Recanto das Letras · Resenha · Resumo

As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (Republicação)

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Literatura da desgraça

John Steinbeck
Publicação: ano de 1939
Título Original: The Grapes of Wrath
Título no Brasil: As vinhas da Ira
Versão lida: 10ª Edição, Editora Record, 2013
Tradução de Herbert Caro e Ernesto Vinhaes

Ao leitor atento, é possível perceber se uma obra literária é ruim, boa, regular ou excelente nos dois ou três primeiros parágrafos. Com “As Vinhas da Ira”, John Steinbeck convenceu-me a enfrentar as mais de quinhentas páginas do seu clássico nas primeiras descrições, nos primeiros dois excertos textuais. Percebi que um livro que começa de maneira tão perfeita só pode terminar de forma mais perfeita ainda. Certamente não me arrependi, e minhas expectativas foram prontamente superadas.

Steinbeck nasceu na Califórnia, Estados Unidos, em 1902. Na extensão de sua vida, passou por duas guerras mundiais e uma terrível crise econômica, a depressão dos anos 30. Vindo de uma família de classe baixa, seu olhar crítico se deteve na injustiça, na condição degradante com que sempre é e foi tratado o homem de parcos recursos. Foi estudante de Stanford entre 1919 e 1925. Período em que estudou literatura e Inglês, porém, saiu antes da obtenção de um diploma.

Tornou-se escritor free-lance em Nova York. Para se suster, trabalhava em serviços temporários variados, inclusive como pedreiro na construção do Madison Square Garden. Seu primeiro romance é de 1929, Tempos Passados. Esse “As vinhas da Ira” foi publicado em 1939. O autor narra a trajetória da família Joad, forçados a mudar de Oklahoma para a Califórnia, como muitas outras famílias, em busca de um meio de sobrevivência. Viajam com as mínimas condições de subsistência, num veículo improvisado. Expulsos da terra que cuidavam durante anos e anos e trocados pelas máquinas sob a frieza da negociação bancária.

Tom Joad (Filho) acabara de sair da prisão por ter assassinado um homem com uma pá, em legítima defesa. Cumpriu quatro anos e saiu por bom comportamento, sua pena era de sete. No entanto, está em liberdade condicional. Reencontra sua família e pretende viajar com eles para a Califórnia. O mesmo Tom reencontrara antes o ex-reverendo Jim Casy, que também viajará junto da família Joad. A viagem à Califórnia passa a ser todo o foco narrativo da obra. Viagem que é contada em todos os detalhes, e contempla quase toda a obra.

Muito sob diversos aspectos me marcou nessa obra. Há algo na escrita de Steinbeck que eu considero perfeito. Descrições primorosas, equilibradas: nem muito ou pouco, na medida certa. Diálogos tão reais que ao leitor fica a sensação de fazer parte. Histórias que se entrelaçam sem parecerem absurdas ou irreais. Comportamentos e personalidades narradas com métodos que esmiúçam o âmago. Enfim, uma fonte inesgotável de lições de como escrever, descrever, surpreender e hipnotizar. É seguramente a mais importante obra do autor. E não à toa que ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura.

Concluída a leitura da obra no mês passado, fico com a sensação de que li uma das maiores obras literárias já escritas. Infelizmente, assim como demorei anos até encontrar um romance que me desse tanto prazer de ler como foi com “Dom Casmurro” de Machado, creio que terei de novo a mesma sensação de frustração depois de ler esse clássico de Steinbeck. Mas tive dificuldade em terminar essa resenha sem atentar para uma dicotomia que inevitavelmente surge.

A eterna dicotomia capitalismo x comunismo põe-me em maus lençóis para resenhar elogiosamente. Detesto comunismo tanto quanto o capitalismo selvagem. E essa obra foi considerada por muitos críticos como panfletagem comunista. Sendo, inclusive, proibida em diversos estados americanos. No entanto, há que se separar ideologia de literatura pura e simples. Steinbeck constrói uma obra ímpar não comunista mas, antes, uma retratação fiel de uma realidade dura e implacável que vem com uma crise com a proporção da de 30 nos EUA. Seja no comunismo, seja no capitalismo. O sistema político-econômico não é importante, mas a sintomatologia da barbárie chamada desigualdade que se acentua com a crise e é vista em qualquer sistema.

E é disso que a obra trata. Faz nascer um sentimento de revolta contra o domínio do homem sobre outro homem, ou de um grupo ínfimo sobre milhares, como se os dominados não fossem também homens. O contexto histórico é de ruína de toda a ordem. É a crise, talvez a mais grave que os Estados Unidos já enfrentaram, com toda a sua virulência que suscita o nascimento ou traz à tona o que estava apenas adormecido. É da ruína (e talvez do sucesso excessivo) de povos e seus sistemas que vem o individualismo, o ódio, a covardia, enfim, a ira. Felizmente, disso tudo vem também a pena de gênios como Steinbeck.

Essa literatura, que chamo de literatura da desgraça, faz emergir o que há nos homens, sua própria alma. A fotografia do que está por trás da mera aparência. Retrata o oposto daquilo que se entendeu por conhecer o homem: Dê-lhe poder. Isto é, ao contrário disso, tire tudo dele: sua honra, seu status, seu poder e até sua capacidade de se suster. Tire sua comida! O homem está nu, esfomeado. Sem chão. Os que permanecem vestidos, saciados e com um chão estão imersos no medo de tornarem-se miseráveis como os que eles contemplam. E está feito, têm-se todo o cenário para mostrar e demonstrar quem é quem. Steinbeck não trata de ideologia, dicotomia político-econômica, mas da humanidade, da injustiça, dos humanos e suas contradições, seus sonhos e pesadelos, afinal, de suas almas. Aqui não há bondade ou maldade, capitalismo ou comunismo, há vida e morte, sobrevivência e desistência. Se houvesse uma questão para resumir o que se sente ao ler essa obra, talvez seria: até que ponto consegue-se simplesmente ir?

É que na desgraça as nuvens desaparecem e o homem é separado daquilo que nunca foi: humano. Ou descobre-se humano aquele que todos viam como um parasita. Persistência, desistência, honra, covardia. Tudo está nas prateleiras da vida à venda. E, pelo caminho, vão ficando todas as máscaras que escondiam, dissimulavam as qualidades e os defeitos desses homens. Com a viagem, na mesma medida em que se distanciam de sua antiga residência, distanciam-se de seu antigo eu. Não serão mais os mesmos. Nascem os homens e morrem aqueles que nunca nasceram homens.

Mas os que continuam não são heróis, é que não resta escolha. Talvez nem sejam perseverantes, mas são caminhantes. Não há o que fazer senão ir. O mundo os obriga a ir adiante, testando suas resistências. E simplesmente vão-se como as águas são levadas pela correnteza. É o povo do êxodo, atrás escravidão, perseguição, à frente a incerteza. No meio, vive-se, sobrevive-se e morre-se. Mas é preciso ir, mesmo que não se esteja indo a lugar nenhum.

Um romance ímpar. Com um final que a alguns pode parecer medíocre ou insano. Para mim, só uma palavra pode descrevê-lo: único! Se você está atrasado com os clássicos ou em dúvida sobre quais ler primeiro, não perca tempo. As vinhas da ira não irá decepcioná-lo. Mas cuidado, depois vai ser difícil ler outra obra com o mesmo entusiasmo.

———–

Curiosidade: Não havia entendido o título da obra durante a leitura. E não há introdução nesse livro que elucide tal fato importantíssimo. No livro propriamente, não há vinha alguma (Pudera, não sei se é possível haver vinha no calor da Califórnia em plena seca). Pesquisando, acabei descobrindo que o autor teve dificuldade em dar título ao livro. Sua esposa sugeriu “As vinhas da ira”. Uma referência a um hino escrito por Julia Ward Howe, inspirado no Apocalipse e no julgamento final. Em que a imagem das vinhas da ira de Deus aparece. O leitor da Bíblia sabe o que isso significa: Justiça! Concordo com Steinbeck. Não poderia haver outro título.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 27/08/2015

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4 comentários em “As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (Republicação)

  1. Estava lendo a sinopse do livro, até o FBI investigou o coitado kkk. Um filme foi produzido também né? acho que vou procurar na Net , embora filmes nunca são iguais aos livros. Um filme que quero assistir novamente é: E o vento levou, foi passado na globo quando eu tinha 17 anos e gostei mas na época eu cochilava muito. Ai eu estava escrevendo e parei pra procurar um site já que o megafilmes HD acabou (raiva) E achei rapaz, pensei que tinham acabado com todos os sites de filme. Vou assistir, embora seja longo (em duas partes) e olha que ambas são longas!Ah! tava lembrando hoje (é pq ando sempre com pressa devido os afazeres e o neto) Aquele texto que vc escreveu “sem categoria” sim, eu sabia que o que significa mas a impressão que me deu é que havia uma msg subliminar ali kkk que vc estava falando de uma pessoa mesmo , achei-te vingativo rsrsr. Por falar em vingativo(embora não acredito em astrologia, mas acredito no estudo da personalidade dos signos, pq algumas coisas batem comigo rsrsrs) que signo tu és? Date: Fri, 4 Dec 2015 19:02:50 +0000 To: cris_victor2011@hotmail.com

    Curtido por 1 pessoa

  2. Depois dessa inspirante descrição, não me deixou saída senão lê-lo. Pode demorar pela quantidade de livros que fazem parte da minha lista, mas lerei. 😀
    Abraços!
    ps: gostaria ver mais post’s indicativos de uma boa leitura *-*

    Curtido por 1 pessoa

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