Contos · Humor

Conversa de Namorados em 1999

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Trim, trim, trim (1999)

Oi, amor?
Sim, mimi!
Ai que saudades, ai vou morrer.
Ui, mimi, eu também, nossa quase me matei. Como você está vestida, conta vai.
Ai, amor eu to de baby doll.
Tira, mimi tira.
Ai não, tenho vergonha!
Tira, ninguém ta vendo.
Ai não. Não quero.
Tira desgraçada! Desgraçada é a vida sem você.
Hum… Ai que forte e poético, nossa. Você me ama?
Amo, meu bebezinho guti guti, papai.
Quanto? Quanto? Quanto?
Muito! Muito! Muito!
Ai, que saudade momomozinho.
Ui, fala de novo, fala. Gemendo.
Ai, agora não. Não gosto que me mandem, amor. 

Duas horas depois.

Mimi, você vai fazer aquilo.
Não sei, momozão. Tenho medinho.
Para, mimizinha do papai. Não vai dar nada. Quando ver, já passou.
Momô, não sei, vou pensar.
Mas você está pensando há mais de três meses.
Três, mas do que você está falando, momô. Falamos disso na semana passada…
Hum, então, mimi,  não é aquilo, é aquilo…
Ai, lembrei. Ai credo, aquilo não, você não me ama?
Amo, claro mimi, mais que tudo. Muito! Muito! Muito!
Então porque quer me emprestar, e ainda pro Paulão, se ainda fosse com o Ricardinho.
Ah não, Ricardinho não, tem que ser o Paulão.
Ai, tenho medo também. Credo, momô, não te entendo. Pra quê isso?
Pra ver, mimimimizinha, te ver. Diva.
Momô, mas com outro, credo? E ainda o Paulão, ele parece tão bruto. Ricardinho é mais delicado.
Mimi, Ricardinho não, Ricardinho não… Não dá pra ver direito quando tô com você, quero ver direito, mimizinha.
Vou pensar, momô. Vou pensar.

………………

Duas horas depois.

Mimi, desliga vai. Tenho que trabalhar amanhã cedo.
Não, momo, desliga você.
Não, você.
Não, você.
Não…
Você, você, você,
Nananinão. Você, você, você.
Ui, ui, ui.
Ai, ai, ai.
Você?!
Você!

…………………….
Quinze minutos depois.

Mimi, preciso mesmo desligar, ta.
Ai não amor, mas eu só durmo com você falando. Canta pra mimizinha dormir, canta. Nana nenê, momô.
Ai, mimi, vai vir uma conta absurda.
Ta, mas desliga você.
Ta, te amo.
Pipipipi.
Cavalo, vagabundo, desgraçado, desligou mesmo.

Trim, trim, trim.

Mimi, você acordou toda a casa! Vão me matar.
Não quero saber, filho da puta. Você desligou. 
Mas você que mandou.
Mandei, mas sou mulher, se fosse cavalheiro esperava eu desligar. 
Ave Maria… Sério?
Sério. Cachorro! Galinha! Corno!
Perai, mimi. Pega leve. Vamos conversar.
Ai, momo. Desculpa, é a TPM.
TPM, hum, vai de sempre livre ou Ob.
Ai credo momozão.
Credo não, mimimi, lembra…
Não, para com isso.
Mas você lembra, nossa…
Para, não quero falar disso, você prometeu…

Trinta minutos depois.

Mimi, tive uma ideia.
Conta, tigrão tigrado dourado dourante.
A gente conta até três e nós desligamos ao mesmo tempo.
Nossa, mozao, você é um gênio. Por isso te amo. 
Hehe, sou! Hum, hum, hum!
Huom huom huom!
OH, oh, oh.
Um dois três e já.
Pipipipipi.

Trim trim trim

Mimi, não é possível…
Estúpido, você desligou antes do já.
Ah vai tomar no cu. Filha da puta.
Mimi, desculpa, desculpa.

Mimi??????? Mimiiiiiiiiiiii.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

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14 comentários em “Conversa de Namorados em 1999

  1. Bravíssimo! Mais uma vez, lembra diálogos do LFV – dos tempos em que LFV era um bom escritor. Enfim, vc captou bem essa diferença entre homens e mulheres, não é só o raciocínio que é diferente. As expectativas, as motivações, tudo. Daí que falam idiomas diferentes. O resultado só pode ser esse mesmo. Bravíssimo!

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      1. Sei não, meu caro… o nosso tempo é muito curto para perder com LFV. Por outro motivo (político), creio que vc poderia fazer sobre LFV a mesma pergunta cabível sobre Chico Buarque. Sim, Chico tem músicas memoráveis, mas quando vc sabe que ele defende o indefensável, e vc sabe do que estou falando, pergunto: com que ouvidos vc ouviria, hoje, uma música dele? Veja, eu tenho lá em casa uns CDs dele, que ouvia com prazer. Mas depois de vê-lo numa trincheira que me repugna, simplesmente não consigo mais ouvi-lo. “Construção”, “Roda viva” e outras obras-primas soariam como o quê? Sinceramente, não sei. E tenho medo de maculá-las com minha percepção atual a memória afetiva que delas guardo. Eu diria a mesma coisa sobre LFV? Acho que não, porque aí me parece até mais grave. Meses atrás, em auxílio a uma recantista, vi-me obrigado a buscar um microconto dele. E sua releitura me revelou um autor bem menor do que eu tinha na memória afetiva. Sim, é bem provável que essa minha reavaliação foi influenciada pela postura atual dele. Uma espécie de releitura pelo retrovisor. Talvez fosse melhor mergulhar de cabeça, para derrubar o mito de vez. Não custasse isso um tempo precioso, que prefiro gastar com coisa melhor. E haja coisa melhor, meu amigo… Então, melhor ficar com o preconceito, que na realidade é um pós-conceito, ou melhor, um retro-conceito, sei lá, rsrs. Um forte abraço!

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        1. Devidamente anotado. Minhas deficiências em Literatura Nacional nunca serão preenchidas sem Nelson. Já ouvi muito falar desse senhor. E com a sua assinatura nesse receituário contra a burrice, caro amigo, vou ganhar tempo com ele, em breve.

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                1. Acabei de ler. Muito bom. Muito bom, não. Muito, muito, bom. hehehe. Eu gosto desse estilo, vai na veia. Tenho realmente a impressão que muio em breve minha lista será editada… Abraço e muito obrigado, caro amigo.

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  2. Eu realmente não sou desse mundo.. KKKKKKKKKK
    Olha.. só pra começar detesto falar no telefone porque além de ser caro, se você falar muito com o benhê pelo fone, vai falar o que ao vivo e a cores?! haahahh
    Mas o pior de tudo é que é bem por aí… ‘x’

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