Contos · Série

O Cafajeste – Parte 2

Se eu fosse cafajeste, seria mais esperto.

WLD

Esqueça tudo o que eu disse: Estou completamente apaixonado! Mesmo os mais competentes cafajestes não estão livres disso. É uma praga que anda no mundo a causar infelicidade a todos nós: amor! Estas quatro letrinhas pequeninas que dentro de nós são gigantescas, de uma grandeza insuportável. Atingido fui pela flecha daquele malvado peladinho. Não durmo direito, não como, não bebo, não rio, não saio, até o banho tem sido difícil. Irreconhecível seria a expressão a me definir. Um completo desgraçado. Sem eira nem beira. Nada mais importa. Dinheiro, carros, mansões, spas, mulheres as mais lindas; nada, nada, nada! Tudo é ela, tudo é dela, tudo é para ela. Tudo é aquele ser que me faz chorar de alegria com um simples telefonema. Uma mensagem. Qualquer coisa que sai dela é como se fosse a última gota para um sedento. E agora nem gota, nem nada. Não sou mais eu, não sou mais meu. É isso que acontece com um homem apaixonado. Vira um completo deserto à procura de seu próprio oásis.

Aprendam, cuecas. Esse é o objetivo de todas as mulheres. Prestem atenção! Todas! Por melhores que sejam, por mais santas e íntegras, no fundo são sádicas. Só ficam felizes de fato com a nossa derrota. Estraçalhando corações masculinos. Fazendo-nos rastejar a um simples estalar de dedos ou assovio. Vê uma mulher feliz? Muitos homens infelizes sem coração batendo são responsáveis. Não existe uma única mulher inteiramente feliz no mundo se não tiver um cão babando em casa, ou mesmo vários nas ruas. Essa é toda a verdade. E você sabe que é assim, amigo cueca. Tenho certeza que já se ferrou um monte.

Tudo começou depois que voltei do spa para a casa do trio. A que era virgem se apaixonou. Queria-me todas as noites, todas. Uma loba implacável. Em uma das minhas fugidas para a cama da irmã, pegou-me no flagra. Nem deu tempo de explicar alguma bobagem. Um escândalo. O pior foi que ela não me bateu, espancou a irmã. Ao ponto de quase matá-la. E depois, pasme, queria me abraçar e fugir comigo. Oh, guriazinha boa. Ah se fosse você a minha. Ah se fosse! Mas não era né? O resultado foi sair da casa, da cidade e, mesmo, do país. Com graves e grandes prejuízos emocionais e financeiros. Se a garota não fosse tão emotiva, nada do que me aconteceu aconteceria. Voltei ao Brasil, claro. Pátria amada tão vária de mulheres e tipos de mulheres que já estava sentindo falta. Afinal, mesmo três, se for todo o dia cansa. É preciso sentir outro tipo de aperto e de gemido. Ou se endoidece. Que me perdoem as bonitas, mas todo o dia leva a desejar uma feia com derriére empinado. Joga-se uma bandeira e tudo está resolvido. Está nisso a explicação para a questão milenar: Trocaste-me por isso? Trocaria até pelo capeta se com vagina gorda, magra, peluda, bigoduda, carecona ou carequinha, e peitos grandes ou só com bicos diferentes tivesse. É ou não é, cueca? Vai dizer que é bom rapaz? Bem te conheço, mentiroso. Comeria até sua sogra numa época de rotineira dificuldade.

Mas falando da minha desgraça, ela estava no avião. Nem precisei chegar ao Brasil. Como tem mulher no mundo, que coisa! Haja rola. E lá estava um exemplar dos melhores na minha frente. Pâmela! Loira, claro. Lorinha, loirinha. E Linda. Muito loira e muito linda. Muito mesmo. Todo o meu interesse era de ordem física. Tudo dentro dos trâmites legais. Nada fora do lugar. Sempre ando com um colar para presentear uma boa loira. Sei até a cor e a pedra que melhor lhes cai. Óbvio que isso é para A Loira, não pense que saio por aí distribuindo presente pra qualquer coisinha que se consegue ter com duas piscadas. Porém, todo o cafajeste deve estar preparado para encontrar uma diva. E, neste caso, tem que ter alguma coisa pra chamar a atenção, pois até as mais lindas, querem ser ainda mais com alguma joia. A vaidade feminina nunca conheceu limites, cueca. Nunca. Pois, então, aprendam, homens. Além dos presentes, elas gostam de ser surpreendidas. E que surpresa não é encontrar um total desconhecido com uma joia caríssima na mão para lhe dar, hein? Foi o que fiz. E na frente de todo mundo para ficar difícil a recusa.

“Guardei esse colar por seis anos, com um único propósito: Dar a mulher mais bela que eu visse na face da terra. Demorou, mas eu achei. Dou com uma condição: um jantar ou ao menos o telefone.”

A cara de espanto foi linda. E nem é preciso dizer que, com alguma relutância, consegui o telefone, o jantar e uma noite das mais espetaculares da vida. Ah, meus amigos cueca, nem imaginam a noite que passei. Mas se quiserem, fiquem à vontade. Ajudo um pouco. Resumindo em uma frase para lhes dar inveja, diria: Biquinhos rosa e tudo o mais rosadinho, inclusive as bochechinhas quando respirava fundo de excitação. Uma deusa, cuecas. Que muitos de vocês jamais verão ou tocarão, principalmente blogueiros chinfrim.

Porém, e desta vez o porém é doloroso, cometi um erro gravíssimo. Passei a ficar com ela todos os dias. Viajava nos voos em que ela ia estar. Gastei uma fortuna com passagens aéreas. Cometi o erro mais pueril que um homem pode cometer, ficar dia e noite com mulher que se mostra fascinante. Homem nenhum, ainda o maior cafajeste, está livre de se apaixonar por um exemplar desse nível. E apaixonar significa agir com emoção e abandonar a razão. Em suma: o resultado é o do primeiro parágrafo. Totalmente destruído e descaracterizado. Por isso digo, jamais, jamais façam isso. Não pensem que podem suportar depois a ausência. Não poderão. Por mais fortes e duros que sejamos, nenhum de nós estamos livres dessas garras cheias de veneno. Privem-se sempre da companhia depois de conseguir o que querem por pelo menos 3 dias. O ideal é forçar e ir mesmo a 5 dias. Porque são criaturas apaixonantes, feitas sob medida para hipnotizar e agradar. Começam a acariciar demais, sorrir demais. Andar semi-nuas pela casa. Fazer chá só de camisa, descalças. E deixam cair com propósito maligno uma das mangas só pra olhar pra sua cara e levantar com sorriso convidativo. Até o acordar descabeladas (sim, esqueça a lenda de que ver uma mulher de manhã descabelada é broxante, a depender da mulher, não haverá outra coisa na vida que você irá querer de novo a não ser isso. Aquela maravilha esparramada, com a respiração continuada. Nua ou só de calcinha. Com os raios do sol refletindo a luminosidade de sua pele… Enfim, enumerar toda a sordidez dos estratagemas dessas loucas é impossível. Num resumo: se você se deixar levar, vai se lascar. Olhe pra mim!

Eu sigo o manual do cafajeste sem o menor problema. Tranquilamente. Até o momento em que mesmo sabendo que se vai cair na armadilha, se opta por cair. Isto é o que causa a paixão. Evita-se chegar perto dela, e estará sempre protegido. Brinca com fogo e vai se queimar. Não é questão de falta de saber, mas de não conseguir fazer o que se sabe. Porque junto dela vem o desejo, a atração incontrolável. O segredo todo é: saciei-me, caio fora. Mas eu não caí, cuecas. Não. Eu fiquei porque não me saciava nunca. Mais, mais e mais, e queria mais e mais. Uma droga. Um feitiço. Uma simpatia. Chame do que quiser, estatelei-me ao chão. Como um adolescente boboca.

Lembra-se do que disse sobre as mulheres gostarem de ver homens sofrendo por elas? Pois com Pâmela não foi diferente. Ela percebeu primeiro que eu a amava. Com essa conclusão, testou o tamanho. Vendo que era grande, testou os limites. Observando a vastidão, caminhou sobre ela. Não descalça, de salto que é pra machucar mesmo. Jogando com os ciúmes, me aprisionou. Eis algo mais, nunca demonstrem ciúmes. Elas vão querer provocá-lo. Elas não se perfumam e gastam horas no espelho por você. Toda essa rotina é para outros a desejarem enquanto você se irrita e para outras a invejarem. Laço, amigo, laço. Veja você se a estratégia não é diabólica:

“Amor, estava hoje no trabalho e um engraçadinho falou isso e isso. Amor, deram em cima de mim na rua. Amor, ta vendo aqui no Face, faz dias que fica curtindo minhas fotos e dizendo que sou linda. Amor, não aguento mais na faculdade aquele professor dando em cima de mim.”

Tudo mentira. Tudo. Ela gostou de cada um desses flertes, só pra poder levar pra você e te irritar, te fazer sofrer ou até mesmo levar você à loucura. E mesmo que não deem em cima, elas vão inventar. Nesse instante, se você mover um fio de cabelo, enrugar um pouquinho a testa, está perdido. Estará acabado. Ria e ridicularize o oponente. Tire sarro. E não deixe de elogiar a beleza das amigas dela. A beleza da irmã, ou de alguma atriz de seriado ou novela que ela assiste. Claro que com prudência para não apanhar. Use o método de comparação. Nossa, a boca dessa atriz é igualzinha a sua (fale isso quando for completamente diferente e mais bonita). Ou ainda, sua amiga é tão legal, né? Simpática ao extremo.

Agora se você, cu peludo, irritar-se, xingar, não aprendeu absolutamente nada. Eu sei, você pensou: Mas você caiu, como poderia aprender com um cafajeste fracassado? Aprende-se a não cair com quem caiu, cueca. Quem vive de pé não sabe nem cair para amortecer a queda ou se levantar de um salto. Sim, eu demonstrei fúria. Tentei não demonstrar, mas não consegui. Paulo Severo. Esse é o nome do cafajeste com cara de astro de Hollywood. Piloto novo. Antes de ser contratado, já havia sido obrigado a deixar de estar com ela. Segundo ela, comentários, comentários. Vê se pode. Evitar comentários. Depois entrou esse bode. E ela me provocando sempre que podia. A companhia contratou o melhor. Esse tem experiência. Além disso, é um gentleman. Eu fiquei possesso. Quis saber quem era. Passei a ir até à companhia. Até que avistei o safado. Cara de cafajeste total. Um cafajeste reconhece outro no ato. Na hora pensei, vai querer comê-la de qualquer jeito, se é que à época já não havia conseguido.

Existe uma lei no Universo, cueca. Ninguém é fiel se não faltar oportunidade. Acredite, isso é verdade. Não existe mulher no mundo, casada ou não, que consiga lidar com um safado, cafajeste o tempo inteiro no pé. Ainda mais quando tal figura está trabalhando junto. É abertura de porta. É cafezinho. É lanche. É sorriso pra lá e pra cá. É encobrindo erros. E, num único dia em que esta mulher tem um probleminha com namorado ou marido, já era. Bye bye fidelidade. Agora pensa na minha situação. O camarada além de cafajeste parecia o George Clooney. Até eu se fosse mulher iria querer dar pra ele. E, pior, o vagabundo era casado. Isso significa troca de chifres, sabe lá o poder que isso tem? Imagine ainda que esse cara tenha o dia inteiro pra ficar cheirando, tocando a mão, mostrando fotos, almoçando. Falando do sofrimento com sua “atual” e todo aquele blá-blá do caralho só pra comer. Você acha que ele não ia comer? Claro que comeu. Comeu e come, porque eu me fodi total. E nem pude saber se fui traído. Porque ela terminou, dizendo que não tinha mais o mesmo sentimento por mim e estava apaixonada por esse canalha. Não queria me trair. E que só ia ficar com ele se o “severo” vagabundo divorciasse. Pelo menos o bundão se lascou. Arrumou um baita de um problema. Mas e eu? Como eu saio disso? Como a reconquisto só para dispensar e me vingar? Se eu conseguir, te aviso.

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12 comentários em “O Cafajeste – Parte 2

  1. O tão esperado: O Cafajeste – parte II !!! *-*
    Nem preciso falar que ri muuuito e ameei né?! Primeiro, porque sua construção textual foi demais de maravilhosa, com partes hilárias! Segundo, bom, como você mesmo disse.. nenhum cafajeste está imune ao amor e vê-lo nessa situação é muito gratificante (não pelo fato dele estar abobalhado pela guria, mas por ser, simplesmente, humano! 🙂
    Estou mais que ansiosa para saber a continuação hahaahah – por isso, trabalhe duro Mr. Waldir!
    Mais um da série: B.R.I.L.H.A.N.T.E !
    Beijos e abraços *.*

    Curtido por 1 pessoa

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