Contos

O Citador de Citações

 

Estudara muito para chegar até ali. Tão grande esforço quase lhe rendeu o manicômio. Pra falar a verdade, havia sido internado duas vezes, mas ninguém poderia saber, ou sua reputação seria manchada. Dia e noite, noite e dia foram feitos sacrifícios para alcançar o nível intelectual que conseguira. Falava 12 idiomas, Libras, também conseguia entender baleias e a diversificação de latidos, mugidos, inclusive quando alguns usavam de eufemismo. Era especializado em literatura fantástica, medieval, clássica, pré-histórica e também a que se apresentará daqui cem anos. Tinha conhecimento total de filosofia, história, biologia, agronomia, ciências da computação, engenharia civil, industrial e experimental (brasileira), marketing pessoal e coletivo, robótica, astronomia, matemática e servente de pedreiro. Atualmente, estava terminando seu pós-doutorado e mais um pouco sobre Mulher. Curso mais longo que já fizera e que já havia durado o absurdo até então de 30 anos, mas diziam que só estava no primeiro capítulo de 5 mil.

Chegou ao amplo salão do hotel onde seria ministrada sua palestra. Com antecedência de 5 horas. Primava por esse cuidado para testar o som, ensaiar e dizer três vezes o que havia decorado, sempre treinando o volume da voz em caso de interrupção inconveniente que, aliás, sempre acontecia. E que ele tão bem abafava gritando no microfone até que o espectador se calasse e se sentasse novamente. Na palestra: absoluto show retórico, citações sempre pontuais, marcantes e únicas, com comentários filosóficos, sintéticos e argutos. Ou seja, ele era um rei inigualável. Conhecido no mundo todo e até apelidado pela imprensa deste mundo e também dos outros de Alexandria antes do Incêndio. Elogio que o deixava envaidecido ao ponto de mandar fazer vários quadros com a notícia que o continha, colocando um destes quadros pendurado no seu bandeiro. Porque fascínio e estupefação era o que ele despertava em todos, e queria que o todos não esquecesse jamais disso.

Chegada a hora da tão aguardada palestra, foi recebido com aplausos efusivos e vibrantes ao subir no palco improvisado para o grande e eloquente Orador que era, fora e seria. Por maiores que fossem os gritos, assovios, choros emocionados que se manifestavam no meio do populacho, nunca seriam suficientes para demonstrar o respeito e admiração que a mente mais brilhante que já pisara a terra e, talvez, o Universo, merecia. Mas com sua habitual modéstia, bom humor, sabedoria e originalidade inigualáveis, começou.

Senhoras e Senhores, todos sabem quem sou. Até porque há um pôster na entrada. E quem veio, certamente recebeu um folheto. Então, não preciso me apresentar. Pois como diria Khalil Gibran, A perplexidade é o início do conhecimento. E vejo que vocês estão perplexos desde que subi aqui. No entanto, não temam: é o início real do conhecimento que começou com a entrada de vocês aqui e o saber previamente meu nome. Também devem saber o tema, que é “O Valor da Originalidade”. E já aproveito para citar Voltaire, que disse: A originalidade não é mais do que uma imitação criteriosa. Concordo plenamente.

Contudo, preciso dizer que quando aceitei o convite para estar aqui, tive dúvidas se mereciam de fato a minha vinda. Pois como diria William Shakespeare, Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador. E vocês têm me dado esta dignidade de ser indigno de vocês, por terem me adulado mais do que deveriam por e-mail, telefone, internet e até na minha casa, acampando em frente dela no inverno. E que inverno!

Mas, como diria Thomas Mann: Trago em mim o germe, o início, a possibilidade para todas as capacidades e confirmações do mundo, assim também eu. É até estranha a frase. Se ele não tivesse vivido e morrido antes que eu nascesse, desconfiaria de plágio. Pois esta frase não foi dita de outra pessoa senão de mim. Provavelmente era também profeta.

Neste momento, alguém da platéia tentou interrompê-lo, mas o especialista aumentou muito a voz, causando microfonia. Porém, ainda assim, conseguiu ser entendível, e cumpriu o objetivo de calar o interruptor.

(…) E como diz Willyan Drayton: A mudança tem inicio quando alguém vê a próxima etapa. E eu estou nesse exato momento vendo a próxima etapa do meu discurso que já ia esquecendo por causa de ruídos inconvenientes. Mas antes de ir à próxima etapa, é preciso dizer, como disse Clarice Lispector tão bem, Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer. E aconteceu.

Passando um carro em alta velocidade, agora, ali na avenida que fica logo atrás de vocês, (-Não olhem, já passou!…) lembrei do que disse Henry Ford: Não inventei nada de novo. Simplesmente juntei em um carro as descobertas de outros homens, séculos de trabalho depois. Isto me leva ao que pretendia dizer desde o início. E que Aristóteles disse antes: A inteligência é a insolência educada. Claro que sou insolente, por isso também sou educado. É porque também, como disse Oscar Wilde, A ambição é o último recurso do fracassado. Por isso nunca tive ambição de ser inteligente, nasci assim. Pois como bem disse Antoine de Saint-Exupéry: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Jamais cativei coisa alguma a não ser vocês, meus queridos. É por isso que estou aqui, apesar de ser pago, por ser responsável, porque como disse ou diria, não sei bem se disse mesmo, Esopo: Não se podem censurar os jovens preguiçosos, quando a responsável por eles serem assim é a educação dos seus pais. Por isso não os censurei quando adentrei esse espaço feito sob medida para grandes como eu, piedade por não terem tido o privilégio de ter eu como pai e, mesmo, pai e mãe.

E por falar em paternidade, cito Friedrich Nietzche, que afirmara com habitual sabedoria e loucura, que são a mesma coisa, segundo um anônimo da internet: O medo é o pai da moralidade. Aproveitando isto, digo às moças, e somente às moças: Tirem suas roupas e fiquem todas nuas, para que a palestra seja mais agradável e imoral. E também lembrando-se do que nos deixou Nelson Rodrigues: Só o Rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu. Como tem rostos indecentes demais por aqui, isso é uma repreensão contra a indecência da cara e elogio da decência dos mamilos e seios que alimentam, alimentaram e alimentarão (também divertirão, em e iram) ainda tão grande quantidade de crianças e adultos. Mas é também um convite à liberdade. Toda a liberdade pode ser entendida pelo que disse Tolstoi: Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. Vocês sairão daqui livres porque eu falo verdades e, por conseqüência (acordo ortográfico, vá para…), terão a liberdade que tanto buscam. Mas, por falar de busca, quero manifestar o que disse…

– Mestre. Mestre. Mestre. Mestre. Mestre. Mestre… Mestre! Mestre?

Calma, rapaz! É Pós-Doutor, não mestre.

– P.D. O Senhor não tem um único pensamento só seu? Apenas um?

Muito boa questão. Que me fez lembrar o que disse Sigmund Freud: O pensamento é o ensaio da ação. Por isso não ajo quase nada, porque não penso, copio pensamentos, o que não deixa de ser uma ação, como disse meu vizinho, que vive de desrespeitar direitos autorais.

– Doutor, aqui Doutor pós Doutor.

Sim?

– O Senhor não acha que é muito simples de se chegar à conclusão de Freud sem nunca o ter lido?

Claro que não, jovem burro, como diria meu pai. Parece simples depois que já foi dito, como disse alguém que esqueci o nome, mas como diria Paulo…… haham, hurum….. Co-e-lho, As coisas simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las.

Porém, hoje, não estou muito bem nem muito sábio, vou ir embora. Mas antes quero deixar Augusto Cury para reflexão: Não serei platéia dessa sociedade doente, serei autor da minha história.

– Ah, pós Doutor, mas não poderia haver maior hipocrisia e contrassenso usar tal frase justamente o Senhor!

Quê, rapaz? É muita petulância, como dizia minha mãe. Mas, como diria Albert Einstein, Mesmo desacreditado e ignorado por todos, não posso desistir, pois para mim, vencer é nunca desistir. O que também, de certa forma, é o mesmo que diz o populacho, O que vem de baixo não atinge quem está na lua, ou flutua, ou está em cima.

E, para finalizar, depois de magistralmente calar a boca deste imbecil, digo: “Auribus teneo lupum”.

– Mestre, Doutor, Pós e Ultra. Que quer dizer isso?

Não sei, ainda não aprendi latim. Cito porque acho a expressão bonita, palatável e dá ares de sabedoria citá-la.

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14 comentários em “O Citador de Citações

  1. Kkk…sabe que esse texto me fez lembrar um ex amigo seu e personagem lá do RL não citarei nome mas começa com “G” e termina com “aldo”…..também me faz lembrar um povinho que conheço métodos a teólogos ….eles tem essa mania de ficar citando pensadores em seus sermões, o que as vezes é chato.

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    1. Verdade, rsrs. É um híbrido o personagem. Pensei em várias personalidades que convivi e reuni num ser pra lá de pitoresco. De certa forma, não há mesmo como ser original, tudo já foi dito, por mais que queiramos, alguém já pensou e escreveu antes. A crítica é válida para o autor também, não são poucas as vezes que pensei algo mas apelei para alguém com o fim de dar maior sustentabilidade ao meu raciocínio. Isso ocorre com muita gente, não confiamos no nosso próprio eu e usamos a reputação do citado como método persuasivo. Os teólogos, pastores e demais estudiosos da religião são mestres nisso. Muitas vezes têm medo de expor seus pensamentos e usam mesmo a Bíblia para dizer o que pensam. Com o fim exclusivo de livrar-se do ser chamado preconceituoso, etc. O que acaba sendo um pouco imoral e covarde, pois não usam a Bíblia para a glorificar, mas como escudo, inclusive contra processos. Acho isso temerário, mas fazer o quê, é a vida. Abraço.

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      1. Kkk…verdade, eu até gosto de ouvir citações desde que realmente represente a ideia do autor de forma autêntica…tem algumas que contradizem o sentido pelo qual foi dito,isso acontece também com quem gosta de citar versículos bíblicos … ..infelizmente é um fato.

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    1. Querida Amiga, fico agradecido demais por lembrar de mim e por esse carinhoso convite. Adoraria participar, mas não vou participar, pelo único motivo de já ter participado. Você não deve ter visto porque escrevo muito e a postagem já sumiu da página principal. Mas convido-a para, quando quiser e tiver tempo, ler. Ficarei feliz com sua visita. Segue link: https://wldexilado.wordpress.com/2015/12/18/tag-8-coisas/
      Mesmo não participando, reitero a gratidão. Forte abraço. Tenha uma semana inspirada com novos posts também inspiradores, como sempre. 😉

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  2. Sabe que ás vezes eu escrevo uma frase e julgo ser minha e depois fico imaginando se ela não já foi dita? Sei lá, é complicado isso . Quando tinha 15 anos meu namorado acreditou numa fofoca e veio em minha casa me esculhambar, eu entrei no banheiro e chorei, quando sai , minha prima perguntou o que tinha acontecido e eu disse: não importa, amanhã será um novo dia rsrs e eu só soube que essa frase já havia sido dita no filme: E o vento levou, lógico que não é uma grande frase e já poderia ter sido dita por muitos, mas na época eu ri e lembrei do caso. Quando eu tinha 12 anos vi meus pais brigando, fui pra o quintal e disse a mim mesma: em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher, após alguns anos li a frase em algum lugar e ri também (desde a tenra idade já tinha mania à rimas kkk) Mas, tenho as minhas e nem sei se são realmente minhas, ou posso dizer que são pq pensei, não plagiei rsrsrsr

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    1. Não só vi como estou ficando excitado com você, no bom sentido (mas será que existe mau?, kkkkk. Enfim, você entendeu. Se ficar chato eu agradecendo, me avisa. Passo a mandar sorrisos e corações. Beijo.

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      1. Sabe qdo vc se identifica com um autor? É bem isso!!! Somente leio textos grandes qdo me chamam a atenção e confesso que os seus são um dos poucos blogs que tenho realmente vontade de ler inteiro… pode se gabar …seus textos são incríveis!

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