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Confissões de um ladrão (Republicação)

O texto é, obviamente, ficcional.


Não consigo me lembrar quando comecei minha carreira. Nutro a imagem pitoresca de prelúdio numa creche, subtraindo de um coleguinha sua chupeta, deixando-o aos berros e divertindo-me muito com isso. Mas isso me parece muito mais com alguma das fantasias que mantenho.

O mais real e provável início se deu com os sucessivos roubos que praticara contra a vizinha ambulante que mantinha um considerável estoque de bugigangas do Paraguai em sua casa. Fui pego pelo exagero. Mais tarde percebi que as probabilidades de ter sucesso na profissão dependem muito da moderação e diversificação dos roubados. Como faz um banco, legalmente.

Muito se diz da natureza do ladrão, e como rio das conclusões a que chegam os comentaristas! O que mais se ouve é do roubo pela necessidade ou lançamento pelo meio. Não poderiam estar mais enganados. Eu sempre roubei pelo prazer, pela adrenalina provocada, como um pára-quedista. A classe médica chama isso de cleptomania. Eu chamo de diversão. Aos poucos isso foi se transformando tal qual vício, em que se suplanta por doses cada vez maiores e freqüentes. De maneira que sofro muito se ficar mais de uma semana sem roubar.

Mas que não pense alguém que sou desumano ou relês. Desenvolvi todo um sistema de regras para a prática da minha função. Visando sempre o bem comum e o meu próprio, claro. Não roubo, por exemplo, velhinhas aposentadas, desempregados, assalariados e nunca, jamais no meu bairro. Mulher alheia nem pensar. Sou fiel aos meus vizinhos e apesar dos exemplos acima, não sou de maneira alguma um ladrão comunista. Tenho alta consideração pelo capitalismo. Também respeito meu bairro e o defendo. E muitas vezes, embora as pessoas deem o mérito à polícia, defendi minha vizinhança de ladrões.

Em minha profissão há altos e baixos como em qualquer outra. Não se trata de uma vida fácil. E agora, em tempos de crise, também tem estado difícil para minha profissão, principalmente por eu ser um ladrão honesto e com critérios. Muitos dos meus companheiros têm reclamado que a inflação tem prejudicado seus lucros. E o desemprego aumentando tem feito diminuir quase totalmente minha atividade por conta da minha criteriosidade.

Muitos devem se perguntar como é o meu cotidiano. Alguns julgam que bandido não trabalha. Uma grande injustiça. Trabalho como todos os brasileiros, dia e noite. A diferença para um trabalho estritamente braçal é que uso mais a mente. Seleção, planejamento, foco e decisões difíceis a tomar são alguns dos atributos do meu trabalho. O que produz grande estresse. Também é necessário estar em plena forma física, em caso da necessidade de uma fuga repentina.

Contudo, procuro evitar tal desinteligência. Sempre buscando a desatenção da vítima, que é corriqueira. E isso me resulta em muito trabalho, em um conhecimento dos hábitos capaz de evitar sair aos tropeções entre gritos de “pega ladrão!” E não pode haver fato mais vergonhoso para a categoria que prosélitos correndo com uma bolsa na mão e detrás um furdunço. Fazendo com que a sociedade nos enxergue ainda pior. Causando estresse desnecessário à vítima pela falta de profissionalismo.

Não posso negar que em uma época usei a ameaça, a intimidação da arma de fogo e até a chantagem. Mas parei com isso quando desenvolvi meu sistema de regras pela necessidade, por causa de flagrantes e prisões constantes. Hoje, sou adepto do furto planejado. Muitos podem torcer o nariz. Mas, em minha defesa, posso dizer que não sou diferente dos que furtam sinal de internet do vizinho. Dos que têm sistemas piratas em seus computadores, sonegam impostos, baixam músicas e filmes de maneira ilegal, andam com documentos dos veículos atrasados e carteira vencida, jogam lixo na rua, saem com mulher dos outros etc. Tudo isso é furto, crime e pecado! Como diria um dos personagens de Khaled Housseini, “todo o pecado é roubo!”

Por um tempo também trabalhei como receptador. Nome que a sociedade e o direito dá. Mas eu prefiro a nomenclatura sem julgamentos de valor ou de direito, um Negociador. Acabei por sair do meio por ser uma função altamente exposta. Onde muitos te conhecem, e onde deve se trabalhar com lucros altos por causa de custos com propina. Além de por vezes ter me custado muito tempo e energia negociações cansativas com bandidos e cidadãos absolutamente avarentos. Sem falar da adrenalina e do prazer perdidos no ato próprio de roubar. Por isso abandonei a função.

Em minha defesa, também posso dizer que sou até um cidadão exemplar. Só alugo filme em locadoras, original, e compro cd’s originais. E o computador que eu furtei e uso, fiz questão de ser um que vinha com selo de Windows original. A minha declaração de imposto de renda é inteiramente correta. A não ser pelo fato de colocar no campo de profissão a de Autônomo. Porque não há alternativa ainda para ladrão, infelizmente.

Naturalmente, não posso me apresentar. Tudo o que posso dizer é que sou um tipo de ladrão.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 09/10/2015

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14 comentários em “Confissões de um ladrão (Republicação)

  1. Agora me perdi, não sei se te chamo de colega pq roubo o WiFi do vizinho, mas quando cai a minha net e preciso falar com alguém . Assisto filme na net. Mas não compro nada pirata e ai em que gral de “ladroice” me classifico? hahahah Meu caro eu sou do tempo em que todo pobre tinha vitrola e podia comprar um disco de vinil, porque os artistas não ficavam ricos da noite pra o dia como acontece hoje, e ainda acham que estão sendo lesados? Todo mundo sabe quanto custa um CD original CARO isso sim, mas mesmo assim eles ficam ricos sim da noite pra o dia com essas musicas idiotas(ainda não me conformo do gosto das pessoas terem caído tanto, mas em fim ) Cda Show custa uma fortuna, então vou lhe dizer : não compro e se caso ainda ouvisse musica baixava no PC ou no pendrive pra ouvir sim. Considero um absurdo isso com todo respeito aos artistas, mas sou pobre e acredito que entre os deleites da vida do pobre ouvir musica é muito bom, diverte, distrai e por que não deveria nessa malfadada vida de merda?

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    1. Verdade, Cris. Não é nada barato. Mas de certa forma, não no caso de baixar música, mas em relação a tudo, se a questão é a carestia, este exemplo não valeria para tudo o mais? Já que é caro, vamos então furtar tudo o que é caro? Mas este é um texto ficcional, eu realmente não disse o que penso, tentei imaginar como pode pensar um ladrão. O que eu penso é que definitivamente o preço alto só pode ser motivo para não comprar, mas não para furtar. Porém, não acho o Copyright, principalmente com relação às mídias digitais, algo sério e justo. E também lembro que comprei um cd original há muito tempo a 25 reais, quando o salário mínimo era pouco mais de duzentos reais. Hoje, custa o mesmo cd cerca de 32 reais e o salário é quase quatro vezes maior. Talvez já dê pra considerar um cd barato, comparando dez, quinze anos atrás. Abraço.

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      1. Sim, Walter essa regra não se aplica a tudo claro, não sou a favor da desonestidade. Mas o que quero Dizer é que pobre tem direito a lazer e não há a minima condição de sair por ai comprando certas coisas pq nem comer bem pode. Mas eu lhe pergunto se mesmo com a pirataria os cantores estão nadando em dinheiro imagine se não houvesse. Acredito que estariam queimando dinheiro. Eu me considero bastante honesta mas tem certas coisas que não dá pra engolir. Claro que sei que o texto foi ficção kkkkkk sou alguma doida? Mas nunca se sabe né? Eu ainda vou escrever minha auto biografia kkkkk

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      2. Eu sempre fui muito rigorosa com esse negócio de pegar coisados ooutros. Ja fiz minha filha com seis anos devolver um lápis que trocou, ja fiz uma outra devolver caixa de chocolate a um menino que deu com outros interesse e tantas coisas. Mas lhe digo A Bíblia diz: não sejas demasiado justo pq destruirias a ti mesmo. A tendência é julgar sempre o mais fraco e eu ja fui muito de achar que não havia Desculpas pra isso ou aquilo mas hoje em dia sou mais maleável e olha que venci muitascoisas e por ter vencido poderia julgar mais, porém aconteceu o contrário. Eu descobri quão difícil é vencer e que sem Deus muitas vezes podemos vacilar. Portanto agradeço a Ele e somente a Ele e nao a minha força e capacidade.

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      3. Ok, Cris. Waldir e não Walter, mas deve ser o corretor… Porém, a meu ver deveria se aplicar a tudo. A não ser que se explique o porquê. É só que não vejo diferença na regra para tudo o mais, afinal, a produção artística também é um trabalho que gera custos de produção, edição, lançamento, divulgação entre outros. No entanto, não estou fazendo juízo de valor, para downloads assim é praticamente impossível alguém não ter feito. Mas no fim, não pagar por isso é a mesma coisa que não pagar por um bem alheio qualquer. Sobre eles estarem nadando em dinheiro, também não creio que isso seja relevante do ponto de vista legal. Mas a pirataria é impossível combater com as regras atuais no Copyright. Se eu não me engano, creio que o ator americano Bruce Willis queria deixar sua coleção de música digital que comprou legalmente para a filha e não conseguiu. Nem sei o que sucedeu. Se houve processo. Não disse que você era doida, mas seu comentário inicialmente me pareceu o comentário de um artigo. Mas deve ser incompreensão textual. Quanto a escrever sua autobiografia, legal. Parece interessante. Abraço.

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  2. Por falar em roubar, assisti uma apresentação teatral que fala justamente isso (Cia Nissi): Qual o valor do “interesse” para que seja considerado um roubo? Exemplo, roubar uma caneta do seu colega de trabalho te faz menos ladrão do que se tivesse roubado um veículo?A mesma coisa se aplica no caso de um assassino.Quantas pessoas vc deve matar para que se torne um assassino? Uma, duas,quantas?Há alguns que matam só no olhar….Quantas olhadas cobiçosas ou quantos pensamentos seriam necessários para ser um adultero?-Assim como não existem ex-alcoolatras e sim, alcoolatras que deixaram de beber, acredito, igualmente, que não existe ex-ladrões, “ex-prostitutos”, ou ex- assassinos, são ladrões, prostitutos e assassinos que não exercem mais, ou temporariamente o ofício.Vendo e refletindo sobre seu texto, cada vez mais entendo, quão frágeis somos em relação aos outros e a nós mesmos… porque é sempre mais fácil apontar o outro, do que dizer- somos iguaizinhos! temos a mesma natureza fracassada e pré-disposta ao erro….esquecendo-nos que Deus é, autor criativo e, explicitamente detalhista em tudo, nas árvores, nas canções, nos dons, na forma como deseja ser adorado e como sonda intimamente o coração.Voei…ssr…veio um leque de coisas agora, mas paro por aqui..como sempre, já tá chato te elogiar, estou repetitiva.Parabéns.Boa noite

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    1. Muito interessantes e pertinentes observações, Abá. Creio que é algo a se pensar da nossa índole e caráter. O que tenho percebido, é que geralmente as pessoas têm uma capacidade infinita de julgar com rigor o alheio, mas o mesmo não ocorre consigo mesmas. No geral, acho que nós brasileiros temos uma moral bem maleável, circunstancial. Talvez por isso sejamos um ou o país mais corrupto do mundo. Nossos políticos podem ser os legítimos representantes. Gostaria sinceramente que não, mas que às vezes é o que parece, isso é. Mas a natureza humana é ruína mesmo. Acredito na transformação. Por Cristo. Por vontade própria, duvido. Consegue-se apenas conter o ímpeto, nada mais. Abraço.

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  3. Não quis dizer que vc me chamou ou achou que eu era doida não leve tudo ao pé da letra kkkkkk é só maneira de dizer rsrsrs Resumindo: Cris não compraria CD pirata nem DVD. Cris é honesta . Cris não pegaria nada de uma carga de algum caminhão a beira da estrada tombado. Cris é politicamente correta. Mas Cris baixa filmes online hehehe. Nossa conversa vai longe pq vamos sempre tentar colocar nosso ponto de vista. E eu continuo dizendo: Não somos totalmente bons e corretos em tudo . E se nos diz o livro sagrado que é necessário que os passarinhos voem sobre nossas cabeças mas não devemos deixar que façam ninhos … E que segundo a Bíblia também diz que seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso… Creio que, se somos corretos em algo e em outro algo não, e se de maneira nenhuma alcançamos total perfeição e se Deus nos julgou mentirosos de alguma forma, isso só me faz desejar entender as atitudes de cada um . Ah! desculpe O walter , eu agora estou no PC to tomando ódio de celular pq além de engole algumas letras e o corretor é uma chatice, isso sem falar que já escrevi uns textos enormes e na hora de enviar voltei e apagou tudo. Outro dia fiz um relato enorme pra um recantista por celular e não enviou, tive que escrever tudo de novo e nunca sai exatamente igual. Raiva total! Abraço caro irmão

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    1. De boa, Cris. São só opiniões mesmo, pontos de vista. Mas em suma, sobre ser bom e correto em tudo, foi exatamente o que eu quis dizer. Sobre o caminhão tombado, se fosse de livros, eu acho que leria umas sinopses. Hehehe. Abraço.

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  4. Saudações! Bem que eu estava achando estranho o desaparecimento de algumas teclas do computador sempre que eu te visitava, ficavam os botões e sumiam as letras. Esforcei-me para acreditar que eram minhas unhas mal aparadas que as desgastavam, mas agora eu sei da verdade! Em compensação, seus textos também sempre me roubam o tédio, e depois é difícil conseguir mais…

    Um grande abraço furtivo e batendo sua carteira

    =NuNuNO==
    (que já roubou vídeos do youtube, mas foi para distribuir para os pobres)

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    1. Nununo, passei o dia todo achando que havia respondido seu comentário, mal de velho. Seus textos também tiram o tédio, mas você tem algo a mais, até mesmo seus comentários tiram-me o tédio. Eu ando roubando vídeos do youtube também. E veja que coisa, há algum tipo de segredo, pois toda vez que roubo ele se duplica. O que é algo insano. Se isso ocorresse com tudo, certamente viveríamos do roubo. kkkk. Abraço, irmão. Sua visita ilustre sempre me anima. (Daquele que espera, mas sempre visita a si mesmo quando ninguém aparece.)

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    1. Olha, se o blog acabasse hoje, sairia feliz por ter lido isso que escreveu. Beijos no coração, uma ótima tarde e fim de semana, linda. 😀 Off: Vou retribuir mesmo sabendo que você não pediria, nem tinha a intenção e nem quer, mas vou te dar prioridade para leituras como deste pra mim tão carinhosamente. Assim que tiver tempo, vou no seu espaço que, sem dúvidas, é muito melhor que este.

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