Resenha

Microcontos Vol. 1 – Lucas Palhão e autores

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Venho de um espaço literário digital um tanto diferente do WordPress. Não dá pra negar que ainda estou me habituando. Tudo aqui é diferente e, no início, tive certo estranhamento, que por pouco não levou-me à desistência. Isso se deu por causa da tal mudança. Esta a mim sempre foi sofrível, problemática e traumatizante. Sou movido pela rotina e, não poucas vezes, me faz pertencer ao comodismo. Nem dá pra criticar-me muito, afinal, seria estranho se assim não fosse. Pois seria levado a desconfiar de minha nacionalidade. Que, felizmente, também me leva ao outro ponto: não desistir.

E não desisti. Aos poucos, fui interagindo. Conhecendo, lendo, seguindo até que consegui ir localizando colegas com interesses e ideias semelhantes. Usando a ferramenta para escrever, criar e compartilhar suas fagulhas artísticas, filosóficas e de opinião que brotam neles e também em mim, e que nos tem sido impossível reter, mesmo sem resultados práticos em audiência. O que é claro, sempre bom ter, mas sem dúvidas, torna-se irrelevante como foco e objetivo primeiros. Estes são conquistados na primeira visualização, a nossa.

Foi assim, de ler em ler, que tive a oportunidade de ter acesso ao blog do talentoso colega Escritor e Blogueiro Lucas Palhão. No qual tive acesso a um lançamento em primeira mão de um projeto amadurecido e concretizado em quatro meses. Projeto audacioso nomeado de Quarta-Feira Criativa. Consistindo em publicações de imagens escolhidas pelo autor junto com um conto, ou melhor, microconto contendo de 500 a 1500 caracteres. A partir dessas publicações, todo o leitor/escritor poderia seguir a linha temática e criar sua própria obra; seu microconto.

Chamo de audacioso porque todos nós, repito em parte com outras palavras o que me disse Nununo Griesbach, Contista e amigo do Recanto, sabemos que é insistir contra todas as expectativas escrever no Brasil. Eu acrescentaria até o ler e estudar. Pois ao que me parece, ser honesto, estudioso e dedicado no Brasil só pode representar fracasso. Aqui é país, infelizmente, das bestas, mulas, bandidos e corruptos. Qualquer que tente fazer outra coisa, é um sonhador. No entanto, o projeto visava não somente a escrita do autor, mas formar uma nuvem de microcontos com outros escritores a partir dessa temática em comum. O que é mais difícil, pois conhecemos muito bem como nós somos “unidos” em torno de qualquer ideia que se queira coletiva. Seja ela social, artística ou política. Aplaudo o autor e todos os envolvidos, pois o projeto teve êxito. Como ele mesmo afirma no Prefácio da obra: “Quatro meses e dez imagens depois, fecho esse projeto com a presente antologia contendo mais de 30 microcontos de diversos autores…”

Sobre a obra em si, concluí ontem a leitura. E é surpreendente pela criatividade de todos os envolvidos e apreciável talento. A coerência e coesão que dão a esse amálgama autoral uma ideia clara de unidade são elogiáveis, dignas de admiração. Sem que isso represente prejuízo da identidade e estilo dos autores nas sequências dos microcontos. Por ser microcontos, seria praticamente impossível manter a concentração para ler um posterior microconto se diverso ao tema. Explicando melhor, suponhamos que estivéssemos lendo uma história sobre um amor de verão, curtíssima, no exato momento do término, passamos a ler uma outra curtíssima sobre corrupção; tenho certeza que seguindo tal falta de linearidade, no quinto ou sexto microconto não saberíamos mais qual era o primeiro lido e, provavelmente, não atentaríamos para sentido de ligação no microconto lido no futuro. Terminada a leitura, iria ser como se não tivéssemos lido nada.

O que não ocorre nesta obra por disciplina e projeção correta do autor em formar a temática. Contudo, tenho certeza que há também mérito na montagem, na escolha. E estas não devem ter dado pouco trabalho. Cito a primeira a título de exemplo, para melhor compreensão do que digo. O capítulo 1 tem como linha de construção o seguinte: Ponte ou rio, prédio ou torre e chave. Logo, todo o capítulo estará circunscrito a certos limites criativos que possibilitarão, possibilitaram, ao autor manter a fluência e correlação dos microcontos sem que se perca a ligadura que mantém a atenção do leitor presa e formando as associações necessárias para que não se perca o ritmo da leitura. Ou seja, um grande acerto e trabalho bem elaborado com intenções minuciosas em que os passos podem ser vários, mas não fora da cercaria correta. Pela natureza do projeto, que trata de contos menores no sentido não artístico mas de extensão textual, todo ele estaria prejudicado inexoravelmente se não fossem restringidos os campos em que seriam lançadas as sementes criadoras.

Contudo, à medida em que há evolução dos capítulos outros, em que os limites temáticos vão sendo ampliados, pois em cada capítulo é formatado novo enfoque, também não deixam de constituir coerência de maneira global. Formando um todo sem arestas, sem orelhas. E isso se deve em grande parte a usar o mesmo método de unir vários microcontos por uma linha temática enquanto capitular para também fazer uma última união dos capítulos fechando o círculo e finalizando a obra. O que é feito com maestria já que começa com o capítulo “Ponte ou rio, prédio ou torre e chave” e termina com o “Fechadura, cadeado e ponte ou rio”, dando clara a ideia de Início e Fim sem necessidade de maiores explicações quanto a intenção do projeto. Esse trabalho meticuloso de união de todas as pontas, aparentemente soltas, mas que na mão certa, tomaram forma e ganharam vida fora das naturais idiossincrasias dos autores é de se espantar. Principalmente pelo pouco tempo usado.

Eu fui felizardo duas vezes. Primeiro por conhecer através do projeto vários contistas talentosos. E aqui há um fato curioso para ressaltar. Enquanto lia e avançava nos capítulos, apesar de ser fácil identificar qual autor seria o primeiro, segundo e terceiro, por causa da própria ordem comum quase nunca quebrada, passei a tentar adivinhar quem escrevia antes de chegar na autoria, por conta do estilo de cada um, o que acabou ficando facilmente identificável pela personalidade distinta dos autores. E a segunda foi por ter tido ainda o privilégio de conseguir a obra de graça (pobre sempre comemora esse feito). Porque fui um dos primeiros e alcancei o prazo de gratuidade. Apesar de isso não ser motivo de comemoração e nem de tristeza para outros que queiram, e desejo que queiram, adquiri-la. Porque não chega a custar R$ 3,00 na Amazon Br. Um preço que pode ser considerado de graça, dada a qualidade, esforço e talento nela inclusos.

Por isso a recomendo aos meus amigos, leitores e escritores. Não se arrependerão caso adquiram a obra. O que também é de certa forma um engajamento e estímulo a esses talentos continuarem a nos brindar com sua visível criatividade. Pois, enfim, entendo que não adianta criticar, criticar e criticar o que é ruim para que melhoremos. Mas, principalmente e antes de qualquer crítica, elogiar o que é bom e produtivo. Talvez assim um dia deixemos de ser o eterno país do futuro, e passemos a ser o país do agora.

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16 comentários em “Microcontos Vol. 1 – Lucas Palhão e autores

  1. Waldir,

    Fico muito grato por suas gentis palavras a respeito da nossa obra. Estou, também, muito feliz por ter gostado tanto, a ponto de analisá-la em seu artigo.

    Permita-me reblogar seu artigo. Com sua crítica, espero que consigamos espalhar nossa arte para novos leitores.

    Por fim, alegraria-me muito contar com sua participação na próxima edição do Projeto Quarta-Feira Criativa, que pretendo lançar em janeiro.

    Grande abraço de um autor em dívida com você,
    Lucas Palhão

    Curtido por 5 pessoas

    1. Obrigado pela pronta-resposta. Fique à vontade para reblogar, prezado Lucas. E fico imensamente grato pelo convite. Embora não creia que tenha talento suficiente nem para participar, que dirá ser um dos próximos escolhidos. Mas gosto de grandes desafios, agradeço muito o convite e, assim que lançado, certamente procurarei trabalhar para participar à altura. Forte abraço, e tudo o que disse sobre a obra é verdadeiro. Li-a e gostei mesmo. Muito interessante em todos os seus desenvolvimentos. Parabéns a você e todos que participaram. Ficou Show! Sucesso.

      Curtido por 3 pessoas

  2. Wld, li e gostei muito…..contos realmente muito bons, e o seu trabalho de descoberta também me incentivou a continuar por aqui, estou descobrindo muita gente talentosa e lendo muita coisa boa.

    Curtido por 4 pessoas

  3. Subscrevo o comentário da Abá. Vc desbravou essa fronteira para nós, ex-recantistas. E ela se revelou muito melhor. Sinto-me como um norte-coreano deportado para a Suécia, rs. Um forte abraço, meu amigo, e um ótimo dia pra vc.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Agradeço, Laércio. Seu sentimento me é inerente. rs. Mas esse desbravar de nada adiantaria se não tivesse amigos como vocês, destemidos e ousados (não tenho a certeza se eu faria o mesmo). Obrigado, e ótimo dia pra ti também.

      Curtido por 4 pessoas

  4. Alô, WLD. Parece um trabalho sério. Conheço a técnica dos mini-contos, fiz diversos principalmente de ficção científica. Não é tão fácil assim, pois os contos costumam exigir maior tamanho. É preciso pensar numa idéia-chave que, só ela, em poucas palavras, dê um texto mínimo porém completo. Um grande abraço e Boas Festas para você e sua família.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Obrigado pela visita ilustre e comentário, prezado Escritor e amigo Miguel Carqueija. Interessante que tenha conhecimento prático sobre a técnica de criação dos mini-contos. Eu vejo dessa forma também. Tenho criado contos e vejo o quanto é difícil construí-los para que ganhem vida, poder de sintetização e consigam não somente entreter mas passar uma mensagem. E se isso já é difícil usando os recursos totais, vejo como muito difícil limitando a prolixidade como recurso. A mim, torna-se quase impossível. Até pelo estilo. Claro que posso fazer, só não sei se conseguiria ter o mesmo poder de síntese que você e os autores em questão no post. A propósito, se tiver oportunidade, adquira. Não irá se arrepender. Forte abraço, e desejo o mesmo para ti e sua família. Não desapareça, gosto de ti e sua presença aqui é sempre bem-vinda e desejada. Até.

      Curtido por 2 pessoas

  5. Oi, Waldir… que excelente crítica ao trabalho que para todos os que participaram acredito que foi mais um momento de entretenimento. Eu, pelo menos me diverti muito tendo minha criatividade ali posta a prova. E, acho que as melhores coisas na vida são aquelas que fazemos por prazer, diversão…

    Foi uma honra participar do projeto e realmente o Lucas é um grande talento e muito didático.

    Fico extremamente feliz em ler mais uma vez um texto seu. Gosto da sua sinceridade e da narrativa tão linear e fluída.

    Abraços

    Curtido por 2 pessoas

    1. Muito obrigado, Laynne. Fico lisonjeado pela sua leitura, e mais ainda por esse comentário. O projeto foi excepcional, parece-me que haverá um segundo. Enfim, espero que possas participar, apesar de achar difícil pelo que já expuseste. Forte abraço, e muito obrigado por tudo.

      Curtido por 2 pessoas

    1. Excelente notícia, Lucas. Não creio ter disponibilidade nos próximos dias, mas vou acompanhar com muito carinho e, se não for proibido, tentarei participar de umas sem participar de outras quartas da criatividade. Forte abraço, Amigo. Desejo-lhe sucesso em mais essa grande empreita. Torcendo por outro final feliz. 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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