Contos · Crônicas

Maria Fernanda

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O amor é a compensação da morte.

Arthur Schopenhauer

De frente para a lápide, suas lágrimas não podiam mais substituir a chuva que não veio. Alguém se aproxima a passos rápidos.

– Senhor, precisa mesmo ir. Reabrimos amanhã às 06:oo Hrs. em ponto. Não há permissão para pernoite por aqui. Entendo sua dor, mas preciso que entenda minha ocupação e responsabilidade.

– Pare de falar. Mais 5 minutos e saio. Por favor, me deixe só! Sei como sair.

Ajoelhou-se mais uma vez, e passou os dedos em redesenho por cada um dos caracteres da inscrição. Maria Fernanda S. 1982 – 2014. Mãe, filha, esposa, amiga e Mulher. Caminhou para o céu e levou outro coração e outra alma.

– Estou apaixonado por você. Não penso em outra coisa. Desde que te vi, mais ainda depois que te conheci, só quero abraçá-la. Eu não suporto mais vê-la e não dizer: Quer namorar comigo?

– Ufa, até que enfim. Cheguei a imaginar que nunca ia me dizer isso e que eu iria ter que fazer o papel ridículo de te pedir em namoro. Você é sempre assim, tão tímido?! Aceitaria até um pedido de casamento, garoto!

Abraçou-o e beijou-o, com os dois bracinhos grudados no pescoço dele. Ele, depois de usar toda a coragem, não sabia mais o que fazer daquilo. Onde e como pegar tão delicada criatura. Um cristal na mão de um amador. Era absurdo pra quem visse uma garota pendurada no pescoço de um garoto que, embasbacado e surpreso, ficou também petrificado. Parecia-se mais com uma estátua.

– Meu amor, você aceita casar comigo?

– De maneira alguma! Não aceito. Desejo, anseio, quero, almejo. Te amo mais que tudo! Mas com uma condição, nunca deixe de ser assim, atrapalhado. A tampa da caixinha está virada para o meu lado, como quer que eu elogie a escolha da aliança se não a vejo?

A noiva foi a mais linda que aquela Igreja viu. O noivo, nem tanto. Como sempre, atrapalhou-se completamente. A gravata estava torta. Transpirava como nunca pelo estresse, nervosismo. Não achou um par de meias correto na sua gaveta bagunçada. Estava com um par que não era par de cores diferentes. Depois de muita espera e quase matar o noivo do coração, ela entrou triunfante. Maravilhosa. Mais linda impossível. Muitos choraram. Até homens. Porém, disfarçaram a tempo.

Ele disse trêmulo e gago: Prometo, sim!

Ela disse entre lágrimas: Prometo, juro, grito, proclamo e decreto, sim, sim, sim!

– Amor, calma. É pra desabotoar e desenlaçar, não pra rasgar. Esse vestido é alugado, tolinho.

– Desgraça de vestido, eu já ia pegar uma tesoura.

– Amor, calma. Deixa que eu abro esse sutiã.

– Amor, definitivamente, calma! Você parece um tarado.

– Ai, como eu te amo cada dia mais, Fê.

– Pois pode tratar de me amar mesmo. E parar de querer fazer sexo comigo. Não sou mulher de acasalar, sou de amar. Trate de se recompor, não vai sair daí até que faça do jeito certo, fracote.

Sofreram por muitos meses para ficarem grávidos. Até que um dia…

–  Amorzinho, Amorzinho, Positivo, positivo, P-O-S-I-T-I-V-O!

–  Não acredito, até que enfim. Não era sem tempo. Pensei que teria que trocar de mulher.

– Ah, senhorzinho metido e folgado. Pois saiba que o problema não era comigo, esse seu negocinho é que anda mal.

– Na verdade, ele nunca andou. E sempre esteve mal. Você que quis. Que abraço gostoso!!! Vai se chamar Teobaldo ou Leopoldina.

– Brinca, senhorzinho. Brinca. Jamais. Nem isto ou aquilo. Pensa que não sei que quer desgraçar nossa herança como desgraçaram a sua com esse nome horrível?!

Outro resultado positivo a aguardava. Dessa vez um positivo que era bastante negativo. Abortou. E antes de ir, Maria Fernanda disse, novamente entre lágrimas:

Só queria ver ele nos seus braços, amor. Só isso. Ver esse seu rostinho suspenso e seu jeito atrapalhado ao segurar nosso bebezinho. Mas eu te amei, vivi e fui amada. Lembra daquele livro do Viktor Frankl que me deu. Eu aprendi nele que se você fosse, eu iria sofrer muito mais. Não adianta você dizer que não, meu amor é, sim, Maior! Sei que você não ia querer me ver aqui sofrendo sem você. Entenda isso, sofra por mim. Mas não muito. E tenha filhos. Quero de lá ver você de novo sorrindo.

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13 comentários em “Maria Fernanda

    1. Isso é um baita elogio. Ainda mais vindo de você, caro amigo. Eu acredito que isso possa ser resultado de muita bagunça na infância e adolescência, entre o céu e o inferno, e depois leituras de Padre Marcelo a Dostoievski. Virei essa coisa chamada Waldir. rsrs. Ainda em desenvolvimento, pois há os do Recanto e os daqui a me influenciar, incluindo você, claro. Vamos ver se ainda consigo produzir tautogramas e funk, hehehe. Abraço. Ótima semana.

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    1. Mas nem sonhe nisso. Só se for sofrer de prazer, querida Claudine. Quem sofre na verdade é você, com a tal velocidade WLD. Rsrs. Grande abraço pra ti também, cara amiga. Fica com Deus, tenha uma semana abençoada.

      Curtido por 1 pessoa

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