta, que pelas vezes e muitas vezes procurada, amiga que eu pensava se fizera, me disse: ” Por que me chama de amiga ? Quem tem amigos é gente! Aqui mulher alguma e gente! Há muitos anos já, que deixei de ser gente !”
    Grande abraço grande WLD!

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    1. Comentário um tanto forte, nobre Athos. Dado a ser considerado uma palhaçada digna de um dos maiores palhaços que já se viu. Devo dizer que discordo na teoria e na prática. Não considero o palhaço fingido. Nem a prostituta. O primeiro é um ator do qual todos esperam a atuação. Ele nem mesmo finge, é quase sempre um palhaço mesmo, por isso segue a profissão. A prostituta geme porque há de gemer e às vezes, poucas é verdade, por causa dos que as visitam e não por causa delas, até gozam. São pagas pra dar e gemer, logo há aí um serviço a ser prestado. Como todos nós somos pagos pra fazer alguma coisa. A diferença é que no caso das prostitutas há uso do corpo diretamente pelo que paga. Ao contrário do borracheiro, do médico, do professor, do frentista e todos os outros que, por exemplo, são pagos pra dar seu corpo mas indiretamente. Só não há paga o escrever textos para sites que se aproveitam de uma sociedade pra lá de antropófoba. Temos necessidade de escrever, mesmo comentários horríveis para fugir da nossa solidão e insignificância. E usam essa necessidade nossa como objeto do lucro. Felizmente não nos damos por isso e fazemos de graça. Mas se fosse a inteligente prostituta, duvido muito que faria isso de graça. Elas têm no sangue a inteligência. Algumas vão logo lançar livros e ganhar dinheiro a rodo. Enquanto os que as julgam vão falar mal delas por aí nas sarjetas do ódio e do ressentimento, elas estão tomando vinho em um iate. Claro que há as que querem ser prostitutas e não são. Talvez fosse o caso da citada. Ou ainda, ela não queria amigos porque os amigos podem querer de graça o que conhecidos pagam. Grande abraço nobilíssimo Athos. Tenha um excelente fim de semana.

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