Crônicas

A um grande Amigo que se foi

 

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Sinto muito sua falta. Pensei que com o tempo – este personagem que tudo faz desaparecer como se nunca tivesse sido, sua ausência não fosse mais ausência e, sim, apenas um relembrar com um esboço de sorriso ou o verter de uma lágrima. Enganei-me profundamente. O tempo sabe fazer aumentar as crateras das saudades como faz com as do esquecimento. Você era do tipo perigoso. Daquele que sacode, modifica, inspira, intervém, incomoda. Um vento que por onde passa nada deixa no mesmo lugar. Um ser que viveu de fazer outros viverem nem que para isso machucasse a si próprio. Onde passou causou um curto-circuito, mas também fez brotar faíscas por todos os cantos e acendeu dezenas de luzes. Ainda que só pisquem, intermitentes, para logo depois voltarem ao mais completo breu.

Não que você fosse bom. Ambos sabemos que não foi. E gostaria, apesar de isso representar um disparate, que não fosse bom para os outros. Mas não. Você foi excessivamente mau, consigo mesmo, e bom demais para os que o rodearam. Esqueceu-se que o amor ao próximo é reflexo e não refletor do amor-próprio. E custou caro. Porém, a carestia foi não para si, mas para os que ficaram e tiveram que lidar de alguma forma com a dor de não mais tê-lo. Você se foi da mesma forma que chegara: doando, impactando, anunciando, mesmo quando sua voz já não podia ser ouvida. Não o culpo. E ninguém deveria. Todos sabíamos desde o princípio que você tinha que não só nascer mas morrer sendo você.

Todos víamos que seu dia era nosso mês. Não fomos induzidos pela ingenuidade. Queríamos sugar essa energia característica de alguém que veio para ser hidrelétrica e não uma vela. E eu, como os outros, fui egoísta demais para lembrar da necessidade de manutenção periódica que em você seria não só recomendável mas absolutamente necessária e urgente. Usamos todos seus recursos e induzimos sua desativação por negligência. Dói demais ver o que podia, o que seria, todos os ses que se aglutinam agora em minha mente. Arrependimentos típicos dos cúmplices da tirania.

Sei que você diria que não. Sua natureza não admitiria que alguém se desculpasse por esbofeteá-lo. Sei que daria uma outra bofetada em si mesmo para fazer troça e conduzir o que chorava por você a rir com você de você mesmo. Mas não posso suportar lembrar desse dom de fazer esquecer sempre o mal que a você fazíamos, quase sempre, como se um bem fosse e mais uma oportunidade a nos aproximar. Com o custo, alto custo, de se dar à dor que era nossa, e pela dor alheia carregada nos ombros nos fazer sentir o estranho prazer de te causar dor.

Deus deu a você no lugar da mente outro coração. Você tinha dois, enquanto muitos de nós não tínhamos meio. E você se sentiu culpado por isso, tirou os dois e vivia com eles nas mãos a emprestar sem juros e sem arrependimentos a quem quer que encontrasse. Inclusive aos que o odiavam e só iriam chutar suas ofertas sinceras e inocentes. Você tinha o Evangelho como cordas a sua volta. Impregnado e indissociável de seu ser. O mesmo Evangelho que podia ser lido cem vezes pela mesma pessoa que não o pratica nem o entende. E que você provavelmente nunca leu, mas o praticava na sua essência, com suas imperfeições, de forma completa.

Tudo em você era mais, era maior. Sua alegria era mais alegre, suas piadas eram mais engraçadas. Até suas derrotas eram mais amargas e sua tristeza, mais triste. Eu não falo com mortos. Essa carta não é para um morto, e você sabe disso. Porque está vivo em mim. Falo com o pedaço de você que deixou em mim, e que é muito maior que eu. Eu não deveria ser o depositário, mesmo assim você me fez ser. Não posso finalizar essa carta sem agradecer essa última doação incondicional. Como um mendigo ao qual é confiado um diamante. Mas essa comparação é imperfeita demais, material demais. O que está em mim e veio de você é muito mais que matéria. É um pedaço da sua própria alma. E não de uma alma qualquer, mas da sua. Mesmo agradecendo muito, não sei bem o que fazer com isso. A não ser, no tempo certo, devolver a você. É pena que não pude agradecer o que me deu em vida, porque eu nem mesmo sabia que havia recebido algo. Mas sei que era essa a sua intenção desde o início, morrer sem nada pra enterrar a não ser o corpo.

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50 comentários em “A um grande Amigo que se foi

  1. Meu caro, que bela carta, parabéns. Vc o homenageou como fazem os grandes escritores: retratou sua alma por seus atos. Uma grande capacidade de observação e de expressão – brilhante – do observado. Ainda mais num dia especial como hoje, muito oportuna a sua publicação. Curioso, tenho aqui no pen-drive uma carta que enviei há algum tempo a um amigo em estágio terminal de paralisia bulbar. Eu estava procurando o momento certo para publicá-la. E acho que essa sua carta pode ser a senha. Um forte abraço, meu amigo.

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    1. Laércio, muito grato pelo elogio. Feliz por servir a ti de alguma forma, e triste pela sua/ (suas) tristezas. Meus sentimentos e meu abraço. Um amigo é algo tão valioso que faltariam as palavras a nós para demonstrar. Abraço.

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      1. É, meu caro, ninguém de nós nunca estará apto a lidar com isso. Pelo menos ainda tive a oportunidade de escrever a carta ainda com ele ainda vivo. Lamento não ter viajado, mas a vida nos impõe contingências que parecem tão grandes num momento e tão pequenas depois. E essa percepção da pequenez é justamente a da nossa própria, em espelho: assim como elas são pequenas, somos menores ainda em nossa covardia para enfrentá-las. Mas acho que isso tudo faz parte da miserável condição humana. Um forte abraço!

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      2. Estive pensando aqui, na realidade, o que ambas as cartas têm em comum é, salvo engano: um elogio à amizade. O fato de esse elogio ser feito “in extremis” ou “post mortem” lhe confere um peso ainda maior, que é o peso duma vida que já não há, mas que é também duma vivência que só morrerá conosco. Estranho, isso. Nossas vivências, nosso patrimônio pessoal, é tão efêmero quanto nós mesmos. Daí essa necessidade de pô-la no papel, de eternizá-la em cartas. E foi o que vc fez, com grande sensibilidade, não só literária (que nesta altura do campeonato é até secundária) mas humana, que é o que verdadeiramente importa. Mais uma vez, meus parabéns! Um forte abraço!

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    1. Obrigado, mjito obrigado por fazer essa maratona. Fico em dívida com você. Sei que você tem falta de tempo como todos. E sei o quanto lhe custou ler tanta coisa minha hoje. Embora você vá dizer, não foi nada. Foi sim. Eu sei porque faço isso algumas vezes e sei o quanto custa. Muito obrigado. Mas eu detestaria atrapalhar suas belas postagens que devem dar um trabalhão. Portanto, você está desobrogada de me ler por três meses. Sem direito a pestanejar. Até porque temo pela sua sanidade lendo os do WLD, que lhe mandou lembranças, aliás. Mas sério, muito obrigado. Fiquei repetitivo mais que você.

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    1. Não convenceu. Veja que isso você sabe o que representa: é uma maneira de dizer obrigado. Como os psicólogos são bons para ler outros exceto a si próprios, eu como psicólogo de quintal diria que isso pode representar várias coisas, mas uma específica. Mas deixo pra você adivinhar

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        1. Ok. De acordo com.o manual K do psicólogo G. O que aconteceu foi que você olhou do ponto de vista negativo. Você acha que exagerou. Como eu ontem nas curtidas. Então seu cérebro te convenceu de que ei acho também assim como você que exagerou, só que eu não acho isso e nem disse. Acho quw você fez um sacrifício, mas você interpreta sacrifício como exagero porque não tem boa ideia fo seu sacrifício. Continua.

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          1. Mas, mas… eu não pensei isso, eu não acho que exagerei, e mais: confesso que só parei devido à um fato que ocorreu que me fez chorar e deu-me inspiração para fazer essa postagem que você viu em plena madrugada! kkkkkkkkkkkk
            Será que eu estou ficando louca? Sua loucura é contagiante 😀
            hehehhehehh

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        2. Isso demonstra que eu posso estar também ficando louco. Mss se não estiver, o manual diria insegurança. E depois diria humilde demais pra receber elogios. Elogios são mentiras, criticas são verdades, por isso você tropeça na rua, porque anda sem confiança. E compra tênis com solado pesado

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  2. Hey, eu já tinha me tocado quanto à isso sim senhor! Mas porque eu iria dizer-te se não tocamos mais diretamente no assunto do significado delas?
    Você não é chato! Você é.. único.
    Tudo bem que tem momentos (como agora) que estamos deixando sua página de comentários lotada por nossa loucura, mas e daí?! O mundo pertence a quem se atreve!
    E explica pra mim sobre esse caminho certo que eu estava andando porque ainda me sinto confusa! kkkkkkkk (não sou tão esperta como você imaginava!)

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    1. Bem. Agora você está fingindo descaradamente. Kkk. O que você quer é que eu entregue os pontos. Ou seja, passou da humildade excessiva para a soberba total. Mas há um ponto de equilibrio. Você diz que não e esperta, mas sabe que é. É o que sobrou da humildade. E disse que é feio mentir. Mas você mente, só que como não sabe, mente mal pra caramba. O que qyer dizer que de fato você não mente muito. Só de vez em quando mentiras inofensivas. No entanto, eu disse que você estava no caminho certo pra incentivar, mas se estivesse mesmo, eu diria que está no caminho certo pra incentivar, agora realmente fiquei louco. Chama a ambulância aí.

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    2. Quero ser bem visto. Coisas vergonhosas como conversa gigante em comentários, eu desprezo apesar de gostar. Sabe minha teoria sobre como não ser chamado de ridiculo? Ser muito mas muito ridiculo. Era sobre isso que você acertava. Mas como você já foi dormir. Eu vou falar comigo mesmo. Oi Wld. Oi. Tchau. Tchau.

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  3. E se eu te disser que menti sobre o nome. Sabe qual o melhor mentiroso. O que fala a verdade de vez em quando. Essa garota era uma garota esperta. Confusa, maluca, depois dela, fiquei doido até hoje. Mas eu posto. Você vai se lascar de curiosidade. Esse estava pronto. Kkkk. Viu, sobre o negócio da mentira foi o WLD. Não o Waldir. E outra quem gosta de atuar é você. Você caiu, um tombaço e fez uma cena de Julia Roberts, você realmente acha que não sei do que você é capaz. Trancado. Trezentas e cinquenta linhas dw raciocinio diferentes. Faço um labirinto. Kkkkkkk. Me aguarde. Incompreensível. Tenho medo de psicólogos. São muito ispertus.

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    1. Bem, verdade ou não, não entendo o mistério acerca disso, mas respeito.

      A gente nunca sabe quando um mentiroso fala a verdade! Esse WLD é desses.

      Usando minhas habilidades contra mim? hahahha – eu posso até ser ‘má.’ com você mediante algumas respostas irônicas, mas mentir? Mentir não. Até minhas personagens tem caráter. hihi

      Você tem medo de mim?

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  4. Olha só quem fala! O bom de que além de adversários, somos amigos. E além de amigos, somos irmãos.

    Apesar de tudo isso ser uma grande loucura, loucura vivida a dois é.. é.. É.

    Então tá bom! ^^

    Omissão é tão ruim quanto. Afinal se você se omite, você acaba (querendo ou não) tomando um partido. O silêncio fala mais que mil palavras!

    Interessante pergunta. Mas a resposta é não. Temor não é respeito. Opto pelo respeito e isso você tem de sobra 😉

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  5. Mayara K. Foi muito bom te conhecer. Sua mente é das melhores que já visualizei. Sim medo? Uma pergunta. A mesma que você me fez. Porque teve que soar a você assim, parecendo insulto? E a mim tem que ser natural? Você considera que eu temer é normal, você temer é vergonha?

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    1. Não soou como insulto, quis devolver a pergunta com outra para ver sua reação. Visto, respondo: não tenho. Temer não é normal, você tem que respeitar por carinho, não temor.

      Foi igualmente bom te conhecer Waldir L., sua mente, assim como você é brilhante. Reluz, luz!

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