Contos · Recanto das Letras

Se os homens fossem sinceros (Republicação)

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Lembro-me daquele filme de comédia estrelado por Jim Carrey, ator incrível diga-se de passagem, chamado “O Mentiroso”. Fez relativo sucesso e creio que muitos dos recantistas assistiram. Trata-se de um advogado que fica impossibilitado de mentir por causa do desejo realizado do filho no dia do seu aniversário, magoado pela falta do pai que havia prometido estar no aniversário. O filme é hilário. Recomendo a quem não assistiu. Acredito que a escolha do gênero masculino foi proposital. Apesar de não poder confirmar, é muito difícil uma mulher, por mais mentirosa que seja, superar um homem nesse quesito. Os homens mentem tanto que nem eles mesmos sabem quando estão falando a verdade.

Vou citar aqui alguns exemplos colhidos em um diálogo com um grande amigo de longa data, a quem chamo Bigode. Infelizmente, depois de me mudar, conversamos pouco. Os exemplos vão parecer absurdos, invenções, mas embora eu dê um tom pitoresco por conta do estilo, tudo tem fundo verdadeiro.

Bigode, à época, casado há mais de 10 anos, pai de alguns. Sujeito com cara de homem sério. Não quero dizer que era fingido. Ele não fazia nada de errado. Apenas começou a ser amigo confidente. Sincero ao extremo. Trabalhávamos juntos. Estávamos falando do assunto masculino número um, depois do futebol, política e falta de dinheiro: mulher. Precisávamos pegar dois ônibus para chegar em casa, e morávamos próximos um do outro, não mais que dois quilômetros. No coletivo, ele virou e disse, depois de um dia cansativo de serviço: Vou te contar um sonho que tenho que ninguém sabe, nem minha mulher. Vai parecer ridículo, mas vou dizer mesmo assim. Já estou muito velho pra ficar guardando essas coisas.

O meu mundo ideal é um prédio de cinqüenta andares, com 100 apartamentos. Dois por andar. Falou isso e ficou quieto por um tempo. Eu interpelei: andou fumando coisa estragada? Espera, disse. Estou tentando ser sincero e não é fácil. Ok! Depois de um longo suspiro, continuou. Um prédio de cinqüenta andares, todo meu. Mas que todos os apartamentos sejam ocupados por mulheres de todas as cores, idades, raças, credos e cheiros. Todas elas são minhas mulheres. Casadas comigo. E que eu possa visitá-las a hora que quiser. Mas ultimamente tenho acrescentado algumas outras características a esse sonho. Eu comecei a rir desesperadamente. As pessoas próximas passaram a olhar estupefatas. Creio que até me engasguei. Porque era muito difícil ouvir isso de um camarada com bigode clássico e cara de Agente Funerário. Tive que me controlar, pois ele praguejava, chamava-me moleque e eu iria perder tão fino relato sincero.

Acalmados os ânimos, ele continuou, falando bem baixo. Veja, eu amo minha mulher. Não é nada de crise no casamento. Nesse ponto eu o interrompi. Você disse que ia tentar ser sincero, não comece a mentir. É verdade! Gosto dela cada dia mais. Mas… Mas queria ter esse prédio com todas essas mulheres e a minha mulher em casa. Nada mal, hein Bigode? Salomão tupiniquim… Mas você me falava de outras características. Há coisa ainda mais maluca?

Não é maluquice, Zé Ruela. É coisa séria. É sobre o funcionamento do prédio. Os elevadores têm que ser dois exclusivos. Um para mim e outro para elas. Para evitar constrangimentos. Os botões que levam aos apartamentos devem ter cores que facilitam a identificação dos andares onde há mulher naqueles dias, quais estão com TPM e quais estão doidas por mim. Você não sabe ainda como é ter que agüentar uma mulher com TPM. Se pudesse escolher, preferiria o período todo nos quintos dos infernos. Tive que me segurar para não me matar de rir de novo. Botões de elevador com ciclo menstrual? Certamente que uma tecnologia daquelas!

Mas agora tenho pensado, continuou ele, que isso ainda está muito imperfeito. O ideal era que todas fossem mudas também. Mudinhas da Silva. Sem quaisquer emissões de ruído da espécie que for. E que também não soubessem LIBRAS ou escrever. E tem mais. Que jamais recusassem qualquer coisa que eu quisesse fazer com elas. Respondessem tudo o que lhes fosse pedido com sorrisos e palmas. Eu disse: cara, você ta louco. Completamente maluco. Tô nada. To te dizendo o que você um dia vai pensar. Agora, tem algo absolutamente essencial. Tem que ter uma dúzia de japonesas nesses apartamentos. Uma dúzia? Mas o que você tem com japonesas, Bigode? Aí é que está. Não sei explicar direito. É algo quase inconsciente. Sei lá. Talvez seja por elas parecerem tão certinhas. Parecem feitas em série. Quero ver se têm diferenças. Com doze, tiro a dúvida. Faço um estudo completo. Eu já tentei ver filmes, mas têm uma tarja.

Nossa! disse. Estou me sentindo muito melhor. Contar isso tirou um peso. Mas quero também contar coisas extraordinárias, que talvez eu nunca mais na vida tenha coragem de falar de novo. Calma lá, bigode. Não sou padre. Vai com calma. E se você contar crime, vou te denunciar. Não é nada demais, peão. Pára de me interromper! São só relatos da infância e adolescência. Nada de crime. Talvez pecado. Isso daí já não posso garantir. Pois, então, quando eu tinha por volta de doze anos, me apaixonei pela professora Carla. Não preciso entrar nos detalhes do que isso resultava na minha idade. Mas certa vez passei muito mal. Acredito que quase tive um ataque cardíaco. Cara, para com isso e fala mais baixo. Espera, meu! Só ouve. Como as mudas lá do prédio. Resignado, pensei. Agora lascou. Bigode pirou. Como me desfazer deste doido?

Continuou. Depois da professora Carla, um ou dois meses depois, foi a ajudante de cozinha da escola, depois a mocinha que atendia na cantina, depois várias primas, e, nesse ano, até mesmo minha tia, cara. A coisa foi ficando desproporcional demais, e eu queria todas. Todas! Andava na rua como um cão. Eu cheguei estar apaixonado, ou melhor, obcecado por sete de uma vez. E não conseguia me conter. Até que comecei ver revistas e filmes dos meus irmãos mais velhos. E passei a me apaixonar por mulheres que jamais iria conhecer. Fiquei maravilhado que as mulheres não soubessem que pelo que elas eram, os homens eram capazes de travar uma guerra sem precedentes. E elas saindo facilmente com homens absurdamente ridículos de feios. Mas depois, esqueci disso. Afinal, eu era um dos mais feios do mundo. Ainda sou, mas naquela época era caso de internação para não assustar as outras crianças. Eu sou feio hoje, mas antes não era humano. Só uma garota gostava de mim na escola. E ela tinha bigode. Hum? Eu disse. Bigode? Freud explica por que esse seu bigode. Rimos juntos. Às gargalhadas. Já estavam, os passageiros, assustados.

É, zé, mas isso não é coisa de dar risada. Por causa de um tio babaca, acabei saindo com essa garota. Ele perguntou se eu tava namorando. Eu disse que não, que só tinha uma garota feia pra caramba atrás de mim. Aí ele me aconselhou a namorar ela. Segundo ele, você precisa aprender com alguém. E não importa com quem. Escolha a bazuca que for e vai com fé e vigor. E eu fui. É claro que não demorou muito e cansei. Mas não tinha jeito de me livrar. Ela ficou maluca. Comecei a tentar todas as maneiras de ignorar. Mas nada servia. Até que um dia, depois de sairmos, sempre para locais escuros, para que ninguém me visse com ela, eu passei a bolar um plano no meio do mato. Não sem medo de dar errado. Porque aquela era a cartada final. Se não funcionasse. Nada mais ia. Pois, então, eu forcei flatos depois de sairmos do matagal. Você o quê, Bigode? PQP! Mas realmente você era maluco. Cara, espera eu contar. Que chatice. Eu tinha que dar um jeito de me livrar. A situação estava ficando complicada. Aí consegui. Funcionou. Isso é o que importa. Eu fazia e dava risada. Ela voltou chorando pra casa. Nem quis que eu a acompanhasse. Bigode, vira o disco, preciso jantar ainda hoje. Termine essa confissão sem pé nem cabeça, logo!

Queria que bigode parasse, mas continuou. Depois de um tempo, ele continuou… Acabei entrando no mundo literário. Tá, agora vai dizer que se apaixonou por livros? Dormia com eles? Peidava neles? Não, cara. Apaixonei-me pelas personagens. Queria de qualquer maneira a Emma Bovary, A Luisa do Primo Basílio, A Maria Eduarda de Os Maias, Gabriela, Tieta, Dona Flor do Amado, Capitu e Sofia do Machado. Sei que você é religioso, não falo isso para ser sacrílego, não é zombaria com nada, mas fui apaixonado inclusive pela Bete-Seba, Rainha de Sabá e, principalmente, a Rainha Ester. Ah, como gostaria de ter sido o Rei Assuero. Imagino essa mulher lindíssima toda submissa a mim. Pedindo-me as coisas e me agradecendo como se fosse o último homem da terra. Definitivamente, você não ficou louco, Bigode. Sempre foi. Conversa, peão. Todo homem já pensou coisas parecidas. Mas o que eu fiz com a literatura, isso eu realmente prefiro deixar pra lá. É muito pesado. Muito vergonhoso. Vamos mudar o assunto de novo. Vamos voltar a falar do edifício dos sonhos.

Além das japonesas, quero também doze mulheres de 60 a 90 anos. Também não sei explicar. Curiosidade mesmo. Só pra ver como que é, sabe? Mas eu acho que um fato pode explicar. Quando criança, devia ter uns 10 anos, fui convidado por um primo para ir na casa de um colega dele. E lá só estavam os avós do colega dele. Era de manhãzinha, o avô ficou lá pro quarto mesmo. E a avó nos atendeu. Tinha acabado de acordar, estava de camisola azul meio transparente. Segundo meu primo me contou depois, ela tinha passado dos setenta, ninguém sabia quanto. Provavelmente tinha uns 80 ou mais. Era daquelas que não querem envelhecer, mulheres raras. Se eu te disser que, óbvio, de cara estava meio acabada, mas de corpo tava inteira, você acredita? Pára, bigode. Agora chega. Você está exagerando. Isso já não é sinceridade, é caso de psiquiatria. Tô falando sério, zé. Sonhei meses com aquela vovó me fazendo cafuné. Talvez por isso hoje tenha uma concepção acerca da beleza que quase ninguém parece enxergar, e que me faz aproveitar as mulheres sem que eu me decepcione com prazos de validade.

É a seguinte. Quase todos olham para o rosto para ver se combina com o corpo. Eu olho para o corpo para ver se combina com o rosto. Mas sou capaz sempre de ficar com o corpo, ainda que estranho, em detrimento do rosto. Seja o rosto que for, o mais perfeito. Todos os homens ainda vão chegar nessa conclusão. Uso o rosto mais pela cor dos lábios. Para saber outras cores. Por isso as mulheres usam batom, para disfarçar. Que teoria é essa, cara? Depois você quer que eu não dê risada e te chame louco. Não há como. Espera, meu. Você me interrompe toda hora. Já pensou o seguinte, que, afinal, não importa a feiura facial. Já que o que nós queremos mesmo é que seja mulher? Mas pra você não ficar de sarro, vou explicar.

Digamos que apareçam vinte mulheres. De vários tipos. Todas têm órgãos femininos e corpos normais, é o que importa. E não é um fato impressionante? Você nunca parou para pensar que todas as mulheres têm órgãos femininos? Incrível, não? Se você pensasse sempre isso quando andasse nas ruas e visse mulheres, zé, duvido que não iria ficar maluco como eu. Mas voltando ao exemplo. E todas de lingerie, com uma máscara. Estilo filme “De Olhos Bem Fechados”. Mas com máscaras ainda mais completas. Entre elas, vai haver banguelas, zaroias. Bigodudas, lábios finos ou grossos demais. Boca torta. Narigudas ou com um pontinho estranho no lugar do nariz. Com sobrancelhas mal-feitas, orelhudas, com queixo gigante ou quase sem queixo. Cabeçudas ou com cabeças pequeninas. Olhos de gibi ou praticamente cegas com um furinho do tamanho da ponta de alfinete para ver. Cara de Bolacha ou carreta. Mas você simplesmente não vai saber. E no fim das contas, repito: vai importar?

É… Sobre isso, preciso pensar melhor. Essa concepção me pegou de surpresa. Provavelmente não vai importar coisíssima nenhuma. Nunca parei pra pensar na profundidade da Raimunda, e da história da bandeira do Brasil na cara. Isso foi coisa de filósofo. Pois, então, continuou Bigode, é o que to te dizendo. Aos homens isso não importa. Temos mais com que nos preocupar. Às mulheres isso importa. Brad Pitt´s, afinal, fora o rosto, os homens são tão interessantes quanto ratos. De nós, só importa o rosto mesmo. Em minha opinião, mulheres não precisavam de rosto. Dar rosto às mulheres foi exagero e elas ficaram convencidas demais com isso. Mas a nós serve até a mais feia de rosto da história, desde que demos um jeito de tapar a cara. Pra mim serve até a Rainha Elizabeth. Também não exagera, bigode. E respeita a Realeza, pô. Sou monarquista. O quê? Ele riu bastante. Exageradamente.

Qual é o problema, bigode? Você é monarquista por causa de Salomão e Davi, não? Disse. Freud explica. Você talvez não queira um prédio. Queira palácio e um povoado. Com um monte de Bete-Sebas e rainhas e princesas de Sabá. Não é nada disso. Nossa história é Monárquica. Por isso o país virou isso. Não respeitamos nossa história. Ah ta, conta outra, zé ruela. Você ainda não aprendeu a ser sincero. Chegou seu ponto de descida e, antes de nos despedirmos, soltou: Ah se os homens fossem sinceros!

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 17/11/2015

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