Artigos · Música

O Funk é muito brasileiro (Republicação)

O Funk é a síntese do que é o Brasil, da sua cultura. Não deveríamos ficar tão surpresos, enojados das letras ou do próprio ritmo simplório. Pois o que poderia se esperar de um país, artisticamente falando, quando tudo o que se fez com a criatividade musical era visando inconscientemente ou não o nascimento do Funk? Ele é a mistura da rebeldia bestial no rock nacional, com a incontinência do Axé, misturada à desobediência do Rap com a falta de criatividade musical do Samba, atrelada com o pensamento raso presente no Sertanejo e o desprezo por todo aquele fingimento intelectualóide da Bossa Nova e a MPB. O Funk é, sim, muito brasileiro. Ele é o produto de tudo o que se ensinou nas salas de aula, na televisão, no teatro e na música nacional. Talvez não haja nada mais brasileiro nesses mais de 500 anos que o Funk. A música nacional é um verdadeiro desastre, salvo raríssimas exceções. Isto é, quando a música brasileira não foi brasileira. E é precisamente a regra e não a exceção que distribuiu o Funk no país. Surpreenderia, sim, se disso tudo que se produziu nos últimos cem anos no meio cultural e artístico do país surgisse um Beethoven ou Bach.

Valeska Popozuda é a evolução natural de Tom Jobim. Veja que não estou comparando, mas depreendendo. Enquanto ele cantava: “Olha que coisa mais linda”, chamando a mulher de coisa, Valeska responde muitos anos depois, com o mesmo verbo passar de Jobim: “Late, late, late que eu to passando vai”, chamando os homens que ficam admirando mulheres bonitas que passam de cachorros. Teló da mesma forma: “Ai se eu te pego!” é frase sinônima de Jobim, quando este canta: “Ah, se ela soubesse Que quando ela passa”. E as pessoas ficam aí se achando melhores, mais eruditas, mais intelectuais porque ouviram ou ouvem Tom Jobim, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Cazuza, Raul entre outros. Não veem que igual orgulho pode ter o jovem que ouve o seu Funk. Quando não enxergam que são precisamente estes que eles admiram os pais do Funk, o Axé e tudo o mais que eles desprezam.

Isso ocorre porque quem criou os músicos e compositores das décadas passadas foram os de outras décadas anteriores a eles. Jamais surgirá outra Legião Urbana, Zé Ramalho, Raul Seixas, Erasmo Carlos, Elis Regina entre outros se o que se ouve são eles e não o que eles ouviam. Se o que se vive não é o que eles viviam, mas o que viveram eles quando já eram posteriores a si mesmos. Ouvindo e se inspirando neles, o que se terá é um eco ruim do que eles foram e representaram. E isso não vale somente para a música. É regra geral. O condicionamento imediatamente anterior que não considera as anterioridades do anterior é sempre menor e pior. A nossa cultura e arte vão se inferiorizando dia-a-dia por não valorizar suas respectivas histórias. Por desprezar o clássico. Nossos melhores momentos encontram méritos por haver neles a inspiração do clássico. E o que é clássico senão aquilo que não é dado a ostracismo e irrelevância? E o anterior clássico sempre tem bases atemporais. Para isso deveríamos olhar. Mas ninguém quer olhar para isso com simpatia senão com altivez. Como diria José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Mas o artista brasileiro vê sem, contudo, reparar. Busca-se somente o resultado sem reparar no causador. E ao se inspirar no resultado sem as devidas considerações históricas, a cultura e a arte vão sendo degradadas de maneira irreversível. Com sentidas subtrações.

O saudosismo puro e simples é ignorante. Não se trata de cair sempre no “antigamente”. Pois somos resultados do antigamente. Uma sociedade ultra-conservadora será a responsável direta pela libertina e vice-versa. De maneira análoga, foi a fé que fez o mundo desembocar no racionalismo. E do racionalismo, como motor sem considerar a fé, brotou o ateísmo e o materialismo. Que vão, ironicamente, direcionar o homem deste século, que não será mais ateu e nem materialista, mas completamente irracional e místico. Parecendo com isso haver um paradoxo: do racionalismo produzido pela fé fomos à irracionalidade sem fé e mística. Quem não vê que qualquer que pretenda ser racional deve estar unido à fé primeira? Assim, do mesmo modo, quem não vê que para se produzir música de qualidade precisamos retornar não aos resultados, não aos efeitos, mas às causas? Como não estamos mais aptos para voltar ao clássico pela doutrinação, covardia e soberba características de nossa geração, só há uma maneira de salvar a música não só nacional mas mundial da sua total inutilidade e irrelevância: reaprender a ouvir o silêncio.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 02/11/2015

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2 comentários em “O Funk é muito brasileiro (Republicação)

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